As armas e a guerra

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Li, ontem, no jornal de maior circulação no Quênia, uma crítica à maneira de fazer guerra do país. Um cidadão queniano comparava o estilo de exércitos vizinhos, que considera bem sucedidos. Ele citou a ‘aderência’, por parte do exército de seu país, a uma ‘consciência internacional’, que, segundo ele, gera um relacionamento subserviente em relação à opinião pública, materializada nos meios de comunicação, especialmente internacionais.

Ele citou, como contrapartida, o exército de Uganda, que derrotou, sem jamais prestar quaisquer informações à mídia, e expulsou ditadores extremamente temidos, como Idi Amin Dada, em Uganda, e também ajudou a formar a República Democrática Congo, ao expulsar o cruel Mobuto, que a chamava de Zaire. Depois, citou o exército de Ruanda, a única força militar que realmente interviu, e teve sucesso em interromper o genocídio da etnia Tutsi, um massacre comprovadamente organizado e patrocinado por forças internacionais muito mais poderosas e, à época, diluído pela mídia internacional como pequeno conflito étnico.

Esses dois exércitos têm entre as características comuns sua origem “não-oficial”, miliciana. Sua motivação, digamos, muito mais passional e ideológica que profissional. Formaram-se num movimento de luta por liberdade ou, simplesmente pela preservação de sua etnia. Também comungam de uma tática hoje considerada obsoleta e ineficiente: esses exércitos caminham até seu objetivo. E, até mesmo por isso, geralmente trazem consigo pouco equipamento e mantimento.

Foi assim que o exército de Uganda caminhou 1600 km até Kinshasa, onde derrotaram Mobuto. Foi assim que o exército de Ruanda circundou todo o país e desarticulou todas as tropas organizadas do antigo regime, inclusive os batalhões franceses que as apoiavam. Foi assim que, ao chegar a Kinshasa, o exército de Uganda já havia dizimado todos os focos de resistência no caminho. Já havia conquistado a aderência de voluntários locais, e o apoio logístico de uma boa parcela da população.

A esta altura, você, como um bom cristão, deve estar se perguntando qual seria o seu interesse em assuntos assim, tão mundanos e sangrentos. Bem, o Senhor nos aconselhou a aprender algo com respeito à administração de recursos realizada pelos filhos desse século, “porque os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16:8). Em especial, o Senhor queria nos ajudar a fazer bom uso das nossas riquezas materiais.

“E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito”. (v. 9-10)

É claro que, em se tratando de riquezas materiais, seria mais óbvio olhar para os banqueiros de Wall Street. Eles têm muito, e terão ainda mais. Mas eu creio que, para nosso aperfeiçoamento na carreira cristã, deve ser mais interessante olhar para esses exércitos e aprender o que eles fazem das riquezas que têm – ou melhor, não têm. Digo, eles têm pouco, mas realizam muito.

O que a parábola do administrador infiel, em Lucas 12, nos mostra é que, na verdade, todos nós somos administradores infiéis, por natureza. Todos nós precisamos de certo “empurrãozinho”, a iminência do julgamento, para buscar ajustar nossas contas. Aquele administrador infiel usou de riquezas que não eram suas a fim de garantir seu futuro. E, não se engane, foi louvado por isso. Não digo que sejamos todos desorganizados e ineficientes quanto a padrões humanos. O que quero mostrar é que nossa natureza infiel tende a confundir o que realmente vem de nós, e aquilo que não vem de nós. Não só confundimos a origem, como também a natureza das coisas. E o resultado é reprovação.

A fonte de nossos recursos

O exército queniano, de acordo com dados apresentados naquela reportagem, recebe enormes aportes internacionais. Mas, por outro lado, está envolvido numa guerra de interesse muito mais ‘internacional’ que nacional. Estão na Somália lutando contra uma organização acusada de ataques em território queniano, especialmente seqüestros e furtos. O exército queniano mantém uma campanha coordenada com auxílio de consultores internacionais, claramente apresentada à mídia por meio de coletivas de imprensa diárias. Financiado por agentes externos, influenciado por agentes externos, agindo em favor de interesses externos, vigiado por olhos externos.

Uganda e Ruanda têm de conseguir no próprio campo de batalha, geralmente por aprovação popular, os recursos de que precisam em seu caminho. Quênia recebe os recursos de agentes estranhos ao campo de batalha. Uganda e Ruanda são recebidos como parte do povo e representantes da vontade popular. Quênia é criticado como mero fantoche. A fonte dos recursos parece invadir a vontade e, talvez, até mesmo a identidade de seu recipiente.

Quênia, em sua abundância, nos mostra o significado da escravidão de alguém que olha sempre para outro, a fim de receber suprimento. Uganda e Ruanda são um exemplo de como a provisão e os recursos para batalha podem vir do próprio objeto de nossa defesa. Se defendemos a verdade, nossa provisão e armas vêm, necessariamente, da verdade. Se sua percepção e conhecimento da verdade vêm, majoritariamente, de outra pessoa, de um bom ministro, você pode declarar-se realmente livre? Se todos os caminhos para sua prática cristã foram apontados por um único ministro, você é realmente livre?

Há também o perigo de acreditarmos que temos direito sobre aquilo que recebemos, e, é nesse caso que combatentes apoiados pela população passam, rapidamente, a algozes de seus defensores. Veja o caso de Qadaffi, na Líbia, ascenso ao poder numa revolta popular, libertária, fez-se, ele mesmo, ditador. E não é estranho que tenha sido deposto pela mesma via.

Isso me fez considerar a origem do que tenho em mãos. Depois de três anos longe de meu país e de meu emprego, tenho aprendido uma coisa: tudo o que tenho, é por que recebi. Nada do que tenho é realmente meu. O Senhor nos fez passar, minha esposa e eu, todo esse tempo sem que realmente tivéssemos necessidade de nada [embora, vez ou outra, eu tivesse achado que nos faltava algo, a verdade é que não faltou nada do que precisássemos].

“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23:1)

Houve um tempo em que eu recebia, para padrões brasileiros, um salário mais do que suficiente para minhas necessidades. Algumas vezes, naquele período, tive certeza de que merecia aquilo, e ainda mais. A verdade é que nem o pão, nem mesmo o ar que respiro, nada foi conquistado, merecido, como se viesse de minha própria capacidade. Tudo veio do cuidado amoroso de Deus. Deus seja louvado!

O maior problema é que, sempre que fui a origem de meus recursos, fui também o alvo. Quando o que temos é nosso, é também para nós. Nossa infidelidade, geralmente, não consiste apenas em servir da maneira errada, mas em servir a pessoa errada. Temos muitas coisas ‘nossas’ e, conseqüentemente, servimos muito a nós mesmos. Meus bens. Minhas convicções. Minha doutrina. Minha prática. Meu grupo. Meu líder. Minha identidade.

Tenho visto pessoas defendendo um ‘ungido’ de Deus, e, por algum tempo pensava que prestavam adoração subserviente ao líder em sincera abnegação. Mas, observando com mais atenção é impossível não perceber que defender o líder é, na verdade, defender a si mesmo. Servir o líder humano, atribuindo-lhe infalibilidade divina, é servir à sua própria convicção de infalibilidade. É servir a si mesmo. O seguidor projeta no líder a convicção que tem a respeito de si mesmo, e exalta o líder para exaltar a si mesmo. Foi por isso que o Senhor não aceitou ser chamado ‘bom mestre’: para que o discípulo não permanecesse no erro de julgar-se bom (Mc 10:17; Lc 18:18-19).

Vejo que é necessário recordar-me, constantemente, de que meu redentor é também meu Senhor e minha única fonte. Tudo subsiste Nele. Essa é a única maneira de servir somente a Ele, e não a mim mesmo.

“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” (Cl 1:13-17)

A natureza de nossas armas

Agora, é interessante perceber que as riquezas materiais não constituem, de acordo com a sã doutrina dos apóstolos, os recursos de que dispomos em nossa batalha. “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10:4-5).

Riquezas materiais e armas espirituais realmente não se misturam. São de naturezas diferentes. Isso é ainda mais evidente quando nos lembramos de que o Senhor se referia à riqueza da terra como “riquezas de origem iníqua”. A questão é que o administrador é o mesmo. E quem é injusto no pouco, é também no muito. Quem é infiel naquilo que não é importante, é também naquilo que importa.

Da mesma maneira com que nos enganamos quanto à fonte dos recursos de que dispomos [nos julgando, na maioria das vezes, merecedores do fruto de nosso próprio esforço e qualificação], também erramos agindo, ainda que inconscientemente, como se a graça e a luz de que desfrutamos fossem fruto de nossa própria justiça ou fidelidade. Essa confusão também se explica, em certa medida, pela falta de percepção da natureza de nossas armas espirituais. Como podem armas espirituais advirem da capacidade natural, terrena, de quem as detém? Como pode a graça decorrer de obras, se ninguém pode sequer ser justificado por suas obras (Rm 3:28; Gl 2:16; Gl 3:11)? Como podemos derivar a certeza de que seremos aprovados, vencedores, do fato de aderirmos a uma prática ou de suportarmos um ministério particular? Não seria isso graça advindo de obra?

Em outro trecho, a Palavra se refere ao poder de Deus sendo manifestado nas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas (2 Co 6:7). Mais uma vez, o poder é de Deus, e as armas provêm da justiça. E, certamente, não temos justiça em nós mesmos, senão o próprio “Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Co 1:30-31).

De maneira mais específica ainda, sabemos que temos, entre os itens de nossa armadura, a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6:17). Essa espada é “viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4:12).

Segundo o versículo citado acima, a eficácia de nossa atuação no mundo advém inteiramente da Palavra. Ela é viva e eficaz, e permanece para sempre (1 Pe 1:23). Nosso impacto como sal da terra, depende do sal da Palavra (Cl 4:6). O poder de multiplicação, qualquer que seja, advém da semente e não de quem planta, nem de quem rega, nem de como o fazem (1 Co 3:6-7; Tg 1:18; Fp 1:15-18).

“De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:7)

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18)

“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade (…) Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei”. (Fp 1:15, 18)

 

O objetivo de nossa luta

Ora, se os resultados dependem apenas da Palavra, por que lutar, então? A Palavra tem em si poder para crescer e multiplicar-se (Is 55:11; At 6:7; 12:24), por que, então, labutamos? Lutamos pela defesa dessa mesma Palavra. Não por que não tenha poder em si mesma, mas para que seja recebida como de fato é. Não lutamos pela pureza da Palavra, mas sim contra a impureza dos canais pelos quais é transmitida (Fp 1:7, 16).

Estou incumbido da defesa do evangelho (Fp 1:16). Você também. Temos o mesmo combate (Fp 1:30). Esse é o bom combate da fé (1 Tm 6:18). Nossa tarefa, como bons soldados, é nos firmarmos nas profecias de que antecipadamente fomos objeto, não nos envolvendo nos negócios dessa vida, antes, procurando satisfazer apenas Àquele que nos arregimentou (1 Tm 1:18; 2 Tm 2:3-4). O encorajamento a nos firmarmos nas promessas mostra nossa tendência natural de nos afastarmos delas. Lutamos, portanto, primeiramente, contra as fortalezas em nossa própria mente, contra as mentiras, que, por bem contadas, parecem-nos a verdade. Lutamos contra a tradição, contra a hipocrisia, isto é, contra os substitutos da Palavra, os substitutos de Cristo.

“Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo:  Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15:5-9)

Nossa estratégia

Note que os verdadeiros inimigos da Palavra são interiores, portanto, a estratégia para derrotá-los deve tocar nosso interior. É certo que há perseguições exteriores. Sei disso muito bem, especialmente depois de passar alguns anos em um país em que a mera circulação com material evangelístico é criminalizada. Mas, confesso: limitações exteriores nunca constituíram inimigos reais. O medo da morte pode ser um inimigo, mas a morte não tem qualquer poder sobre nós (Sl 49:15; Hb 2:14). Auto-preservação pode ser um inimigo, apesar do fogo dos sofrimentos ser, necessariamente, para nosso bem (Mt 5:10; Rm 8:28; 1 Pe 1:7; 4:12).  O medo da incerteza pode ser um inimigo, mas é apenas quando não sabemos para onde ir que o vento do Espírito Santo enche nosso peito, e nos leva para onde quer. Parece paradoxal, mas, nos firmarmos nas promessas é inteiramente um assunto de nos desapegarmos de nossa própria solidez – é abandonar o barco para ir ter com o Senhor sobre as águas.

“Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3:7-8)

Mas, talvez, auto-afirmação seja o maior inimigo. Veja, nossa liberdade está intimamente ligada ao nosso arbítrio, à maneira com que julgamos. É nosso arbítrio que é livre. Ao usá-lo, a Bíblia nos instrui a julgar todas as coisas. Mas nos adverte a não julgar pessoas, pois, pela mesma medida com que julgamos, também seremos julgados. Devemos julgar todas as coisas usando a Palavra, dividindo pensamentos e propósitos do coração. Assim podemos ser aprovados, não tendo nada do que nos envergonhar (2 Tm 2:15). Na prática, porém, fazemos exatamente o inverso: julgamos pessoas e ‘engolimos’ qualquer coisa proveniente daqueles previamente julgados como ‘bons mestres’. Nossa insistência em atribuir bondade aos nossos eleitos, como já ponderei, é, em última instância, auto-afirmação.

“julgai todas as coisas, retende o que é bom;” (1 Ts 5:21)

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7:1-2)

“Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Co 2:15)

Recorde que o apóstolo insta para que a igreja julgue o que ele fala, apesar de ter certeza de que ele mesmo não deve ser julgado, nem julga a si mesmo, pois a responsabilidade para julgar pessoas está inteiramente sobre o Senhor.

 “Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo” (1 Co 10:15)

“Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo. Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor” (1 Co 4:3-4)

Nossa liberdade e nobreza consistem em conferir coisas espirituais com espirituais (1 Co 2:13). Examinando, com avidez, as escrituras para ver como as coisas, de fato, são (At 17:11). Por favor, não confunda isso com legalismo ou tradicionalismo. A diferença essencial, devo lembrar, está na fonte: por que a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1:17). O vento, o mover, do Espírito Santo certamente está nas Escrituras, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:21).

E é com nossa real liberdade em Cristo que lutamos pela verdade do evangelho. Contra toda confusão. Contra as coisas indevidamente não julgadas. Não julgando a ninguém, apesar de julgar tudo. Lutamos para, de algum modo, sermos cooperadores da verdade, na defesa e confirmação do evangelho, e, na verdade, desfrutarmos a nossa paz (Jo 8:36; 1 Co 9:13; Cl 3:5; Fp 1:5, 7; 3 Jo 1:18; ).

 “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36)

“Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele” (1 Co 9:13)

“Pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.  Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo” (Fp 1:5, 7)

“Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos” (Cl 3:5)

“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4:7)

 

Depoimento de um ex-inválido

Written by Jethro Bezerra on . Posted in Comunhão

O texto a seguir é ficcional. É uma história inspirada no capítulo 5 do evangelho de João, inserido na sequência do texto para referência. É um exercício de interpretação e, muito despretenciosamente, literário também. O autor não teve ou tem nenhuma intenção de estabelecer verdades doutrinárias ou, muito menos, adicionar algum ‘til’ à palavra de Deus. Ainda que ele pessoalmente creia que a mensagem que pretende transmitir seja muito verdadeira. Se o texto servir para que os filhos de Deus ao menos se abram para receber a visitação libertadora do Senhor Jesus, independentemente das consequências, já terá cumprido seu propósito. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. JXBB


Betesda. A casa de misericórdia…

É impressionante como tudo agora faz sentido…

Eu fico me perguntando se o Senhor deu mesmo aquela risadinha de canto da boca ou se já não é tudo coisa da minha cabeça. Mas também, quem mandou eu ter dado aquela resposta tão boba? A verdade é que, se ele quisesse, ele poderia ter até gargalhado…

Se bem que quando eu paro para pensar, eu tenho minhas dúvidas se ele teria achado alguma graça naquela história. Sei lá, fico pensando nos amigos que deixei por lá e que até hoje não conseguem entender o que aconteceu comigo nem a mensagem do Salvador. Lembro também da reação dos fariseus naquele dia, e de todo o problema que até hoje eles têm causado, mesmo aqueles que se uniram aos discípulos na igreja. Toda essa obsessão que eles têm pelo assento de Moisés!.. A verdade é que talvez o Senhor ainda tenha muito trabalho pela frente até que encontre motivos pra sorrir.

O problema todo é que aquilo tudo acabava distraindo a gente demais. Toda aquela tradição, toda aquela religião… Se eu, que estava há 38 anos naquela situação, como um dos inválidos mais experientes (eu nem acredito que estou escrevendo isso), não tinha conseguido entender, fico imaginando então o que se passa na cabeça dos outros…

Pra falar a verdade, eu até nem sei direito de onde vem essa história das piscinas de cura. Só sei que nunca fizeram parte das leis de nosso povo. Uma vez ouvi o Simão dizer que há muito tempo atrás, os líderes religiosos da época, simplesmente assimilaram os Templos de Cura que eram utilizados pelos povos pagãos [1]. Eles disseram que era para satisfazer os interesses do povo que, segundo eles, acabariam utilizando os tanques de um jeito ou de outro. Pode até ser verdade que as intenções tenham sido as melhores, mas o fato do Sinédrio cobrar a taxa de manutenção do poço também deve ter ajudado bastante no argumento. Em todo caso, o Simão e os outros já confirmaram, e eu mesmo fiz questão de consultar com o curador da biblioteca, que a origem desses poços é puramente pagã mesmo.

Mas veja só, no meu tempo, se alguém me dissesse isso, eu ficaria até ofendido. Ainda me lembro daquelas reuniões que nós da Associação dos Inválidos e Amigos do Poço de Betesda fazíamos com o rabino pra reclamar do aumento do preço das taxas de manutenção. Ele então sempre nos mostrava algo nas escrituras. A preferida era sempre a passagem sobre ‘o povo murmurando contra Moisés nas águas de Mara’, que Deus então lhes dissera para que ‘fizessem o que era reto perante os olhos de Deus’, que assim haveria a ‘promessa do Deus que sara de que nenhuma enfermidade viria sobre nós’ e que finalmente, como resultado, ‘o povo acampara junto às águas de Elim, onde haviam também setenta palmeiras’. Ah! Sempre cedíamos e pagávamos o que fosse preciso pelo nosso lugar ‘junto às águas’[2]. Até porque as escrituras sempre nos comoviam muito. Fazer o quê? Ele era a autoridade nessas coisas espirituais e nós…, nós não passávamos de um grupo de pessoas carentes e ignorantes.

Como se não bastasse, a verdade é que, de alguma forma, as coisas funcionavam. Ainda me lembro de que, todas as vezes que alguém entrava primeiro na piscina e era curado, puxa, como aquele ambiente se enchia de alegria. Havia muitas glórias a Deus! O que poderíamos pensar, senão que aquilo era mesmo o último recurso da salvação de Deus pro seu povo? Hoje, acho simplesmente que Deus permitia aquilo tudo. Penso que, de um jeito ou de outro, Deus nos ama tanto que não vai perder nenhuma oportunidade de nos curar. Por outro lado, Ele também nunca vai querer nos impor nada em troca da nossa salvação, mas vai sempre nos dar a oportunidade de escolher…

Por isso que vejo até graça em ter respondido tão tolamente. Ainda bem que o Senhor sabia que no meu coração a resposta era sim. O problema é que eu estava muito acostumado com tudo aquilo. Não à toa, os dias que se seguiram à minha cura não foram lá muito fáceis. É claro que nada se comparava a poder andar novamente, mas que foi uma adaptação custosa, isso foi. Você há de concordar comigo, depois de quase quarenta anos, aquilo ali já tinha virado minha vida. Eu já sabia como aquele sistema todo funcionava. Aliás, sempre tentei participar da melhor forma na organização de tudo: o loteamento dos espaços, a distribuição de alimentos, a construção dos banheiros anexos… Como era difícil me locomover, até que não dava pra me envolver tão ativamente assim, mas pelo menos sempre vinham perguntar minha opinião. Não que no final das contas ela contasse muito, mas pelo menos fazia com que eu me sentisse um pouco importante…

Agora, mais curiosa ainda é a percepção curta que eu tinha do meu problema, achando que tudo o que me faltava era um homem que pudesse me levar até as águas. Oh! Quanta cegueira! O próprio Senhor na minha frente e eu achando que precisava de um outro alguém pra me guiar…

Hoje eu compreendo e meio que me envergonho de ter posto minha esperança em pessoas e coisas que não fossem o próprio Senhor. A verdade é que se o próprio Moisés estivesse ali pra me guiar, na presença gloriosa do Senhor Jesus ele simplesmente desapareceria. Ouvi dizer que, mais tarde, naquele mesmo dia, o Senhor dissera aos judeus que o perseguiam, provavelmente os mesmos que me repreenderam por estar carregando meu leito no sábado, que até mesmo as escrituras, em que eles tanto julgavam encontrar vida, testificavam dele mesmo. Uau! Para encontrar vida, bastaria se achegar até Ele. Nada mais. E eu distraído com tantas coisas…

Quem poderia dizer que hoje eu estaria andando. Não, eu não sou mais um inválido…

Quanta misericórdia! Meu guia, meu Elim, minha salvação, minha esperança, meu descanso, meu tudo, aquele que faz novas todas as coisas, bem ali na minha frente. Eu nem precisei me achegar a ele, mas foi ele quem veio até mim. Eu nem precisei dar a resposta certa, mas a cura veio mesmo assim. Tanta gente em tantos lugares em Jerusalém e ele veio justamente pra Betesda, a casa de misericórdia.

É, pensando bem, acho que ele deve ter dado aquele sorriso  sim…

 

[1] Maiores informações podem ser obtidas em http://en.wikipedia.org/wiki/Pool_of_Bethesda. Neste link, o artigo em inglês, mais completo, sobre o tanque de Betesda informa, por exemplo, que a menção da agitação das águas por um anjo nem mesmo fazia parte dos manuscritos mais antigos da bíblia.

[2] Citações de Êxodo 15:23-27. Servem para ilustrar como é possível produzir ensinamentos que nada tenham a ver com a verdade do evangelho. A displicência relacionada a chegar ao pleno conhecimento da verdade, que tem permitido a proliferação dos mais diversos e aberrantes tipos de doutrinas e práticas, tem desviado muitos filhos de Deus da fé comum. Vale lembrar que a distorção das escrituras pode atender aos mais nefastos interesses, até mesmo os do próprio inimigo de Deus, como demonstrado na tentação do Senhor Jesus, em Mateus 4.

 

“Depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.
Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.
Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.
Então os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar o leito.
Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma o teu leito, e anda.
Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito, e anda?
E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.
Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.
E aquele homem foi, e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara.
E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado.
E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente.
Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz; e ele lhe mostrará maiores obras do que estas, para que vos maravilheis.
Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer.
E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo;
Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.
Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.
Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão.
Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo;
E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.
Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.
E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.
Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro.
Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.
Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
Eu, porém, não recebo testemunho de homem; mas digo isto, para que vos salveis.
Ele era a candeia que ardia e alumiava, e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz.
Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.
E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer.
E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós.
Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;
E não quereis vir a mim para terdes vida.
Eu não recebo glória dos homens;
Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus.
Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.
Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?
Não cuideis que eu vos hei de acusar para com o Pai. Há um que vos acusa, Moisés, em quem vós esperais.
Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”
João 5:1-47

A doçura do caos

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Temos vivido, minha esposa e eu, um período de completa indefinição. Estamos de retorno a nosso país, mas não nos próximos meses. Mas, talvez, nos próximos meses. Não temos muito. O que precisamos para uma casa foi vendido: não temos pratos ou talheres, nem sofá ou cama… Por outro lado, temos várias coisas que não nos interessam ou que não podemos levar conosco: um aquecedor de água, uma fruteira, vasos de flores. Algumas coisas queremos levar: pratos decorativos, talvez um tapete. Mas não temos espaço ou limite de peso suficientes.

Nada se ajusta. Nada acontece normalmente. Não há respostas simples para nada. Já não estamos aqui – em muitos sentidos, mas ainda não estamos lá. Quando chegarmos lá, de certa forma, não teremos para onde ir. Embora, evidentemente, tenhamos vários familiares e amigos, amados irmãos, que nos esperam e estariam gratos em nos receber prontamente.

Em meio a esse caos, percebemos que não temos lugar algum no mundo. Não temos onde reclinar a cabeça – ainda que o amor fraternal dos filhos de Deus seja nosso sublime conforto nessa terra (Sl 16:3). Resta-nos aguardar uma pátria superior. Em meio ao caos, à loucura da indefinição, percebemos mais claramente a doçura de Cristo. Ele é nossa rocha de salvação. Nosso castelo forte. Nosso rochedo. Ele é a única certeza. O único ponto de estabilidade.

Graças ao Senhor pela bagunça, pela fragilidade, pela instabilidade de nossas vidas no mundo. Graças ao Senhor pelos problemas que desmascaram as mentiras do mundo, que desfazem a certeza do sistema injusto do mundo. Nossa situação caótica me fez considerar a maneira como o Senhor lidava com o mundo, com o caos à Sua volta.

O Senhor Jesus não tinha nenhuma esperança no mundo. Quando falava do mundo, o cosmo, o sistema que move a vida na terra, Ele não emitia opiniões nem lançava sugestões de melhoria. Ele veio para salvar aqueles que estavam perdidos, e não para mudar o mundo.

“Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo” (Jo 12:47).

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; (…) Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.“ (Jo 17:9, 14).

Nós, cristãos, no entanto, fomos ensinados a defender nosso ponto de vista, nosso juízo. Somos encorajados a defender nossos valores e, ultimamente, até a militância política em favor da defesa dos valores cristãos tem se tornado tema e base das pregações e sermões. Não somos como o Senhor. Ele queria salvar aqueles que estavam no mundo. Nós, ao contrário, tentamos salvar o mundo. E, nessa tentativa, muitas vezes até mesmo odiamos as pessoas.

De vez em quando, por Sua infinita graça e misericórdia, o Senhor “chacoalha” nosso mundo. Ele quer nos desairragar, nos livrar dos laços que nos envolvem tão fortemente nos negócios deste século. Ele quer salvar todo homem do laço do pecado. Mas também quer salvar todo homem do laço da independência, da humanização do mundo, do antropocentrismo. O Senhor Jesus é nosso único bem. Nossa única esperança. Ele deve ser nossa única busca. Nossa única militância. Tudo o mais é passageiro, irreal, desnecessário.

Esses “terremotos” podem ser desilusões, acidentes ou simples conclusões a que chegamos pela luz da Palavra. Por vezes, precisamos perder uma oportunidade na carreira para perceber que o Senhor é mais importante. Outras vezes, precisamos perder um bem valioso. Talvez, enfrentar um período de enfermidade. Jó passou por quase tudo: perdeu bens, perdeu aqueles a quem amava. Jó perdeu sua honra. De homem justo e respeitado, passou a um miserável que se justificava diante de seus amigos, tentando convencê-los de sua inocência (Jó 1:1-3; 19:1-4). Ao fim da história de Jó, no entanto, não vemos uma “auto-descoberta”, ou qualquer correção no caráter ou no quotidiano de Jó. Ele se arrependeu, mudou sua mente, quando viu o Senhor.

 “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

O Senhor, com Seu amor, destruirá muitos de nossos sonhos e tornará em pó muitas de nossas esperanças. O que Ele quer? Retirar nossos olhos das coisas – materiais ou imateriais; presentes, passadas ou futuras – e voltar toda nossa atenção a Ele mesmo. Se O virmos, mudaremos completamente. Que doce ver a face de Cristo, ainda que em meio à loucura do caos!

 “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.” (2 Co 4:6)