Depoimento de um ex-inválido

Written by Jethro Bezerra on . Posted in Comunhão

O texto a seguir é ficcional. É uma história inspirada no capítulo 5 do evangelho de João, inserido na sequência do texto para referência. É um exercício de interpretação e, muito despretenciosamente, literário também. O autor não teve ou tem nenhuma intenção de estabelecer verdades doutrinárias ou, muito menos, adicionar algum ‘til’ à palavra de Deus. Ainda que ele pessoalmente creia que a mensagem que pretende transmitir seja muito verdadeira. Se o texto servir para que os filhos de Deus ao menos se abram para receber a visitação libertadora do Senhor Jesus, independentemente das consequências, já terá cumprido seu propósito. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. JXBB


Betesda. A casa de misericórdia…

É impressionante como tudo agora faz sentido…

Eu fico me perguntando se o Senhor deu mesmo aquela risadinha de canto da boca ou se já não é tudo coisa da minha cabeça. Mas também, quem mandou eu ter dado aquela resposta tão boba? A verdade é que, se ele quisesse, ele poderia ter até gargalhado…

Se bem que quando eu paro para pensar, eu tenho minhas dúvidas se ele teria achado alguma graça naquela história. Sei lá, fico pensando nos amigos que deixei por lá e que até hoje não conseguem entender o que aconteceu comigo nem a mensagem do Salvador. Lembro também da reação dos fariseus naquele dia, e de todo o problema que até hoje eles têm causado, mesmo aqueles que se uniram aos discípulos na igreja. Toda essa obsessão que eles têm pelo assento de Moisés!.. A verdade é que talvez o Senhor ainda tenha muito trabalho pela frente até que encontre motivos pra sorrir.

O problema todo é que aquilo tudo acabava distraindo a gente demais. Toda aquela tradição, toda aquela religião… Se eu, que estava há 38 anos naquela situação, como um dos inválidos mais experientes (eu nem acredito que estou escrevendo isso), não tinha conseguido entender, fico imaginando então o que se passa na cabeça dos outros…

Pra falar a verdade, eu até nem sei direito de onde vem essa história das piscinas de cura. Só sei que nunca fizeram parte das leis de nosso povo. Uma vez ouvi o Simão dizer que há muito tempo atrás, os líderes religiosos da época, simplesmente assimilaram os Templos de Cura que eram utilizados pelos povos pagãos [1]. Eles disseram que era para satisfazer os interesses do povo que, segundo eles, acabariam utilizando os tanques de um jeito ou de outro. Pode até ser verdade que as intenções tenham sido as melhores, mas o fato do Sinédrio cobrar a taxa de manutenção do poço também deve ter ajudado bastante no argumento. Em todo caso, o Simão e os outros já confirmaram, e eu mesmo fiz questão de consultar com o curador da biblioteca, que a origem desses poços é puramente pagã mesmo.

Mas veja só, no meu tempo, se alguém me dissesse isso, eu ficaria até ofendido. Ainda me lembro daquelas reuniões que nós da Associação dos Inválidos e Amigos do Poço de Betesda fazíamos com o rabino pra reclamar do aumento do preço das taxas de manutenção. Ele então sempre nos mostrava algo nas escrituras. A preferida era sempre a passagem sobre ‘o povo murmurando contra Moisés nas águas de Mara’, que Deus então lhes dissera para que ‘fizessem o que era reto perante os olhos de Deus’, que assim haveria a ‘promessa do Deus que sara de que nenhuma enfermidade viria sobre nós’ e que finalmente, como resultado, ‘o povo acampara junto às águas de Elim, onde haviam também setenta palmeiras’. Ah! Sempre cedíamos e pagávamos o que fosse preciso pelo nosso lugar ‘junto às águas’[2]. Até porque as escrituras sempre nos comoviam muito. Fazer o quê? Ele era a autoridade nessas coisas espirituais e nós…, nós não passávamos de um grupo de pessoas carentes e ignorantes.

Como se não bastasse, a verdade é que, de alguma forma, as coisas funcionavam. Ainda me lembro de que, todas as vezes que alguém entrava primeiro na piscina e era curado, puxa, como aquele ambiente se enchia de alegria. Havia muitas glórias a Deus! O que poderíamos pensar, senão que aquilo era mesmo o último recurso da salvação de Deus pro seu povo? Hoje, acho simplesmente que Deus permitia aquilo tudo. Penso que, de um jeito ou de outro, Deus nos ama tanto que não vai perder nenhuma oportunidade de nos curar. Por outro lado, Ele também nunca vai querer nos impor nada em troca da nossa salvação, mas vai sempre nos dar a oportunidade de escolher…

Por isso que vejo até graça em ter respondido tão tolamente. Ainda bem que o Senhor sabia que no meu coração a resposta era sim. O problema é que eu estava muito acostumado com tudo aquilo. Não à toa, os dias que se seguiram à minha cura não foram lá muito fáceis. É claro que nada se comparava a poder andar novamente, mas que foi uma adaptação custosa, isso foi. Você há de concordar comigo, depois de quase quarenta anos, aquilo ali já tinha virado minha vida. Eu já sabia como aquele sistema todo funcionava. Aliás, sempre tentei participar da melhor forma na organização de tudo: o loteamento dos espaços, a distribuição de alimentos, a construção dos banheiros anexos… Como era difícil me locomover, até que não dava pra me envolver tão ativamente assim, mas pelo menos sempre vinham perguntar minha opinião. Não que no final das contas ela contasse muito, mas pelo menos fazia com que eu me sentisse um pouco importante…

Agora, mais curiosa ainda é a percepção curta que eu tinha do meu problema, achando que tudo o que me faltava era um homem que pudesse me levar até as águas. Oh! Quanta cegueira! O próprio Senhor na minha frente e eu achando que precisava de um outro alguém pra me guiar…

Hoje eu compreendo e meio que me envergonho de ter posto minha esperança em pessoas e coisas que não fossem o próprio Senhor. A verdade é que se o próprio Moisés estivesse ali pra me guiar, na presença gloriosa do Senhor Jesus ele simplesmente desapareceria. Ouvi dizer que, mais tarde, naquele mesmo dia, o Senhor dissera aos judeus que o perseguiam, provavelmente os mesmos que me repreenderam por estar carregando meu leito no sábado, que até mesmo as escrituras, em que eles tanto julgavam encontrar vida, testificavam dele mesmo. Uau! Para encontrar vida, bastaria se achegar até Ele. Nada mais. E eu distraído com tantas coisas…

Quem poderia dizer que hoje eu estaria andando. Não, eu não sou mais um inválido…

Quanta misericórdia! Meu guia, meu Elim, minha salvação, minha esperança, meu descanso, meu tudo, aquele que faz novas todas as coisas, bem ali na minha frente. Eu nem precisei me achegar a ele, mas foi ele quem veio até mim. Eu nem precisei dar a resposta certa, mas a cura veio mesmo assim. Tanta gente em tantos lugares em Jerusalém e ele veio justamente pra Betesda, a casa de misericórdia.

É, pensando bem, acho que ele deve ter dado aquele sorriso  sim…

 

[1] Maiores informações podem ser obtidas em http://en.wikipedia.org/wiki/Pool_of_Bethesda. Neste link, o artigo em inglês, mais completo, sobre o tanque de Betesda informa, por exemplo, que a menção da agitação das águas por um anjo nem mesmo fazia parte dos manuscritos mais antigos da bíblia.

[2] Citações de Êxodo 15:23-27. Servem para ilustrar como é possível produzir ensinamentos que nada tenham a ver com a verdade do evangelho. A displicência relacionada a chegar ao pleno conhecimento da verdade, que tem permitido a proliferação dos mais diversos e aberrantes tipos de doutrinas e práticas, tem desviado muitos filhos de Deus da fé comum. Vale lembrar que a distorção das escrituras pode atender aos mais nefastos interesses, até mesmo os do próprio inimigo de Deus, como demonstrado na tentação do Senhor Jesus, em Mateus 4.

 

“Depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.
Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.
Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.
Então os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar o leito.
Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma o teu leito, e anda.
Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito, e anda?
E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.
Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.
E aquele homem foi, e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara.
E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado.
E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente.
Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz; e ele lhe mostrará maiores obras do que estas, para que vos maravilheis.
Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer.
E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo;
Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.
Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.
Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão.
Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo;
E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.
Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.
E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.
Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro.
Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.
Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
Eu, porém, não recebo testemunho de homem; mas digo isto, para que vos salveis.
Ele era a candeia que ardia e alumiava, e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz.
Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.
E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer.
E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós.
Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;
E não quereis vir a mim para terdes vida.
Eu não recebo glória dos homens;
Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus.
Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.
Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?
Não cuideis que eu vos hei de acusar para com o Pai. Há um que vos acusa, Moisés, em quem vós esperais.
Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”
João 5:1-47

A doçura do caos

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Temos vivido, minha esposa e eu, um período de completa indefinição. Estamos de retorno a nosso país, mas não nos próximos meses. Mas, talvez, nos próximos meses. Não temos muito. O que precisamos para uma casa foi vendido: não temos pratos ou talheres, nem sofá ou cama… Por outro lado, temos várias coisas que não nos interessam ou que não podemos levar conosco: um aquecedor de água, uma fruteira, vasos de flores. Algumas coisas queremos levar: pratos decorativos, talvez um tapete. Mas não temos espaço ou limite de peso suficientes.

Nada se ajusta. Nada acontece normalmente. Não há respostas simples para nada. Já não estamos aqui – em muitos sentidos, mas ainda não estamos lá. Quando chegarmos lá, de certa forma, não teremos para onde ir. Embora, evidentemente, tenhamos vários familiares e amigos, amados irmãos, que nos esperam e estariam gratos em nos receber prontamente.

Em meio a esse caos, percebemos que não temos lugar algum no mundo. Não temos onde reclinar a cabeça – ainda que o amor fraternal dos filhos de Deus seja nosso sublime conforto nessa terra (Sl 16:3). Resta-nos aguardar uma pátria superior. Em meio ao caos, à loucura da indefinição, percebemos mais claramente a doçura de Cristo. Ele é nossa rocha de salvação. Nosso castelo forte. Nosso rochedo. Ele é a única certeza. O único ponto de estabilidade.

Graças ao Senhor pela bagunça, pela fragilidade, pela instabilidade de nossas vidas no mundo. Graças ao Senhor pelos problemas que desmascaram as mentiras do mundo, que desfazem a certeza do sistema injusto do mundo. Nossa situação caótica me fez considerar a maneira como o Senhor lidava com o mundo, com o caos à Sua volta.

O Senhor Jesus não tinha nenhuma esperança no mundo. Quando falava do mundo, o cosmo, o sistema que move a vida na terra, Ele não emitia opiniões nem lançava sugestões de melhoria. Ele veio para salvar aqueles que estavam perdidos, e não para mudar o mundo.

“Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo” (Jo 12:47).

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; (…) Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.“ (Jo 17:9, 14).

Nós, cristãos, no entanto, fomos ensinados a defender nosso ponto de vista, nosso juízo. Somos encorajados a defender nossos valores e, ultimamente, até a militância política em favor da defesa dos valores cristãos tem se tornado tema e base das pregações e sermões. Não somos como o Senhor. Ele queria salvar aqueles que estavam no mundo. Nós, ao contrário, tentamos salvar o mundo. E, nessa tentativa, muitas vezes até mesmo odiamos as pessoas.

De vez em quando, por Sua infinita graça e misericórdia, o Senhor “chacoalha” nosso mundo. Ele quer nos desairragar, nos livrar dos laços que nos envolvem tão fortemente nos negócios deste século. Ele quer salvar todo homem do laço do pecado. Mas também quer salvar todo homem do laço da independência, da humanização do mundo, do antropocentrismo. O Senhor Jesus é nosso único bem. Nossa única esperança. Ele deve ser nossa única busca. Nossa única militância. Tudo o mais é passageiro, irreal, desnecessário.

Esses “terremotos” podem ser desilusões, acidentes ou simples conclusões a que chegamos pela luz da Palavra. Por vezes, precisamos perder uma oportunidade na carreira para perceber que o Senhor é mais importante. Outras vezes, precisamos perder um bem valioso. Talvez, enfrentar um período de enfermidade. Jó passou por quase tudo: perdeu bens, perdeu aqueles a quem amava. Jó perdeu sua honra. De homem justo e respeitado, passou a um miserável que se justificava diante de seus amigos, tentando convencê-los de sua inocência (Jó 1:1-3; 19:1-4). Ao fim da história de Jó, no entanto, não vemos uma “auto-descoberta”, ou qualquer correção no caráter ou no quotidiano de Jó. Ele se arrependeu, mudou sua mente, quando viu o Senhor.

 “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

O Senhor, com Seu amor, destruirá muitos de nossos sonhos e tornará em pó muitas de nossas esperanças. O que Ele quer? Retirar nossos olhos das coisas – materiais ou imateriais; presentes, passadas ou futuras – e voltar toda nossa atenção a Ele mesmo. Se O virmos, mudaremos completamente. Que doce ver a face de Cristo, ainda que em meio à loucura do caos!

 “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.” (2 Co 4:6)

 

 

A igreja só existe quando não tem jeito de existir

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Hoje um amado irmão, pouco mais jovem que eu, perguntou-me se deveria fazer parte de uma chapa concorrendo à diretoria de sua denominação. Ele estava preocupado com o fato de ser o mais jovem naquele grupo. Estava preocupado com o fato de que, certamente, haveria problemas e desentendimentos futuros, e ele teria de se expressar e argumentar com pessoas mais velhas e mais respeitadas que ele. Ele queria saber se, estando certo de que algo era o melhor para os irmãos, poderia, com consciência limpa, lutar por sua opinião.

Eu não fui capaz de responder a essas questões, na verdade, nem tive tempo de tentar. Perguntei-lhe qual era a função dessa diretoria. Ao que me respondeu: “governar a igreja”. Era o que precisávamos para mudar completamente a direção da conversa e ler várias passagens bíblicas. Saímos da esfera da opinião pessoal acerca de um assunto (lutar por sua opinião) e fomos procurar o que a Bíblia diz a respeito de outro assunto (o governo da igreja).

Lemos Mateus 18, a respeito da esfera prática da igreja e da necessidade de haver testemunhas que se disponham a resolver os problemas dos irmãos. Lemos Atos 20, quando o apostolo Paulo se dirige aos presbíteros de Éfeso como bispos, mostrando que uma palavra (presbítero) se refere à pessoa e a outra (bispo) à sua função. Vimos ali como os presbíteros, ou bispos, são constituídos pelo Espírito a fim de pastorear o rebanho de Deus, apegando-se à Palavra, que tem poder para edificar e dar herança entre os que são santificados. Lemos as características que o Senhor espera encontrar naqueles que são presbíteros, em 1 Timóteo 3 e em Tito 1. Vimos a exortação de Pedro em 1 Pedro 5, para que os presbíteros, como ele mesmo, pastoreassem a igreja voluntariamente, sem ganância, não como dominadores, mas como modelos do rebanho.

Por fim, perguntei-lhe de que forma um processo eleitoral de uma diretoria se encaixava nos textos que acabáramos de ler. Ele me respondeu que, na verdade, aquele não era o caminho que a Bíblia apresentava. Então lhe perguntei com que palavras ele se dirigiria a Deus, em oração, pedindo-Lhe bênção para trilhar um caminho que a Bíblia não aponta.

Emudecimento.

De certa forma, o irmão saiu entristecido da conversa. Na atual conjuntura, ele vê a diretoria como um mal necessário. Não está na Bíblia, mas é a única maneira de manter um registro perante as autoridades, de administrar um prédio, uma tesouraria, de contratar e supervisionar o trabalho de um pastor e uma série de outras questões práticas. Na verdade, a maioria dessas atividades não encontra qualquer base na revelação neotestamentária. Mas, como ter uma igreja sem essas coisas?

A igreja verdadeira não precisa de nenhuma “coisa” para existir. A igreja não é aquela associação civil detentora de um estatuto e de um imóvel. Muito menos seria o simples imóvel. A igreja é muito maior. A igreja é o novo homem coletivo, criado em Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (Ef 4:21). É a família de Deus, o corpo de Cristo, a obra prima de Deus. É a universal assembléia dos primogênitos de Deus (Hb 12:23).

Esse é um grande teste para nossa fé. Se nos fixarmos na idéia de que é necessário reunir um grupo com regularidade litúrgica, usar um imóvel grande e adequado para a realização de uma determinada liturgia, para que haja igreja; se acharmos que é preciso dinheiro e organização para que haja igreja, para que haja a vida da igreja; realmente precisaremos “engolir” uma porção de “males necessários”. Uma porção de coisas e práticas que vão contra a vontade de Deus revelada na Bíblia. Mas, se simplesmente crermos em Deus e confiarmos em sua Palavra, estaremos livres de todas essas preocupações.

O princípio da manifestação de Deus no Novo Testamento é que, quando somos fracos, então é que somos fortes. Por que o Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12:9-10). Quando não sou capaz, Ele se mostra capaz. Quando não tenho a solução para a existência da igreja, então Deus a traz à existência por Sua Palavra. “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11:3). A igreja só será visível e verdadeira se vier a existir, subsistir e persistir, à partir daquilo que não aparece. A igreja é fruto do trabalhar de Deus em nós. Ele criou o universo, cumpriu a redenção, gerou fé em nós. É Deus quem fará tudo e em todos. A igreja não é fruto de nossas boas ações, nem subsiste baseada em bens, contratos e boas soluções para os problemas práticos.

Se a igreja que você conhece é fruto da manutenção de uma ordem, de uma tradição, então você ainda não viu a igreja que Deus vê. Se você liga a continuidade ou o sucesso da igreja ao falar de algum profeta, ou grupo específico de profetas, então, você é parte da igreja deles. A igreja de Deus só depende de Deus. Nela, Deus é insubstituível. Na igreja verdadeira, Deus é o único infalível, o único em que nos fiamos e a quem seguimos ‘cegamente’ – embora Ele sempre nos revele o que irá fazer, quando o seguimos (Am 3:7).

A igreja verdadeira só existe em nossa experiência quando a igreja aparente, criada pelo esforço e capacidade humanos, deixa de existir. É um preço alto, levando em consideração os anos de tradicionalismo e conformismo que nos formam, que formam nosso caráter. Mas é uma decisão maravilhosa: confiar em Deus, e permitir-Lhe trazer à existência, em nós, a igreja que Ele tanto desejou, e por quem a Si mesmo Se entregou (Ef 5:25).