A salvação pela fé

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

A salvação pela fé é um assunto básico da vida cristã. Infelizmente, muitas vezes é um tema tratado como “tão básico” que deve ser relegado a segundo plano, como um assunto que só precisa vir à tona quando um incrédulo ou um novo convertido estiver recebendo os primeiros ensinamentos acerca do evangelho.

Uma pessoa pode aprender as letras no alfabeto e depois nunca mais pensar ou falar sobre elas, mesmo usando-as para escrever textos sobre os mais diversos e complexos assuntos. Mas um cristão não pode abandonar a salvação pela fé e partir para coisas superiores. Pois, que pode ser superior? Que é mais importante para o pecador que sua salvação? Que certeza mais elevada pode ter o pecador, senão aquela que funda sobre o Salvador?

É por isso que Deus disse essa palavra ao profeta Habacuque, com a instrução de que escrevesse em tábuas, para que a pudesse ler até quem passasse correndo: “Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará. Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé.” (Hb 2:3-4).

É imprescindível, para o cristão, perceber que sua salvação, sua história com Deus, não apenas se inicia pela fé. Ela subsiste e progride pela fé. Toda nossa jornada como filhos de Deus é trilhada pela fé. O justo é gerado pela fé. O justo vive pela sua fé. Creio que foi essa percepção que levou Paulo, em seu “tratado do evangelho” aos irmãos em Roma, a dizer:  “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1:16-17).

Podemos receber bastante ajuda se meditarmos no significado da expressão “de fé em fé”, utilizada por Paulo na afirmação acima. Ela provavelmente significa que a fé nos conduz, desde nosso “primeiro encontro” com o Senhor, até o dia eterno, em que estaremos para sempre com Ele. É a fé que nos permite desfrutar o poder de Deus no evangelho. Foi a fé que nos salvou, e sempre nos salvará. Talvez seja por isso que, ao revelar nossa habitação final, o Senhor tenha se mostrado como o Cordeiro: para que nos lembremos eternamente de nossa salvação pela fé Nele (Ap 21:22-23; 22:1, 3).

O Senhor Jesus atestou por várias vezes que a fé foi o motivo, a causa, a força motriz da salvação daqueles que O encontravam. Ele disse àquela mulher que foi curada ao tocá-lo: “Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou” (Mt 9:22). Ao cego, que Lhe pediu apenas que retornasse a ver: “Vai, a tua fé te salvou” (Mc 10:52). À mulher pecadora, que ungiu os pés do Senhor, e os enxugou com seus cabelos: “A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc 7:50). Essas pessoas foram salvas em situações distintas e foram resgatadas de problemas distintos: mas todas foram salvas pela fé. Diariamente, podemos ser salvos da morte, da cegueira, dos muitos pecados. Podemos ser salvos em diferentes aspectos e diferentes níveis, mas seremos sempre salvos pela fé.

Um dos aspectos mais importantes da salvação pela fé é a justificação, isto é, o perdão de nossos pecados. Pois os nossos pecados fazem separação entre nós e Deus. E o pecador não possui nem é capaz de produzir qualquer sentimento, devoção ou obra que possa transpor essa barreira. Todos os homens foram sepultados debaixo do pecado e não há um justo sequer (Rm 3:10). Essa conclusão é importante, pois orienta o foco de nossa atenção. Se pudéssemos construir uma torre que nos levasse até Deus, isto é, se fôssemos justificados por obras, então deveríamos dedicar toda nossa vida a isso. Mas não somos justificados por obras, somos justificados pela fé. Por um lado, isso indica que a fé deve receber especial atenção. Por outro lado, significa que não podemos nos fiar em nossas obras, que, em última instância, é o mesmo que confiar em nós mesmos.

Na casa de Simão, o fariseu, nenhum daqueles que confiavam em si mesmos lavou os pés do Senhor, nem Lhe deu o ósculo, nem ungiu Sua cabeça. Nenhum deles foi perdoado. Nenhum deles amou o Senhor. Mas aquela mulher pecadora, que não conseguia fazer outra coisa senão chorar, teve seus muitos pecados perdoados. Ela permaneceu aos pés do Senhor. Amou o Senhor. Ela foi salva. Tudo isso pela sua fé (Lc 7:36-50). É claro que não podemos simplesmente “apontar o dedo” para aqueles fariseus e deixar de considerar o fato de que nós confiamos demais em nós mesmos. Por isso a justificação pela fé teve tanto destaque no ensinamento apostólico (At 15:9; 26:18; Rm 3:22-30; Gl 2:16-20; 3:8, 24; Fp 3:9; 2 Ts 2:13; 2 Tm 3:15).

Outro aspecto da salvação pela fé, e que resulta da justificação, é a paz com Deus. Havia uma inimizade “natural” entre nós e Deus, pois a inclinação da carne é inimizade contra Deus (Rm 8:7). Mas agora, “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5:1). A nossa inimizade contra Deus também nos fazia inimigos de Seu povo, nos afastava de Suas alianças e promessas. Mas ao sermos justificados pela fé em Cristo, também foi feita a paz, e, por isso, temos acesso à comunidade de Deus, Sua casa, e às Suas promessas. Temos acesso ao Pai, em um só Espírito (Ef 2:12, 17-18).

Pela fé que nos justificou, nos deu paz com Deus, e nos deu acesso a Ele, também temos acesso à graça. Ser salvo pela fé, portanto, também significa ser salvo pela graça, à qual temos acesso pela fé. “(…) obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Rm 5:2). “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;” (Ef 2:8).

A salvação pela fé também significa ter Cristo vivendo em nós, viver uma nova vida Nele. Significa andar, agir, pela fé, e não pelo que vemos (2 Co 5:7). Pois é pela fé que Cristo faz morada em nossos corações (Ef 3:17). Pela fé, temos um novo referencial, uma nova realidade, uma nova vida. E assim, somos salvos de viver como vivíamos antes, na carne. “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2:20).

Ser salvo pela fé é também receber o Espírito (Gl 3:2). O derramamento do Espírito era uma promessa feita a todos, a toda carne (Jl 2:28;  At 2:33). Mas apenas quando ouvimos a palavra da verdade, o evangelho de nossa salvação, e cremos, é que, pela fé, somos selados com o Espírito Santo da promessa (Ef 1:23). Pela fé, a promessa se torna realidade: nós recebemos o Espírito (Gl 3:14, 18).

Ser salvo pela fé é também ser firmados na esperança (Cl 1:23; 2 Co 1:24; Gl 5:5). É nos fortalecer pela fé, para ficarmos de pé até o fim (Rm 4:20; 11:20; Lc 21:36; Ef 6:13). Isto é, a salvação pela fé também implica que somos “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1 Pe 1:5). Assim, a salvação pela fé também diz respeito a uma salvação que é futura, mas que, não obstante, já nos preserva hoje. É uma herança a ser recebida futuramente, mas que pode ser desfrutada hoje (Hb 6:12).

Foi olhando para essa salvação futura, esse quinhão, que, pela fé, muitos obtiveram bom testemunho no passado. “Os quais, Por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra ” (Hb 11:33-38).

Essa é a salvação pela fé. É a experiência que, “de fé em fé”, no conduz ao Senhor, nos justifica, nos dá paz com Deus, nos dá acesso à graça e faz com que Cristo habite em nossos corações. A salvação pela fé nos enche do Espírito, nos fez viver de modo digno, nos dá um testemunho, uma esperança. A salvação pela fé é a experiência de usufruir, hoje, a salvação que está preparada para revelar-se no último tempo. Ser salvo pela fé é experimentar tudo isso, todos os dias. É sofrer todos esses efeitos a cada vez que trazemos à memória a morte de Cristo na cruz, o sangue que Ele derramou por nós, e cremos.

“Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas.” (Ap 22:14).

Nicolaísmo

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Prefácio

(por Roger P. Daniel)

A maioria dos cristãos está tão acostumada a um sistema de clérigos e leigos em suas “igrejas”, que se assombram ou até se enfurecem quando este sistema é questionado. Parece-lhes muito correto que haja um pastor ou ministro que se encarregue de uma igreja; e o fato de que tudo pareça funcionar muito bem sob este regime, é usado como argumento ou como prova de sua validez.

Neste tratado, Grant examina e refuta abertamente o sistema clérigo-laicista. Demonstra com clareza, à luz das Escrituras, que esta estrutura humana é um mal que têm causado grande dano ao povo de Deus. Mesmo que tenha sido escrito há mais de 100 anos atrás, as coisas não estão melhores hoje. Animo aos irmãos a lerem esta obra com uma mente livre de preconceitos e com a Bíblia aberta. Não queremos a opinião de Grant nem a minha nem a de ninguém, senão o que Deus pensa a respeito. Rogo, pois, que se faça uso do princípio bíblico que diz: “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1.ª Tessalonicenses 5:21).

Quero mencionar um ponto ao qual Grant não havia mencionado, talvez porque em seus dias não era tão comum como hoje. Refiro-me ao uso do título de Reverendo em relação a um pregador. Uma definição dicionarizada apresenta Reverendo como um “epíteto de respeito aplicado ou anteposto ao nome de um clérigo. Digno de ser reverenciado; que merece reverencia” (Dicionário Webster;). O termo aparece assim vertido em algumas versões da Bíblia (e. g. King James e Reina Valera) no Salmo 111:9: “Santo e reverendo é seu nome”, aplicado ao nome de Deus, pelo que ninguém deveria aplicá-lo a si mesmo.

À medida em que ler este escrito, se dará conta, sem requerer muita imaginação, do porquê ocorreram estas coisas. Quando os homens começaram a ocupar os postos de clérigos (isto é, uma classe dirigente que estava por cima do resto das pessoas, dos laicos), almejaram um título que mostrava o respeito que supunham que lhes era devido. Um desses títulos foi o de “reverendo”, que soava muito respeitoso. Seguindo esta mesma direção, muitos “ministros” se sentem orgulhosos de exibir as iniciais que indiquem algum grau acadêmico, tal como “Doutor em Teologia”, etc. à continuação de seus nomes, para assinalar assim que são algo especial, que têm alguma capacidade especial transmitida por escolas ou instituições religiosas humanas, ao invés de estarem plenamente capacitados pelo chamado e o ensinamento de Deus.

Com as observações precedentes, recomendo esta revisão da obra do Sr. Grant a cada leitor, rogando que ajude a mostrar a cada verdadeiro filho de Deus seu grande privilégio de ter acesso direto a Deus, e pedindo também que exponha à nudez o perverso sistema que tem chegado a ser tão comum no cristianismo atual. 

 

“Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio (…) Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.” (Apocalipse 2:6, 15, nas epístolas do Senhor dirigidas às igrejas de Éfeso e de Pérgamo).

 

NICOLAISMO

Surgimento e crescimento do clero

F. W. Grant (1834 – 1902)

Nas cartas proféticas dirigidas às sete igrejas da Ásia, em Apocalipse 2 e 3 (as quais nos dão a história espiritual da Igreja desde o tempo dos apóstolos até a vinda do Senhor), a carta à igreja de Pérgamo segue após as cartas à igreja de Éfeso e a igreja de Esmirna. Pérgamo marca a terceira etapa do desvio da verdade por parte da Igreja e é historicamente fácil de reconhecer. Aplica-se ao tempo no qual, logo após haver atravessado as perseguições pagãs (Esmirna), a Igreja foi publicamente reconhecida e estabelecida no mundo. O tema principal da carta a Pérgamo é “a Igreja que mora onde está o trono de Satanás”. A palavra correta é ‘trono’, e não ‘assento’ (como traz a versão RV). Satanás tem seu trono no mundo, não no inferno, o qual será sua prisão e no qual nunca reinará. Ele é chamado “o príncipe deste mundo” em João 12:31, 14:30 e 16:11.

Portanto, morar onde está o trono de Satanás é estabelecer-se no mundo, sob o governo e a proteção de Satanás. Isto é o que as pessoas chamam a instituição da Igreja! Teve lugar sob o imperador romano Constantino, por volta do ano 320 d.C. Mesmo quando a tendência da Igreja em unir-se com o mundo vinha aumentando por algum tempo, foi então quando ela saiu fora do lugar que lhe era próprio e ingressou nos lugares da antiga idolatria pagã. As pessoas chamam isto de “triunfo do cristianismo”, mas o resultado foi que a Igreja se posicionou com tal firmeza nas coisas do mundo como nunca antes. O lugar de liderança no mundo foi dela e os princípios do mundo a invadiram rapidamente.

O nome Pérgamo indica isto. É uma palavra grega que significa casamento. O casamento da Igreja com qualquer coisa antes que Cristo venha a levá-la consigo (no arrebatamento), é infidelidade a Ele, com quem ela está desposada. Mas aqui está o matrimônio da Igreja com o mundo, o final de um relacionamento que havia começado muito tempo antes.

Antes do tempo deste ‘casamento’, uma coisa importante se menciona na primeira carta, à igreja de Éfeso, ainda que só de maneira incidental, pois não caracteriza a condição espiritual da assembléia de Éfeso. O Senhor lhes diz: “Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (Ap 2:6). Entretanto, em Pérgamo temos mais que as obras dos nicolaítas; temos uma doutrina, e a Igreja, ao invés de recusá-la, a sustentava. Em seu tempo, os santos de Éfeso odiavam as obras dos nicolaítas, mas em Pérgamo a permitiram e não condenaram aqueles que sustentavam a doutrina.

Como temos de interpretar esses versículos? Diria que o termo ‘nicolaítas’ é a única ferramenta que temos para nos ajudar. Muitos têm realizado grandes esforços para tentar demonstrar que existiu uma seita dos nicolaítas —um grupo religioso específico assim denominado— mas a maioria dos autores concordam que essa hipótese é muito improvável. Mesmo se existiu tal seita, é difícil entender por que deveria haver nestas epístolas proféticas semelhante menção repetida e enfática a uma seita obscura, acerca da qual a história nos possa dizer muito pouco ou nada. O Senhor denuncia solene e poderosamente: “a qual eu também odeio”. Ela deve ser especialmente importante para Ele, e também deve ser significativa na historia da Igreja, por pouco compreendida que possa ser. Além disso, a Escritura não nos encaminha à história da Igreja nem a nenhuma história para que interpretemos seus significados. A Palavra de Deus é sua própria intérprete, através do Espírito Santo, e não temos que buscar outras fontes para descobrir o que está ali. Do contrário, a interpretação da Escritura dependeria de homens eruditos que buscam respostas em favor daqueles que não têm os mesmos recursos ou atributos. Tais ‘respostas’  haveriam de ser, portanto, forçosamente  aceitas tão somente sobre a base da autoridade desses ‘eruditos’.

Por toda a Escritura, o significado dos nomes é importante. E o significado de nicolaíta é chamativo e instrutivo. Note-se, entretanto, que para aqueles que falavam grego (língua em que a carta foi originalmente escrita), o significado lhes era muito claro. Significa subjugador do povo. A última parte da palavra – laos – é a palavra grega que designa o ‘povo’ e da qual deriva nosso termo de uso comum ‘leigos’, ou ‘laicos’. Assim, pois, os nicolaítas foram pessoas que estiveram submetendo ou reprimindo aos laicos —a massa do povo cristão— para assenhorearem-se indevidamente sobre eles.

O que faz com que isto seja mais claro ainda é que em Pérgamo temos também aqueles que sustentavam a doutrina de Balaão: um nome cuja semelhança, no tocante a significado, tem sido observada com freqüência. Balaão é uma palavra hebraica que significa ‘destruidor do povo’, um significado muito importante em vista de sua história. Balaão “ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” (Ap 2:14). Com esse propósito instigou Israel a misturar-se com as nações, das quais Deus os havia separado com tanto cuidado.

A perda dessa separação, tão necessária, significou a destruição de Israel, que até então prevalecera. De igual modo, a Igreja é chamada a sair para fora do mundo, e é sumamente fácil aplicar o tipo divino neste caso. Assim, a estreita relação destes dois nomes (Balaão e nicolaíta), ajuda a confirmar o significado anterior apresentada para ‘nicolaítas’.

Observemos o desenvolvimento do nicolaísmo. A princípio (e só estou traduzindo a palavra), certas pessoas adotaram uma posição de superioridade sobre o povo. Suas obras demonstraram o que eram. Ainda não há doutrina na carta à igreja de Éfeso, mas uma doutrina, ou ensinamento, se estabeleceu já em Pérgamo. Ali o ‘lugar de liderança’ passou a ser entendido como sendo deles, como por direito. A doutrina  —o ensinamento sobre isto—  é aceita ao menos por alguns, e a Igreja se vê indiferente ante essa situação.

O que se passou entre ‘as obras dos nicolaítas’, odiadas em Éfeso, e ‘a doutrina dos nicolaítas’, sustentada em Pérgamo? Surgiu um partido, em Esmirna, ao qual o Senhor se refere como daqueles que diziam que eram judeus e não o eram, mas que eram a “sinagoga de Satanás”. Representavam o esforço muito bem sucedido de Satanás de judaizar a Igreja, de fazer com que a Igreja fosse como o judaísmo do Antigo Testamento.

O judaísmo foi um sistema probatório: um sistema de prova, para averiguar se o homem podia produzir uma justiça tal que agradasse a Deus. O resultado da prova foi que Deus disse “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3:10). Só então Deus pôde mostrar sua graça. Enquanto estivesse submetendo o homem à prova, Deus não podia abrir o caminho à Sua própria presença, e justificar, assim, ao pecador. Ele teve que manter afastado o homem, enquanto perdurava aquela prova, para que sobre aquele fundamento (as obras dos homens) ninguém pudesse ver a Deus e viver. Entretanto, a natureza essencial do cristianismo é que todos são bem vindos. Há uma porta aberta e um acesso direto a Deus. O sangue de Cristo habilita a cada pecador a aproximar-se de Deus, e a encontrar justificação por Ele. Ver a Deus em Cristo é viver, não morrer. Por isso, aqueles que O têm encontrado pelo caminho do sangue que fala de paz, são considerados aptos e ordenados para tomar um lugar distinto de todos os demais. Porque agora eles são Seus, são filhos do Pai e membros de Cristo, de Seu corpo. Essa é a verdadeira Igreja, um corpo chamado a sair para fora, separado do mundo. Leia 1.ª Coríntios 12 e Efésios 1:22-23.

O judaísmo, por outro lado, incluiu apenas aos judeus. E, mesmo entre eles, ninguém podia tomar um lugar com Deus. Por conseguinte, a separação entre judeus piedosos e não piedosos, era impossível. O judaísmo foi uma necessidade prevista por Deus. Mas instaurar novamente o judaísmo, depois que Deus lhe houvesse posto fim, não fazia sentido. Pelo contrário, era o exitoso trabalho de Satanás contra o evangelho de Deus e Sua Igreja. Deus denominou a estes judaizantes como a “sinagoga de Satanás”.

Agora podemos entender de que forma a sinagoga judaica foi, na prática, estabelecida novamente: quando o verdadeiro caráter da Igreja se perdeu de vista; quando o significado de ‘membro da Igreja’ foi reduzido a pessoas batizadas com água (no lugar de com o Espírito Santo); quando o batismo com água e com o Espírito Santo foram considerados a mesma coisa (e isto chegou a ser aceito como doutrina prematuramente na história da igreja). Foi cada vez mais se tornando difícil falar de cristãos que tivessem se reconciliado, ou feito paz com Deus ou ainda que fossem salvos. Aqueles ‘cristãos’ esperavam, e os sacramentos e ordenanças chegaram a ser entrepostos como meios de graça para assegurar, no máximo, uma salvação muito distante.

Vejamos como isto contribuiu à doutrina dos nicolaítas. À medida que a Igreja se tornou uma ‘sinagoga’, os cristãos se tornaram, na prática, o que foram os judeus da antigüidade, quando não havia, de forma alguma, qualquer aproximação real a Deus. Mesmo o Sumo Sacerdote, quem (como tipo de Cristo) entrava no Lugar Santíssimo uma vez ao ano, tinha que cobrir o propiciatório com uma nuvem de incenso para não morrer. Os sacerdotes comuns só podiam entrar no Lugar Santo, e as pessoas nem sequer podiam entrar ali. Tudo isso estava expressamente designado como um testemunho de sua condição espiritual. Era a conseqüência de seu fracasso espiritual, porquanto o pacto oferecido por Deus a eles em Êxodo 19 foi este: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (v. 5, 6).

Assim, pois, a Israel se ofereceu, condicionalmente, uma possibilidade de acesso íntimo a Deus. Todos eles seriam sacerdotes. Mas isto foi revogado porquanto quebraram o pacto. Então, os membros de uma família especial (Levi) foram postos como sacerdotes, e o resto do povo foi colocado em um segundo plano.

Assim, um sacerdócio separado e intermediário caracterizou ao judaísmo. Não havia nenhum labor missionário; nenhuma saída ao mundo; nenhuma provisão, nenhuma ordem para pregar a Lei em absoluto. Com efeito –  que podiam dizer? Que Deus estava em uma densa obscuridade e que ninguém podia ver-lhe e viver. Essas não eram boas novas. Assim, a ausência do evangelista e a presença do sacerdócio intermediário contavam a mesma triste história.

Tal era o judaísmo. Quão diferente é o cristianismo! Uma vez que a morte de Cristo rasgou o véu (entre o lugar santo e o lugar santíssimo, indicando um acesso a Deus para todos os sacerdotes) (Mt 27:51), foi aberto o caminho até a presença de Deus. Então, de imediato, houve um Evangelho, e a nova ordem foi: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15). Deus agora está fazendo-se conhecer ao mundo inteiro.

A intermediação sacerdotal terminou, dado que todos os cristãos agora são sacerdotes para Deus. O que foi oferecido a Israel condicionalmente, é agora um ato incondicional e consumado no cristianismo. Nós somos um reino de sacerdotes; e é Pedro (ordenado pelos homens como o cabeça do ritualismo) quem anuncia as duas coisas que destroem por completo o ritualismo. Primeiro, nos diz que somos “nascidos de novo”, não por batismo, senão “pela Palavra de Deus que vive e permanece para sempre”. Segundo, em lugar de uma casta de sacerdotes, ele diz a todos os cristãos: “ambém vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1.ª Pe 1:23; 2:5). Hoje, nosso louvor e ação de graças, e ainda nossas vidas e nossos corpos, tudo deve ser sacrifício espiritual para Deus (Hb 13:15, 16; Rm 12:1). Esta deve ser a verdadeira obra sacerdotal de nossa parte, e só deste modo se conseguirá que nossas vidas adquiram seu próprio caráter. Estes sacrifícios são o serviço de oferendas de gratidão daqueles capacitados para aproximarem-se a Deus.

No judaísmo —permita-me repetir— ninguém se aproximava de Deus. Assim, pois, sempre que se encontra uma casta sacerdotal, isto significa a mesma coisa, ou seja, para a grande massa de pessoas, Deus está fora, distante e obscuro.

 

O SIGNIFICADO DE UM CLERO

Vamos ver agora o que significa um clero. É a palavra que distingue uma classe especial de pessoas, distinta dos ‘laicos’ por haver se entregado a coisas espirituais e por ter um lugar de privilégio em relação a estas coisas sagradas, que os laicos não têm.  Atualmente, esta classe especial está sendo atacada por duas razões, ainda que esteja longe de desaparecer. Primeiro Deus está projetando luz com respeito a este assunto. A segunda razão é puramente humana: a época é democrática, e os privilégios de classes estão desaparecendo.

Mas, que significado tem esta classe especial? Visto que é distinta dos laicos, e goza de privilégios que estes não têm, significa um aberto e real nicolaísmo, a menos que a Escritura avalize suas pretensões, visto que os laicos têm sido submetidos a eles. Mas a Escritura não utiliza tais termos e distinções de classe, nem os aplica a nossos tempos do Novo Testamento. Estes termos, ‘clérigo’ e ‘leigo’, são pura invenção humana e surgiram depois que o Novo Testamento fora completado, ainda que em realidade o conceito que está por trás destes termos foi de fato herdado do judaísmo do Antigo Testamento.

Devemos ver o importante principio que está em jogo para entender por que o Senhor diz que odeia as obras dos nicolaítas. Nós também, se estamos em comunhão com nosso Senhor, devemos odiar o que Ele odeia.

Eu não estou falando de pessoas (que Deus não me permita esse mal!), senão de uma coisa. Hoje estamos ao final de uma longa série de afastamentos de Deus. Como consequência, há uma exacerbação de muitas coisas que têm chegado até nós como “tradições dos anciãos”, vinculadas com homens a quem honramos e amamos, e, admitindo sua autoridade, temos aceitado estas tradições sem sequer jamais haver analisado a questão por nossa própria conta e à luz da Palavra de Deus.

Reconhecemos sinceramente a muitos destes homens como verdadeiros servos de Deus, mas ocupando uma posição errônea. Eu me refiro à posição: à coisa que o Senhor odeia. Deus não diz: “as pessoas que eu odeio”. Mesmo naqueles dias, esta classe de mal não era hereditário como o é agora, e aqueles que espalhavam o mal tinham sua própria responsabilidade. Nós, não obstante, não deveríamos envergonhar-nos nem temer estar onde o Senhor está. De fato, não podemos estar com Ele neste assunto, a menos que nós também odiemos as obras dos nicolaítas.

Devemos odiar esta coisa porque significa uma casta ou classe espiritual  —um grupo de pessoas que oficialmente tem o direito à direção em coisas espirituais, uma proximidade a Deus derivada de uma posição oficial, e não de poder espiritual. Isto é realmente um ressurgimento, sob outros nomes, e com modificações, do sacerdócio intermediário do judaísmo. Este é o significado do clero. Portanto, o resto dos cristãos são só laicos, os leigos, pagantes, em maior ou menor medida, à antiga distancia de Deus, à qual a cruz pôs fim.

Agora podemos ver a razão pela qual a Igreja tinha que ser judaizada antes que as obras dos nicolaítas pudessem amadurecer em uma doutrina. Sob o judaísmo, o Senhor até havia autorizado a obediência a escribas e fariseus que se sentavam na cadeira de Moisés (Mt 23:2-3); e para que este texto se aplique agora, a cadeira de Moisés tinha que ser estabelecida na Igreja cristã. Uma vez que isso aconteceu, e que a massa de cristãos fora degradada do sacerdócio do qual falou Pedro, a meros ‘membros laicos’, a doutrina dos nicolaítas foi estabelecida.

 

O MINISTÉRIO CRISTÃO

Não me interpretem mal. Eu não ponho em dúvida a instituição divina do ministério cristão, visto que o ‘ministério’ é característico do cristianismo. Apesar de eu crer que todos os verdadeiros cristãos são ministros, eu não questiono um ministério especial e distintivo da Palavra, como dado por Deus a alguns e não a todos, apesar de ser para o uso de todos. Ninguém que seja verdadeiramente ensinado por Deus pode negar que alguns cristãos tenham o ministério de evangelista, pastor ou mestre. A Escritura ensina que todo verdadeiro ministro é um dom de Cristo, que o é por Seu cuidado como Cabeça da Igreja, e que é para Seu povo, que é algum irmão que tem seu lugar dado por Deus somente e que é responsável, em seu caráter de ministro, ante Deus somente. O miserável sistema clérigo-laicista degrada o ministro de Deus desse bendito lugar e faz dele pouco mais que a manufatura e o servidor dos homens. Ao mesmo tempo em que outorga um lugar de senhorio sobre pessoas que comprazem à mente carnal (a velha natureza), este sistema restringe o homem espiritual gerando nele uma consciência artificial para com os homens (o conselho da igreja, etc.), como também obstaculiza a sua consciência para estar corretamente diante de Deus.

Permita-me estabelecer brevemente qual é a doutrina da Escritura sobre o ministério. É muito simples. A verdadeira Igreja (Assembléia) de Deus é o corpo de Cristo; todos os membros são os membros de Cristo. Nas Escrituras não há condição de membros além desta: a de membros do corpo de Cristo, ao qual pertencem todos os verdadeiros cristãos. Não muitos corpos de Cristo, senão um só corpo (Ef4:4); não muitas igrejas, senão uma só Igreja.

Há um lugar diferente para cada membro do corpo pelo único fato de que ele ou ela é um membro. Nem todos podem ser o olho, ou ouvido, etc., mas todos eles são necessários, e todos são ministros em alguma forma,  uns dos outros. Assim, pois, cada membro tem seu lugar, não só em uma determinada localidade e para o benefício de uns poucos, senão para o benefício do corpo inteiro.

Cada membro tem um dom “Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função,5 assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,6 tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé” (Rm 12:4-6). Leia também 1.ª Coríntios 12:7.11; Efésios 4:7 e 1.ª Pedro 4:10, que demonstram que cada cristão possui um dom.

Em 1 Coríntios 12, Paulo fala em detalhe destes dons e os chama por um nome significativo no versículo 7: “manifestações do Espírito”. Eles são dons do Espírito e, também, manifestações do Espírito. Eles se manifestam, exibem a si mesmos ali onde se encontram, onde há discernimento espiritual por parte de pessoas que estão muito próximas a Deus, em comunhão íntima com Ele. Por exemplo, tomemos o Evangelho. De onde obtém seu poder e autoridade? É de alguma aprovação do homem, ou o poder lhe é próprio e inerente? Desafortunadamente, a tentativa comum de creditar poder ao mensageiro, dilui, em vez de agregar, poder à Palavra. A Palavra de Deus deve ser recebida simplesmente por ser Sua Palavra. Ela tem a capacidade de satisfazer às necessidades do coração e da consciência pelo simples fato de ser a boa nova de Deus – o Deus que conhece perfeitamente qual é a necessidade do homem e que, em conseqüência, tem feito provisão para ele. Todo aquele que tem sentido o poder do Evangelho sabe de Quem tem vindo o poder. A obra e o testemunho do Espírito Santo na alma não necessitam nenhum testemunho do homem que os suplementem.

Mesmo a apelação do Senhor em seu próprio caso foi à verdade. Ele expressou: “Se vos digo a verdade, por que razão não me credes?” (Jo 8:46). Quando Ele falava na sinagoga judaica ou em qualquer outro lugar, era, aos olhos dos homens, só um pobre filho de carpinteiro, não acreditado por escola ou grupo de homens algum. Todo o peso da autoridade humana esteve contra Ele. Ele inclusive repudiou “o receber testemunho dos homens”. Só a Palavra de Deus deve falar por conta de Deus. “Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou” (7:16). E, como se aprovou a si mesma? Pelo fato de ser verdade! A verdade se fez conhecer àqueles que a buscavam. Aquele que “quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo” (v. 17). Em João 7 e 8, o Senhor lhes está dizendo: “Eu digo a verdade. A tenho trazido de Deus; e se esta é a verdade, e se procurais fazer a vontade de Deus, aprendereis a reconhecê-la como a verdade”.

Deus não manteria as pessoas na ignorância e na obscuridade se procuravam fazer Sua vontade. Deus permitiria que os corações sinceros fossem defraudados pelos muitos enganos que havia ao redor? É claro que não! Ele faz conhecer a Sua voz a todos os que lhe buscam. Assim, o Senhor diz a Pilatos: “Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz” (Jo 18:37). “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem”, e de novo: “mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (10:27, 5).

A verdade é de uma natureza tal que a desonramos se tratamos de convalidá-la para aqueles que são verdadeiros, como se ela não fosse capaz de evidenciar a si mesma. Inclusive o próprio Deus é desonrado, como se Ele não pudesse ser suficiente para as almas, ou para o que ele mesmo tem dado.

Não, o apóstolo fala “nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade” (2 Co 4:2). O Senhor diz que o mundo está condenado porque “a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:19). Não havia nenhuma falta de evidência. A luz estava ali, e os homens reconheceram o seu poder para sua própria condenação, quando procuraram se afastar dela.

Da mesma maneira, no dom está a “manifestação do Espírito”, e é “concedida a cada visando um fim proveitoso” (1 Co 12:7). Pelo simples fato de que um homem o tenha, ele é responsável por usá-lo. Responsável perante Ele, que não o deu em vão. A capacidade e o título para ‘ministrar’ estão no dom, porque eu sou responsável por ajudar e servir com aquilo que tenho. Se os demais recebem ajuda, eles não necessitam perguntar se tenho autorização para ajudá-los.

Este é o caráter sensível do ministério, o serviço de amor conforme a capacidade que Deus dá: serviço mútuo de uns aos outros e para todos, sem acepção ou a exclusão de uns a outros. Cada dom é adicionado ao tesouro comum, e todos são feitos mais ricos. A benção de Deus e a manifestação do Espírito são toda a autorização requerida. Nem todos são mestres, mas se aplica exatamente o mesmo princípio. O ensinamento é, entretanto, uma das muitas divisões do serviço para Deus, serviço que é rendido por uns a outros, de acordo com a esfera de seu ministério.

Não havia acaso nenhuma classe ordenada (designada) na Igreja primitiva? Isso é uma coisa totalmente distinta. Havia duas classes de oficiais que eram regularmente designados ou ordenados. Os diáconos ou servidores tinham a seu cargo os fundos para os pobres e outros propósitos, e eram eleitos, primeiro pelos santos para este posto de confiança, e logo nomeados pelos apóstolos, fosse diretamente ou por aqueles autorizados pelos apóstolos para fazê-lo. Os presbíteros foram uma segunda classe —homens de idade, como o indica a palavra— que foram nomeados nas assembléias locais unicamente pelos apóstolos ou seus cooperadores (At 14:23; Tt 1:5) como bispos ou supervisores para estarem atentos ao estado espiritual da assembléia. Os presbíteros eram o mesmo que os bispos, como deduzimos claramente das palavras de Paulo aos presbíteros de Éfeso (At 20:17,28), quando ele lhes exorta dizendo: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.” Aqui muitos tradutores tem deixado sem traduzir a palavra grega episcopos «latinizada para bispo» que significa supervisor, e o mesmo podemos observar em Tito 1:5, 7: “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: (…) Porque é indispensável que o bispo (supervisor) seja irrepreensível…”.


O ofício de um presbítero era vigiar ou supervisionar, e mesmo que ser “apto para ensinar” (1 Tm 3:2) fosse uma qualidade muito necessária em vista de que os erros eram já rampantes, o fato de ensinar certamente não era algo limitado àqueles que eram “maridos de uma só mulher”, “criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”, etc. (Tt 1:6-9; 1 Tm 3:2-7). Esta foi uma prova necessária para alguém que seria presbítero (ou bispo), “pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1Tm3:1-7).

Qualquer que tenha sido os dom que os presbíteros receberam, eles o utilizavam da mesma maneira que todos faziam. O apóstolo Paulo ordena o seguinte: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Tm 5:17). Daí desprende-se claramente que eles podiam governar bem, mesmo sem ocupar-se na Palavra e no ensino.

O significado de sua nomeação era apenas este: aqui se tratava de uma questão de autoridade, não de dom. Foi uma questão de intitular ou encarregar alguém para examinar, com freqüência, assuntos difíceis e delicados entre pessoas que não estavam dificilmente dispostas a submeterem-se a algo ‘meramente’ espiritual. A ministração do ‘dom’, não obstante, era uma questão totalmente diferente, livre, e para todos.

 

MINISTÉRIO VS. CLERICALISMO

 

Isso posto, de forma breve, é a doutrina bíblica. Nosso penoso dever, agora, é contrastar esta doutrina da Escritura com o sistema que estou desarticulando, no qual uma classe específica está formalmente ‘consagrada’ às coisas espirituais, enquanto o povo, os leigos, está, em contrapartida, excluídos desta ocupação. Este é o verdadeiro nicolaísmo: a sujeição do povo.

Novamente, não apenas digo que o ministério da Palavra de Deus é completamente legítimo, mas também que existem aqueles que possuem dons e responsabilidades específicas (mas não exclusivamente) para ministrá-la. Mas o ‘sacerdócio’, no sentido judaísta, nicolaíta, é outra coisa e é suficientemente distinto do ‘ministério’ para ser reconhecido facilmente onde quer que seja reivindicada ou exista de fato. Os protestantes em geral negam a atribuição de poder sacerdotal a seus ministros. Não tenho nenhum desejo ou intenção de desacreditar sua honestidade nesta negação. Eles querem dizer que não acreditam que seus ministros têm qualquer poder autoritário de absolvição, e que eles não fazem da mesa do Senhor um altar no que se renove, dia após dia (como na missa católica romana), a perfeição do oferecimento único e suficiente de Cristo, negada por inumeráveis repetições. Eles têm razão com respeito a ambas às coisas, mas esta não é a história completa. Se analisarmos mais profundamente, encontraremos que existe um caráter sacerdotal de muitas outras maneiras.

Podemos distinguir sacerdócio e ministério como segue: o ministério é para os homens, enquanto que o sacerdócio é para Deus. O que ministra traz a mensagem de Deus ao povo, falando, da parte de Deus, a eles. O sacerdote se dirige a Deus da parte do povo, falando no sentido inverso: da parte do povo, a Deus.

O louvor e as ações de graças são sacrifícios espirituais. Eles são parte de nossas oferendas como sacerdotes. Agora, ponha uma classe especial em um lugar onde eles só, de forma regular e oficial, atuem dando louvores e ações de graças, e virão a ser um sacerdócio intermediário, mediadores entre Deus e aqueles que não estão tão perto Dele.

A Ceia do Senhor é a mais completa e proeminente expressão pública da adoração e ação de graças cristã; mas, que ministro protestante ou pastor denominacional não o considera como seu direito e dever oficiais de administrá-la? A maioria dos «laicos» se abstém de administrá-la. Este é um dos terríveis males do sistema, pelo qual as massas cristãs são deste modo secularizadas (feitas mundanas). Ocupadas com coisas mundanas, pensam que não podem esperar ser espiritualmente como os clérigos. Deste modo, as massas são exoneradas das ocupações espirituais, para as quais crêem não reunir as mesmas condições que o clero.

Mas isto vai muito mais além. “Porque os lábios do sacerdote têm de guardar a sabedoria” (Malaquias 2:7). Mas como pode o laico (que tem chegado a ser tal por haver abandonado seu sacerdócio voluntariamente) ter a sabedoria pertencente a uma classe sacerdotal? A falta de espiritualidade à qual se tem desprezado a si mesmos não lhes permite conhecer as coisas espirituais. Assim, só a classe ocupada nas coisas espirituais vem a ser intérprete autorizada da Palavra de Deus. Deste modo, o clero vem a ser os olhos, ouvidos e boca espirituais dos laicos.

De qualquer maneira, esta organização convém à maioria das pessoas. O «clericalismo» não tem começado simplesmente porque uma classe de homens que quiseram dirigir assumiu o lugar de liderança. Esta miserável e anti-bíblica distinção entre clero e laicos nunca poderia ter ocorrido de maneira tão rápida e universal se não estivesse tão bem adaptada ao gosto daqueles a quem substituiu e degradou. No cristianismo, como em Israel, a profecia tem sido cumprida, “os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo.” (Jeremias 5:31). Ao sobrevir uma decadência espiritual, um que esta voltando ao mundo troca de boa vontade, como Esaú, sua primogenitura espiritual por uma mistura da sopa do mundo. Concede com gratidão sua necessidade de cuidar das coisas espirituais àqueles que aceitem esta responsabilidade.

Uma vez que a Igreja perdeu seu primeiro amor e o mundo começou a introduzir-se através das portas pobremente protegidas, se torna mais difícil para os cristãos tomar o bendito e maravilhoso lugar que lhes pertencia. Cada passo descendente só torna mais fácil os passos subseqüentes, até que, em menos de 300 anos desde o começo da Igreja, um sacerdócio judaico e uma religião ritualista foram praticados em quase todas as partes. Só os nomes das coisas preciosas do cristianismo foram deixados. A realidade dos privilégios especiais e cada cristão individual haviam desaparecido.

 

ORDENAÇÃO

 

Observemos com maior detalhe um traço característico desta clerezia ou clericalismo. Notamos a confusão entre o ministério e o sacerdócio; a atribuição de um título oficial não escriturário, para as coisas espirituais, para administrar a Ceia do Senhor e para batizar, etc. Agora tratarei sobre ênfase posta por este perverso sistema sobre a ordenação (isto é, nomeação ou reconhecimento oficial).

Quero que vejas o que significa ordenação. Primeiro, se consultarmos o Novo Testamento, não encontraremos nada acerca de uma ordem para ensinar ou pregar. Encontraremos pessoas que as fazem livremente, usando um dom que tenham. A Igreja inteira foi dispersa fora de Jerusalém (exceto os apóstolos) e estas pessoas foram por todas as partes pregando a Palavra. As perseguições não as ordenaram. Não há rastro de outra coisa. Timóteo recebeu um dom de profecia pela imposição das mãos de Paulo, em companhia dos anciãos (2.ª Timóteo 1:6; 1.ª Timóteo 4:14); mas aquela era a comunicação de um dom, não uma autorização para usá-lo! A Timóteo, então, se lhe ordena que comunique seu próprio conhecimento a homens de fé, que foram capazes também de ensinar a outros (2.ª Timóteo 2:2), mas não há nenhuma palavra acerca de ordená-los. O caso de Paulo e Barnabé em Antioquia (Atos 13:1-4) fracassa como sustento do propósito com que alguns o querem usar, porque (da maneira como se pretende usar) profetas e mestres estariam obrigados a ordenar ao próprio apóstolo Paulo, que recusa totalmente ser um apóstolo “dos homens ou por homem” (Gálatas 1:1). Ao contrário o Espírito Santo diz: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que (Eu) os tenho chamado” (Atos 13:2). Trata-se aqui simplesmente de uma missão especial que eles cumpriram (Atos 14:26).

O que significa ordenação nos círculos religiosos da atualidade? Pode você estar seguro de que significa muito; do contrario, os homens não contenderiam com tanto zelo por ele. Há duas formas de ordenação. Na forma mais extrema —como no caso dos católicos romanos e os ritualistas— à ordenação se refere a atribuição de conceder tanto autoridade como poder espiritual. Os líderes da igreja se adotam, com todo o poder dos apóstolos, a faculdade de subministrar o Espírito Santo mediante a imposição de suas mãos. Deste modo, as massas do povo de Deus são descartadas do sacerdócio que Ele mesmo lhes tem outorgado, e uma classe especial é colocada em seu lugar para intermediar por eles de uma maneira que anula o fruto da obra de Cristo e os ata à «igreja» como o único meio de achar graça.

Aqueles que aceitam uma forma mais moderada de ordenação, recusam reta e consistentemente essas pretensões anti-cristãs. Eles não pretendem conferir nenhum dom na ordenação, senão que só «reconhecem» o dom que Deus tem dado. Mas este «reconhecimento» é considerado necessário antes de que a pessoa possa batizar ou administrar a ceia do Senhor, coisas que não requerem nenhum dom especial em absoluto! Então, quanto ao ministério, o dom de Deus estaria obrigado a requerer a aprovação humana, e é «reconhecido» em nome de Seu povo por aqueles a quem se considera que tem um «discernimento» que os cristãos laicos não tem.

Cegos ou não, estes homens ordenados —o clero— vêm a ser os “guias dos cegos”, à vez que seus próprios corações são tirados do lugar de responsabilidade direta ante Deus e feitos indevidamente responsáveis ante o homem. Uma consciência artificial é feita para eles da parte daqueles que os ordenaram, e lhes são constantemente impostas condições as quais se tem que ajustar a fim de obter o reconhecimento requerido. Inclusive estes pastores ou ministros freqüentemente estão sob o controle de seus «ordenadores» no que respeita a sua senda de serviço.

Em princípio, tudo isto é infidelidade a Deus, porque se Deus me tem dado um dom a fim de que o use para Ele, eu seria certamente infiel se comparecer a algum homem ou a um grupo de homens com o fim de solicitar a sua permissão para usá-lo. O próprio dom acarreta a responsabilidade de usá-lo, como o temos visto. Se eles dizem que as pessoas podem cometer erros, eu estou de acordo, mas quem tem de assumir minha responsabilidade se estou equivocado? Além do mais, os erros cometidos por um «corpo ordenante» (ou «presbitério») são muito mais sérios que os de um indivíduo que meramente marcha sem haver sido enviado pelos homens, porque os erros do corpo ordenante são declarados sagrados e se prolongam no tempo pela ordenação que conferiu. Se a pessoa «ordenada» simplesmente se sustentasse por seus próprios méritos, encontraria rapidamente seu verdadeiro nível; mas o corpo ordenante tem investido sobre ele um caráter que deve ser mantido.

Equivocação por si mesmo ou não, ele é agora nada menos que um novo membro do corpo clerical, um ministro, mesmo quando não tenha realmente nada que ministrar. Ele deve ser mantido —deve ter sua «igreja»— por mais que esta se encontre em uma localidade pouco ilustre, onde as pessoas —tão amadas por Deus como qualquer uma— é posta sob seu cuidado e deve ficar sem se alimentar se ele não for capaz de alimentá-las.

Não me acuse de sarcástico. O que disse anteriormente é um fiel retrato do sistema do qual estou falando, sistema que envolve ao corpo de Cristo com vendas que impedem a livre circulação do sangue vivificante do ministério, que deveria estar fluindo de forma irrestrita através de todo o corpo. Aqueles que ordenam na atualidade devem provar que são ou apóstolos ou homens designados pelos apóstolos porque, segundo as Escrituras, nenhum outro tinha autoridade para ordenar (Atos 14:23; Tito 1:5). Aliás, devem provar que o «ancião» segundo as Escrituras pode não ser ancião de todo, senão um jovem, uma pessoa solteira, apenas saída de sua adolescência e que fora evangelista, pastor e mestre —todos dons de Deus envoltos em uma só pessoa—. Este é o ministro segundo o sistema: o tudo em todos para 50 ou 500 almas confiadas a ele como seu rebanho, no qual nenhum outro tem o direito de interferir. Seguramente a marca de «nicolaísmo», está posta sobre um sistema como este!

Mesmo quando o ministro esteja espiritualmente dotado (e muitos estão, como outros muitos não estão), é improvável que tenha todos os dons espirituais. Suponha-se que seja um verdadeiro evangelista e que as almas se salvem; ele pode não ser um mestre, e ver-se assim incapacitado para edificá-las na verdade. Ou talvez tenha o verdadeiro dom de Deus de mestre, mas é enviado a um lugar onde há tão somente uns poucos cristãos e muitos de sua congregação são não convertidos. Não há conversões, mas sua presença ali, por causa do sistema sob o qual está trabalhando, mantém afastado (em diversos graus) ao evangelista que se necessitaria ali. Damos graças a Deus que Ele sempre esteja desbaratando estes sistemas, e que as necessidades possam ser supridas de algum modo irregular. Entretanto, esta provisão humana não é conforme o plano de Deus e por ele divide ao invés de unir. O sistema é o responsável de tudo isto. O ministério exclusivo de um só homem, ou de um número específico de homens em uma congregação, não tem nas Escrituras o que o sustente. A ordenação é o esforço para limitar todo ministério a certa classe e faz descansar a este na autorização humana e não no dom divino. E assim se nega aos demais membros do corpo —o rebanho de Cristo— a capacidade aprovisionada por Deus para ouvir Sua voz e em seguida comunicá-la. O resultado é que se dá ao homem a atenção que deveria ser dada à Palavra que ele traz. A pergunta prevalecente é: Está autorizado? Relativo à verdade do que fala, com freqüência é secundaria se ele está ordenado; ou talvez, diria eu, sua ortodoxia (sua retidão doutrinal) está estabelecida já de antemão para eles pelo fato de ser ordenado.

O apóstolo Paulo não fora autorizado para ministrar conforme este plano. Houve apóstolos antes dele, mas ele não subiu a eles nem recebeu nada deles. Se houvesse uma «sucessão», ele a cortaria. Paulo fez o que fez, de propósito, para mostrar que seu evangelho não era segundo os homens, nem derivado deles (Gálatas 1:1) e que não descansava sobre a autoridade humana. Se ele mesmo ou um anjo do céu (cuja autoridade pareceria concludente) anunciasse um evangelho diferente do que havia pregado, a sentença solene de Paulo é: “seja anátema” (Gálatas 1:8-9).

Autoridade, então, não é nada, a menos que seja autoridade da Palavra de Deus. Esta é a prova: É isto conforme as Escrituras? “Acaso pode um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos no buraco?” (Lucas 6:39). Dizer: «Eu não pude conhecer: confiei no outro», não o salvará do poço (o inferno para os não conversos, a pobreza espiritual e a perda da comunhão para os salvos), independentemente de quanta «autoridade» pretendeu ter o ministro que lhe guiou ao erro.

Mas, como pode pretender o não espiritual e não instruído «laico» ter um conhecimento igual ao do educado e acreditado ministro, dedicado às coisas espirituais? Em geral, não pode. Ao invés de segurar por si e para si a Palavra de Deus, usando o poder do Espírito Santo que mora Nele para aprender as coisas espirituais (João 14:26), ele se submete àquele que, segundo supõe, deve saber mais e melhor. Assim, pois, na prática, o ensinamento do ministro ou pastor substitui principalmente a autoridade da Palavra. Entretanto, ele mesmo não tem certeza quanto à verdade ministrada. O laico não pode ocultar-se a si mesmo o fato de que os ministros não estejam de acordo entre si por mais doutos, bons e acreditados que sejam.

Mas aqui o diabo intervém e sugere à pessoa incauta que a confusão é o resultado da imprecisão das Escrituras, quando na realidade é o resultado de fazer caso omisso das Escrituras. Opinião, não fé, há em todas as partes. Você tem direito a dar a sua opinião, mas deve conceder a outros o direito a ter a própria. Você pode dizer «eu creio» enquanto não quer dizer «eu sei». Reclamar «conhecimento» seria reclamar que você é mais sábio e melhor que as gerações precedentes, as que creram de forma diferente.

A infidelidade (incredulidade) consegue prosperar desta maneira, e Satanás se regozija quando consegue que os pensamentos de muitos vibrantes comentaristas substituem a simples e segura voz divina. O que você necessita é a “espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Efésios 6:17). Crês tu que «assim disse João Calvino» ou «Martinho Lutero» ou qualquer outro homem, impactará tanto a Satanás como: “assim disse o Senhor”? Quem pode negar que tais pensamentos e práticas, estão em todas as partes e não restringidas unicamente aos católicos romanos e ritualistas? A tendência constante é a de desviar-se do Deus vivente, mesmo quando Ele está tão próximo dos seus hoje em dia como nunca antes na história da Igreja. Ele é, inclusive, tão capaz para instruir como sempre, e, todavia está disposto a cumprir a palavra: “O que quer fazer a vontade de Deus, conhecerá se a doutrina é de Deus” (João 7:17). Os «olhos» da fé são os olhos do coração (do afeto por Deus), não olhos da cabeça.

Deus tem ocultado dos sábios e entendidos o que revela às criaturas. A escola de Deus é mais efetiva que todos os seminários juntos, e nessa divina escola, laicos e clérigos podem ser iguais: “o espiritual julga (discerne) todas as coisas (1.ª Coríntios 2:15), pois tudo depende da condição espiritual individual. Não há substituto para a espiritualidade. O homem não pode gerar espiritualidade em outra pessoa mediante a ordenação nem mediante nenhum outro meio. Ordenação, em sua forma mais moderada, é o esforço do homem para realizar a manifestação do Espírito Santo. Mas se aqueles que ordenam cometem um erro (ou eles mesmos não são espirituais e, por ele, incapazes de julgar) e seu «ministro» não tem nada que ver com a obra de Deus, eles simplesmente provêem guias cegos para os cegos.

 

DISCUSÃO E SUMÁRIO

 

Deste modo, a santa Palavra de Deus sempre encomenda a si mesma ao coração e à consciência. O esforço de querer dar a Sua aprovação ao sacerdócio romano ou à hierarquia protestante, fracassa em ambos os casos por estar sobre o mesmo terreno do nicolaísmo. Não, o nicolaísmo não é coisa do passado, não é doutrina obscura de épocas passadas, senão um gigantesco e difundido sistema de erro, frutífero em resultados malignos. O erro, ainda que mortal, pode perdurar por muito tempo. Não vá atrás dele por causa de sua antigüidade ou porque todo o mundo o segue. O Senhor aborrece este perverso sistema clerical. Se Ele o aborrece. Deveríamos sentir medo de ter comunhão com Ele neste assunto? Todos nós devemos reconhecer que há bons homens envolvidos neste sistema: homens piedosos e verdadeiros ministros, que levam sem saber o emblema dos homens. Que Deus os livre! Que possam deixar de lado suas ataduras e serem livres! Que possam elevar-se à verdadeira dignidade de seu chamamento e serem responsáveis perante Deus, caminhando diante Dele somente!

Por outro lado, amados irmãos, é de grande importância que todos os integrantes de Seu povo, por diferente que seja seu lugar no Corpo de Cristo, estejam conscientes de que todos eles são ministros, assim como sacerdotes, sem exceção. Cada cristão tem deveres espirituais que emanam de suas relações espirituais com todos os demais cristãos. É o privilégio de cada cristão contribuir com sua participação ao tesouro comum dos dons espirituais com os quais Cristo tem dotado a seu Igreja. Um que não contribui com seu ministério, está retendo de fato o que é sua obrigação para com toda a família de Deus. Ninguém que possua sequer aparentemente um pequeno «talento», tem direito a enterrá-lo e não dobrá-lo. Tal ação é infidelidade e incredulidade.

“Mais bem-aventurado é dar que receber” (Atos 20:35). Irmãos, quando despertaremos à realidade destas palavras? Temos uma inesgotável fonte de regozijo, a qual é para benção, e se viermos a ela quando temos sede, rios de água viva correrão de nós. A fonte de águas vivas (a Palavra) não está limitada, para aquele que a recebe, pela quantidade que recebe dela. Ela é divina e, além disso, completamente nossa. Oh, conhecer mais desta plenitude e de toda a responsabilidade de sua possessão em um mundo espiritualmente seco e cansado! Oh, conhecer melhor a infinita graça que nos utiliza como o meio de transmitir aos homens! Quando estaremos em condições de entender nossa comum posição e doce realidade da comunhão verdadeira com Ele, aquele que “não veio para ser servido, mas para servir”? (Mateus 20:28). Oh, por um ministério não oficial! Que corações cheios transbordem dentro dos vazios para que muitos outros possam também estar cheios. Como deveria regozijar-nos —em um mundo de necessidade, miséria e pecado― o fato de encontrar constantes oportunidades para mostrar a capacidade da plenitude de Cristo para combater e ministrar a cada um das necessidades do mundo.

Para resumir, pois, podemos afirmar que o ministério oficial é independência prática do Espírito de Deus. Diz que um homem deve transbordar, mesmo quando estiver vazio; e, por outro lado, que outro não deve transbordar, mesmo se estiver cheio. Propõe, ante a presença do Espírito Santo —que veio na ausência de Cristo para ser o Guardião de seu povo— assegurar a ordem e o fortalecimento mediante legislação ao invés de fazê-lo mediante poder espiritual. Provoca que o rebanho de Cristo deixe de escutar Sua voz, fazendo algo não necessário para eles. Deste modo sanciona e perpetua a não-espiritualidade individual, em lugar de condená-la e de evitá-la.

No método de Deus para o tratamento da não espiritualidade, o fracasso humano pode tornar-se exteriormente mais evidente, pois Deus se interessa pouco em uma aparência exterior correta quando o coração não é reto para com Ele. Ele sabe que a habilidade para guardar uma correta aparência, com freqüência impede o juízo honesto, diante Dele, da verdadeira condição espiritual! Os homens repreenderiam a Pedro por sua tentativa de caminhar sobre aquelas ondas (Mateus 14:24-33), o qual evidenciou sua pouca fé. Entretanto, o Senhor só reprovou a pequenez da fé que o fez fracassar. O homem recomendaria o bote para o fracasso de Pedro em lugar do poder de sustentá-lo do Senhor, sustento que lhe fez provar a Pedro. De qualquer maneira, vento e ondas podem virar o bote, mas “o Senhor nas alturas é mais poderoso que o estrondo das muitas águas, mais que as fortes ondas do mar” (Salmo 93:4). Ao longo destes séculos de fracasso humano, alguém pode provar que Deus seja infiel? Amados, é vossa honesta convicção que é algo completamente seguro confiar no Deus vivente? Se é assim, então deixemos Deus trabalhar, por mais que devamos admitir que temos fracassado. Atuemos como se realmente confiássemos Nele.

 

Extraído do original em Inglês http://www.sermonindex.net/modules/articles/index.php?view=article&aid=16270

Traduzido para o Português pelos irmãos da cidade de Alegrete-RS, à partir da versão em espanhol www.verdadespreciosas.com.ar


O conteúdo da fé

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

Nos últimos meses tenho visitado várias igrejas no leste africano. Infelizmente, devo relatar que, de certa forma, as igrejas tem sido incomodadas pela interferência de irmãos [e igrejas] do Brasil, e de seus ‘enviados’ – cujo objetivo é defender um ministério particular. Esses enviados têm acesso a um volume de recursos bastante expressivo, e defendem ser isso prova incontestável da ‘bênção’ divina sobre ‘o ungido’ [forma como se referem ao ministro a quem defendem] e sobre aqueles que guardam a ‘unidade’ [forma como se referem aos seguidores daquele ministro em particular].

Não duvido que quaisquer irmãos sejam abençoados. Afinal, Deus faz chover sobre justos e injustos. Por que não abençoaria Seus filhos? Nem duvido que os recursos materiais de que dispõem são bênçãos provindas da misericórdia e cuidado de Deus para com seus filhos (Mt 5:45; 7:11). Só não creio que o amor de Deus possa ser usado como prova, contra o próprio Deus, de que Ele tenha estabelecido, ou permitido a existência de, um intermediário entre Ele e Seus Filhos, um ‘ungido’, a quem Seus filhos devem obediência para que possam satisfazê-Lo. Afinal, Ele mesmo se deu a fim de abrir-nos um [único] novo e vivo caminho, através do Filho (2 Co 5:18-19; Hb 10:20; 13:12). Jesus derrubou a parede de separação que havia entre nós e o Pai, e tornou-se nosso único mediador (Ef 2:14-16, 18; 1 Tm 2:5; Hb 8:6; 9:15; 12:24).

 “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2:5).

“porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2:18).

Outra coisa importante é lembrar que, algumas vezes, a ‘chuva’ de bênção vem para testar nossos fundamentos (Mt 7:24-27). Se estivermos sobre a rocha, a chuva apenas manifestará a firmeza e estabilidade de nossa fé, as raízes que lançamos naquilo que é invisível.

A verdade vos libertará

Foi justamente essa chuva, esse volume de recursos financeiros, que levou uma igreja a nos escrever relatando as duas visitas que haviam recebido de um mesmo obreiro brasileiro e que, em suas palavras, havia um ‘evangelho da prosperidade’ que não poderiam aceitar. Mais tarde, também disseram que perceberam que o objetivo da assistência oferecida era restringir a liberdade dos santos. Segundo o relato desses irmãos, o obreiro brasileiro repetiu, por diversas vezes: “Não discuta. Negue a vida da alma. Não argumente – apenas diga de que precisa, e nós tomaremos conta. Haverá ofertas vindo do Brasil para te ajudar.”

Aquela igreja não recebia qualquer visita há algum tempo. Pouco tempo depois, pela misericórdia do Senhor, surgiu uma oportunidade para visitarmos tais irmãos. Graças ao Senhor, estavam bem e encorajados a prosseguir conhecendo ao Senhor. Durante a comunhão, nós recebemos uma luz do Senhor: foi a verdade que os libertou, e foi a verdade que os manteve livres. Eles entenderam que, por perceberem algo estranho na mensagem, foram guardados de se lançarem numa prisão: pois, uma vez que recebessem ‘ofertas’ desse grupo, se fariam obrigados a jurar subserviência ao líder do grupo [um tipo moderno de escravidão – comércio de almas – que tem sido praticado na África].

A partir de então, passamos a ter comunhão acerca da verdade. Especialmente quanto à importância de conhecer a verdade, a fim de que ninguém espreite nossa liberdade.

 “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32)

“E isto por causa dos falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão; aos quais nem ainda por uma hora nos submetemos, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gl 2:4-5)

Depois, voltando para casa, gastei algum tempo me debruçando sobre a questão da verdade. Ora, a fim de defender a verdade, e de nos firmarmos nela, precisamos, primeiramente, conhecê-la. Precisamos, pelo menos, conhecer quais são os pilares da verdade, nos quais cremos, nos quais nos apoiamos, e dos quais não aceitaremos, nem por um minuto, que alguém nos desvie. Também percebi que a verdade do evangelho é, de fato, a nossa fé. Finalmente, considerei que é necessário que a verdade do evangelho permaneça em nós, não só para que nos mantenhamos livres, mas, principalmente, para que possamos desfrutar plenamente a salvação de Deus.

Eu não negaria o fato de que foi exatamente disso que trataram os concílios cristãos do passado, que consolidaram e promulgaram os credos [tais como o credo apostólico ou o credo de Nicéia] dos quais, hoje, lança mão a grande maioria de nossos amados irmãos. Também não discutiria a pureza, a clareza e genuinidade daqueles irmãos do passado. Só me guardaria de me apegar, tão rapidamente, aos credos que formularam e, assim, simplificar esse texto, por conta dos expedientes de que se utilizaram. Por exemplo, a premissa de que ‘bispos’ guardavam a verdade e de que falavam por toda a igreja [em outro texto, acerca da base da igreja, já argumentei acerca dos corolários dessa tese – o pior deles sendo a infalibilidade papal]. Outro ponto a se recordar é que os concílios, especialmente os últimos, bem como os credos por eles promulgados, tinham por objetivo principal refutar e corrigir doutrinas que, à época, causavam distúrbio e divisão, não apenas entre os cristãos, mas também no império que, pouco a pouco, se confundia com a igreja. O objetivo principal não era ensinar ou definir a fé, antes, era identificar, refutar e, em última instância, punir os dissidentes, os portadores da ‘não-fé’.

Por isso prefiro lançar mão do ensinamento dos apóstolos, e do registro de sua defesa da fé, que, pela autoridade do Espírito Santo, se tornaram parte das sagradas escrituras (2 Pe 3:16). O apóstolo Paulo, por exemplo, passou por experiências semelhantes [de confusão causada por pessoas perturbando a liberdade das igrejas] e, ao fim de seu ministério, passou a enfatizar, com grande esforço e propriedade, a defesa e a confirmação do evangelho – o bom combate, o combate pela fé (Fp 1:7; Ef 6:19; 1 Tm 6:12; 2 Tm 4:7).

Paulo não combatia por uma definição etérea da fé ou por um capricho puramente doutrinário, deslocado da realidade. Ele combatia em favor da felicidade e progresso dos santos, pois percebia que essa fé, que lutava para proteger, e que fora entregue aos santos, de uma só vez, produz uma salvação que é comum (Cl 1:24; Fp 1:25; Jd 1:3). É em favor dessa salvação, para que tal salvação avance e cresça, que precisamos combater diligentemente pela fé. É claro que esse tipo de convocação ao combate pode ser mal interpretada, num primeiro instante, como um incentivo à discussão, à auto-afirmação, à infantilidade. Mas, em realidade, o maior combate se trava em nossa própria mente. Contra os sofismas, as mentiras bem contadas, que deformam nossa fé e entulham a fonte de nossa vida espiritual (2 Co 10:4; Hb 10:38; Rm 1:17; Gl 2:20; Hb 2:2-4).

 “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1:3).

“visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1:17).

“Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2:2-3).

Nossa salvação é produzida pela fé que foi pré-anunciada pelos profetas, depois manifestada pelo próprio Senhor, e, finalmente, pregada pelos apóstolos – testemunhas que Ele separou para esse propósito específico (At 10:40-43; Ef 3:1-4). Portanto, não podemos negligenciar tão grande salvação. Não podemos negligenciar a fé do Senhor Jesus, confirmada na pregação dos apóstolos e pré-anunciada nas palavras dos profetas (Rm 1:1-3; Rm 3:21; Gl 3:8-9).

 “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3:8-9)

São muitos os que hoje argumentam que o conhecimento não é importante, ou que é melhor sentir-se “cheio de vida” a gastar tempo buscando ou mesmo combatendo pela doutrina dos apóstolos. Essa posição, agora, me parece hipócrita, ou, no mínimo, contraditória, uma vez que o ensinamento dos apóstolos nos trás a fé na qual somos abençoados e ganhamos vida. Ou seja, sem conhecer o evangelho de nossa salvação, não temos fé nem vida. Portanto, os que argumentam pela vida, em detrimento do conhecimento, na verdade, argumentam contra a própria vida (Mt 22:29; Mc 12:24; 1 Tm 2:3-4; Tt 1:1). E foi em favor da vida, da graça de salvação, que os apóstolos, em muitas ocasiões, não apenas ensinaram a verdade do evangelho como também contenderam por ela (At 5:28-32; 11:1-17; At 15:1-11).

 “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2:3-4)

“Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão” (At 15:1-2)

“Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” (Mc 12:24)

O que é a fé

Agora, é interessante notar que ao falar sobre a fé os apóstolos utilizam duas acepções. A primeira equivale à definição de uma faculdade, uma capacidade. A fé é a faculdade de substantificar as coisas espirituais, de assegurar-se daquilo que não pode ser visto. Essa fé também é descrita como “o espírito da fé”, mostrando que realmente a fé é uma faculdade espiritual (Hb 4:2; 5:14; 11:1-3; 1 Co 12:9; 2 Co 4:13; 2 Ts 1:4). Creio que a questão mais importante relacionada a essa acepção da fé é que há uma diferença entre aquilo que conhecemos e aquilo em que já chegamos a crer. Há uma diferença entre entender e crer, que é diretamente relacionada à diferença entre as faculdades mentais [entender, recordar, etc.] e a faculdade espiritual da fé [crer]. Essa diferença pode ser vista na descrição que Paulo apresenta em Romanos 10, de como a fé é gerada em nós. A Palavra estava perto de nós, na nossa boca e no nosso coração [indicando que já havíamos ouvido e entendido a Palavra], e depois cremos (Dt 30:12-14; Rm 10:8-10, 17).

 “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11:1)

Depois, prestando atenção em versículos como At 3:16; 8:13; Rm 1:12, 3:25; 12:3; 2 Co 13:5; Gl 3:5, 9, 23; Ef 4:5; Fp 3:9; Cl 1:23; 2:7; 2 Ts 3:2; 1 Tm 1:4, 19; 3:9; 5:8; 6:10-11; 2 Tm 2:22; 4:7; Tt 1:4; 1 Pe 5:9; 2 Pe 1:1; 1 Jo 1:4 e Jd 1:3, percebemos que existe uma fé [em todos esses trechos precedida, no original, pelo artigo definido, formando a expressão ‘A Fé’] que é comum, mútua, que o próprio Deus repartiu, entregue de uma só vez a todos. Essa “fé-herança” é o conteúdo a ser recebido por aquela “fé-faculdade”.

 “isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha” (Rm 1:12)

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (12:3)

Essa fé-herança, a fé que o Senhor Jesus nos entregou, portanto, não depende de um processo histórico, não pode ser atrelada a um grupo específico, não pode ser restringida aos defensores de uma prática específica, aos seguidores de um ministro específico, ou de um aspecto específico da verdade [em resumo, não têm nada a ver com o tal mover atual de Deus, nem a base da unidade… nada dessa natureza]. Pois foi entregue de uma só vez; por que pertence a todos; por que prescinde de quaisquer outras condições, senão a própria regeneração. O conteúdo dessa fé comum é o que deve ser defendido. A aquilo a que nos apegamos. Outros ensinamentos bíblicos podem ser úteis, mas não são motivo de combate, pois não geram, diretamente, a fé e a salvação.

Bom, a fé que recebemos veio pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (Rm 10:17). Se sua Bíblia tem letras vermelhas, vai ser mais fácil perceber quais palavras Deus está falando diretamente, as palavras pelas quais combatemos. É claro que toda a escritura foi inspirada por Deus, e é útil para ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2 Tm 3:16). Mas é preciso perceber que nem todas as palavras nas sagradas escrituras expressam, diretamente, a verdade do evangelho em que cremos, ou o conteúdo da fé que gera nossa salvação. Algumas passagens estão lá para nos ajudar a entender a verdade, ou, até mesmo, para dar-nos exemplos da desobediência à verdade, e suas conseqüências (1 Co 10:11; Rm 15:4; 16:26; Hb 4:1-12; 2 Pe 2:6).

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3:16)

“Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1 Co 10:11)

“Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:11)

Note que não é minha intenção desacreditar ou diminuir a importância de qualquer porção da Bíblia. Jamais podemos duvidar da autoridade de qualquer porção das Escrituras (2 Pe 3:16). Todos os livros, do Antigo e do Novo Testamento, devem ser respeitados como, e de fato são, a Palavra de Deus (1 Ts 2:23; Pe 1:21). O que quero dizer é que toda a escritura aponta para algo, e todos os livros [a despeito da vasta diversidade de autores, de estilos literários, de contextos históricos e de conteúdo] são costurados por uma tese única, uma mensagem única, que precisa ser encontrada (Jo 5:39). Precisamos examinar as escrituras a fim de ‘garimpar’ essa mensagem. E é essa mensagem essencial que constitui nossa fé. É possível encontrar outras mensagens e outras utilidades para as escrituras. Alguém pode utilizar-se de trechos que se adéqüem à psicologia motivacional. Pode encontrar aconselhamento matrimonial. Técnicas pedagógicas. Pode encontrar princípios de administração financeira, teoria política, filosofia do direito e muitos outros ensinamentos práticos e úteis num contexto completamente diverso da fé. Alguém pode, até mesmo, usar alguns trechos de maneira desconexa para justificar uma atitude que vai contra o ensinamentos da própria Bíblia. Por isso é importante buscar e examinar as escrituras a fim de encontrar nelas a verdade e crer.

Jesus Cristo e Sua obra

Então, qual é a tese das escrituras? Quais são os predicados dessa tese, ou melhor, as verdades que compõem a nossa fé? Creio que a maioria de nós já ouviu que a fé se relaciona à nossa salvação e esse conceito encontra boa base bíblica (Ef 1:13; 2 Ts 2:10; Tg 1:18; 2 Jo 1:2-3). De acordo com essa percepção, nossa fé se baseia no evangelho da nossa salvação. Ou seja, nossa fé é composta pela verdade do evangelho (Gl 2:5, 14; Cl 1:15, 23). E, de acordo com o registro e o ensinamento das escrituras, o evangelho é o testemunho que se refere à pessoa e à obra de Cristo, e do qual depende nossa salvação (Rm 1:1-4).

 “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa”  (Ef 1:13)

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18)

“se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1:23)

De fato, o Senhor Jesus é a verdade (Jo 14:6). As escrituras testificam dele, e todos os profetas pré-anunciaram Sua obra (Jo 5:39; At 3:18-21; 10:43; 26:22-23; Rm 1:2; Ef 3:5; 1 Pe 1:10; 3:2). Ganhar vida eterna, encontrar o conteúdo verdadeiro das escrituras, é, sem dúvida, uma questão de achar Cristo, de ouvir o que o Pai nos fala pelo Filho (Ef 1:10; Cl 1:17, 19; 2:17; Hb 1:1-2). Daí derivamos a certeza de que a verdade acerca da pessoa de Jesus [Sua divindade; Sua natureza humana; Sua posição no trono, nas alturas; Sua autoridade e preeminência sobre todas as coisas] e a verdade acerca de Sua obra [ministério terreno, morte, ressurreição e ascensão] são a parte da fé (2 Tm 2:18; 1 Jo 2:21-22; 2 Jo 1:7).

 “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14:6)

Não quero apresentar esses pontos acerca da pessoa e obra de Cristo apenas como uma lista memorizada e repassada por tradição. Por isso, é importante apresentar trechos em que os apóstolos apresentam e defendem essas questões, o que chancela nossa percepção de que realmente são parte importantíssima da fé que defendemos:

  1. A natureza divina de Cristo:
  2. “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl 2:8-9)

    “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 Jo 5:20)

  3. A natureza humana de Cristo:
  4. “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.” (1 Jo 4:2-3)

    “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2 Jo 1:7)

  5. A posição e a autoridade de Cristo:
  6. “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2:36)

    “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:11-12)

    “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”  (At 5:31)

    “o qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1 Pe 3:22)

    “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2:22)

  7. Seu ministério terreno e Sua morte:
  8. “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;” (At 2:22-23)

    “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,” (1 Co 15:3)

    “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1 Pe 3:18)

  9. Sua ressurreição e ascensão:
  10. “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1 Co 15:12)

    “Estes se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo a fé a alguns” (2 Tm 2:18)

    [Nesse último versículo o apóstolo refuta uma doutrina que teorizava sobre a ressurreição, comparando-a, ou reduzindo-a, a uma mudança de prática, ou grande recomeço, e, conseqüentemente, reduzindo a ressurreição de Cristo ao status de uma mera mudança em sua prática ministerial.]

     “De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus” (Mc 16:19)

    “Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu” (Lc 24:51)

    “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2:33)

    “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4:10)

Diante desses textos, parece-me claro que a verdade do evangelho é o conteúdo de nossa fé. E que o evangelho é com respeito a Jesus Cristo, o filho de Deus, que, vindo em carne, viveu sem pecado e morreu uma morte vicária a nosso favor, ressuscitou ao terceiro dia, apareceu a muitos e, também diante de muitas testemunhas, ascendeu aos céus e está assentado à destra do Pai. A Ele foi dado um nome que está acima de todo nome, e não há outro nome pelo qual importa que sejamos salvos.

O evangelho de Jesus

Agora, gostaria de lembrar que o próprio Senhor disse que Suas palavras eram a verdade (Jo 18:37; Mc 1:38; Lc 4:43). O Senhor não apenas operava milagres, mas também ensinava. Ele ensinava com autoridade, pois apresentava a luz da verdade (Mt 4:16; 7:29; Mc 1:22). O conteúdo de Sua pregação, portanto, nunca poderia ser ignorado. Sua pregação é imutável e incontestável. Ele também comissionou a seus discípulos para que dessem testemunho de tudo aquilo que os ensinara (Mt 28:20). Sua pregação, que é a verdade conseqüentemente, constitui, assim como o registro acerca de Sua pessoa e obra, a verdade do evangelho (Jo 17:17). Constitui, portanto, a nossa fé.

E o conteúdo do ensinamento do Senhor Jesus é, de acordo com o registro dos evangelhos, o evangelho do reino (Mt4:17; Mc 1:14-15; Lc 4:43; Jo 3:3-5). Sua mensagem acerca do reino inclui a revelação dos mistérios do reino dos céus (Mt 13:11; Mc 4:11; Lc 8:10); os sinais da vinda, ou da manifestação do reino (Mt 16:28; 24:3-31; 25:31-46; Mc 13:3-27; Lc 21:7-28); a promessa do galardão do reino (Mt 13:43; 25:9-10, 19-23; Lc 19:15-19); bem como uma série instruções acerca de como viver as verdades acerca do reino. Ele afirma que a intenção do Pai era dar-nos o reino, nos compele a buscar o reino e Sua justiça, nos fala de como entrar no reino e viver Nele, e muitos outros ensinamentos acerca do reino (Lc 12:31-32; Mt 6:63; Lc 12:31; 13:24;  Jo 3:3-7).

“Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4:23)

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:14-15)

“Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado” (Lc 4:43)

Mesmo depois da ressurreição, nos quarenta dias em que passou com os discípulos, aperfeiçoando-lhes a fé, o conteúdo do ensinamento de Jesus era o reino (At 1:3). O reino não pode, portanto, ser tomado como coisa de somenos importância. Também não pode ser ignorado como mensagem principal do ensinamento de Jesus.

 “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (At 1:3)

Veja, Filipe anunciava a Cristo e, seu evangelho acerca de Cristo incluía o reino:

“Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo” (At 8:5)

“Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres” (v. 12)

Paulo, igualmente, ao ensinar acerca do Senhor Jesus, pregava o reino:

“Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas” (At 28:23)

“pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (v. 31)

O reino é, portanto, parte do evangelho e parte de nossa fé (At 8:12; 19:5-8; 28:23, 31). No entanto, é necessário admitir que a mensagem de Jesus acerca do reino é realmente vasta e, evidentemente, é bastante difícil de expressar em um credo, em uma fórmula, uma lista sintética de afirmações que dê conta de toda a verdade do reino [são 127 menções ao reino, só nas palavras do Senhor Jesus]. O ensinamento apostólico acerca do reino também é extenso [26 menções nas epístolas e 5 no Apocalipse]. No ensinamento dos apóstolos, o reino é algumas vezes utilizado como sinônimo da igreja, ou como uma designação mais ampla da vida cristã (At 20:25; Rm 14:17; 1 Co 4:20; Cl 1:13; 4:11; 1 Ts 2:12; Hb 12:28). Então, de certo modo, tudo o que os apóstolos ensinaram acerca da igreja diz respeito ao reino. Por outro lado, o ensinamento acerca do reino dá maior ênfase ao aspecto da herança do reino, ou o galardão do reino (At 14:22; 1 Co 6:9-10; 15:24, 50; Gl 5:21; Ef 5:5; 2 Ts 1:5; 2 Tm 4:1, 18; Tg 2:5; 2 Pe 1:11)

Essa questão é delicada, pois, muitas vezes, confundimos a fé que é comum a todos os santos, essa fé que foi entregue a todos, de uma só vez, com nossa interpretação (individual ou corporativa), que nem é perene, nem pode ser comum. É no momento em que confundimos nossa visão particular com a fé, que substituímos o reino por outra esfera, menor, menos acolhedora, menos inclusiva, mais cara – como a seita dos fariseus, impondo a lei mosaica no meio da igreja (At 15:5). Quando confundimos a fé com nossa interpretação, nos tornamos como o fariseu que voltou para casa impuro. Preservar a fé, nos permite voltar para casa como o publicano, que volta perdoado, justificado (Lc 18:10-14).

O Senhor escolheu ensinar, a maior parte do tempo, através de parábolas (Mt 13:3, 10-13, 34; 22:1; Mc 4:2; Lc 8:10). Os mistérios do reino dos céus foram transmitidos por meio de parábolas e pela interpretação de algumas parábolas (Lc 8:10). Por isso é perigoso tentar instituir um “credo do reino”. É perigoso tentar compilar uma ‘revelação completa’ do reino, pois, certamente, o processo de selecionar e expressar de forma concisa as verdades do reino é bastante influenciado por nossa interpretação individual. O perigo é maior quando a interpretação traz, em si, uma implicação prática que pode ser usada como “circuncisão”, como teste de aceitação [ou rejeição] de pessoas no reino (Mt 10:41; 18:5-6).

 “Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34)

“Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento” (Mc 4:2)

“Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt 18:6)

Se o reino é tão difícil de resumir e de expressar, como pode ser parte da fé? Bom, como vimos no início desta exposição, a fé está relacionada a nossa salvação. A verdade acerca de Jesus e de Sua obra trata cabalmente da questão de nossa salvação da perdição eterna. Que é o aspecto inicial da salvação – a nossa redenção. Nosso passado como pecadores é apagado, uma vez que o escrito de dívida, que era contra nós, foi encravado na cruz  (Cl 2:14). Também, ao cremos em Jesus, recebemos a vida eterna, pois, aquele que tem o Filho, tem a vida eterna, e nos tornamos filhos de Deus (Jo 1:12; 3:36; 5:24; 6:47, 54; 1 Jo 5:12). Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Ele desceu como pão do céu para que todo que dele come não pereça, antes, receba espírito e vida por meio Dele (Jo 3:16; 6:50, 63). Portanto, estamos livres da condenação eterna, da ‘segunda morte’, e temos a esperança de estar para sempre com Jesus (Rm 6:10; 1 Ts 4:17; Hb 2:9-15; 9:28; Tg 5:20; 1 Jo 3:14; Ap 1:8; 20:14; 21:8). Tudo isso está relacionado com a nossa fé em Jesus, em Sua morte e ressurreição.

Mas, uma vez redimidos, reconciliados com Deus e regenerados, há ainda outro aspecto da salvação. Nossa salvação diária, nossa santificação, que nos transforma e nos faz parecer com Jesus (Rm 5:10; 12:1-2; 1 Co 1:30-31; 2 Co 1:9-10; 2 Pe 1:3-8). Essa salvação posterior, ouso dizer, é fruto daquela parte da fé concernente ao reino.

 “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5:10)

“Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos” (2 Co 1:9-10)

“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe 1:3-4)

O reino dos céus na África

Portanto, apesar de não me atrever a listar um grupo de verdades que apresente a totalidade do evangelho do reino, posso encontrar, no evangelho do reino, respostas à minha necessidade presente e à necessidade daqueles à minha volta, a quem sirvo. E, buscando uma maneira de ajudar os irmãos nessa região da África, tenho desfrutado de alguns aspectos particulares do evangelho do reino. Considerando ainda mais atentamente essas coisas, percebi que podem ser de ajuda à minha família e aos amados irmãos a quem envio esse texto.

Tenho dito aos irmãos aqui que, uma vez que o reino é parte da fé, precisamos conhecer o reino. Precisamos conhecer o regime de governo, ou a autoridade desse reino; a composição; a constituição, ou o ordenamento básico, desse reino; os limites; a posição. De forma simples, posso resumir, a reposta para tudo é Cristo.

O Senhor Jesus é o único Rei e soberano. A Ele pertence a soberania, ou seja, poder e autoridade absolutos, indivisíveis, indissolúveis. Veja que o conceito moderno de soberania está fortemente atrelado ao Estado como representante da soberania nacional, ou a soberania do povo. Nos estados modernos a autoridade tem de ser representativa pois o poder soberano é indivisível, e, portanto, não poderia ser distribuído entre os cidadãos. Daí, a autoridade da coletividade soberana ser delegada a fim de ser representada num único corpo. Mas, no reino dos céus, o povo não é soberano e a autoridade não é representativa. Jesus, nosso Rei, é soberano: toda autoridade pertence a Ele e Ele a exerce diretamente (Mt 28:18; 1 Co 11:3; Ef 4:15; 5:23).

 “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18)

“Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Co 11:3)

A preeminência e a autoridade de Cristo têm sido atacadas há séculos na África. Missionários de todas as partes vieram, pregaram o evangelho, assistiram aos pobres e, enquanto o faziam, ensinaram aos africanos que estes dependiam de ajuda estrangeira, espiritual e materialmente. Esses mesmos missionários, durante séculos, representaram a cultura ou estiveram diretamente associados às nações que exerciam controle sobre este continente, como se fossem realmente donos de tudo e de todos. Infelizmente, o mesmo princípio distorcido de autoridade penetrou e se solidificou em todos os grupos cristãos. Por todos os lados vemos pessoas agindo como dominadores do rebanho, alguns por constrangimento, outros por sórdida ganância. É possível encontrar aqueles que são ‘melhor-intencionados’, que não admitem exercer controle sobre os santos, mas ainda insistem na tese de que os filhos de Deus sejam dependentes de algum líder.

Tentamos ajudar aos irmãos, mostrando que todos os reis e todos os ungidos para exercer autoridade no Antigo Testamento são figuras, sombras, do único Ungido, o Cristo de Deus, que é Jesus. No Novo Testamento, ninguém mais pode declarar-se ‘o ungido’, pois está claro que em Jesus se cumpriram todas as profecias e figuras acerca da unção do Pai (Lc 4:18-21; At 3:22; 7:37; Cl 2:17). A unção que temos é a unção da cabeça, que se estende a todos os membros de igual forma (Sl 133:2; 1 Jo 2:20, 27).

 “E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento” (1 Jo 2:20)

É sempre bom notar que não somos do mundo, embora estejamos no mundo (Jo 17:16). Enquanto estivermos no mundo, precisamos dar a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus (Mc 12:17). Quanto ao cosmos, ao sistema do mundo, temos autoridades delegadas, às quais nos submetemos em obediência a Cristo (Rm 13:1; Cl 3:22; Tt 3:1; 1 Pe 2:14; 2 Pe 2:10; Jd 1:8). Mas é uma afronta ao encabeçamento de Cristo supor que a autoridade do reino dos céus seja semelhante, em natureza ou forma, à autoridade do império das trevas. Que comunhão pode haver entre as trevas e a luz?

 “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;” (Mt 20:25-26)

“Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:25-26)

“Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;  e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos” (Mc 10:42-44)

“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças (…) segundo os preceitos e doutrinas dos homens?” (Cl 2:20, 22)

Acerca do governo na igreja

Há autoridade na igreja? Sim, é Cristo. Cristo pode usar os membros do Seu próprio corpo para exercer Sua autoridade? Claro que sim! Mas o membro não se torna a autoridade delegada da cabeça. Não se torna autoridade sobre outros membros. A cabeça continua sendo a única autoridade no corpo. A cabeça continua sendo a única sobre, acima dos membros. O conceito de ferramenta, ou membro que é utilizado na consecução de uma ordem, é muito diferente do conceito de delegado, ou representante da cabeça. Note que o governo na igreja é expresso, quando necessário, por meio de um dom espiritual, e esse dom não é dos mais importantes. Veja as listas de dons espirituais, e verá que o dom de governo, quando citado, figura entre os últimos, ou, os de menor importância. Mas nós devemos promover os melhores dons (Rm 12:3-8; 1 Co 12:8-10, 28-31).

“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (…) Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons” (1 Co 12:28, 31)

“Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (v. 11)

Isso não anula, de forma alguma, o ensinamento apostólico acerca dos presbíteros/bispos [termos intercambiáveis, usados para se referir, seja quanto à natureza ou quanto à função, àqueles que têm o ofício, ou ministério, de liderar a igreja] (At 14:23; 20:17-36; 1 Tm 3:1-7; 5:17-20; Tt 1:5-9; Tg 5:14; 1 Pe 5:1; Hb 13:17, 24). A doutrina dos apóstolos acerca dos presbíteros é clara e indiscutível. Ainda assim, levados por seus próprios interesses, muitos a têm distorcido, utilizando-se de uma preocupação saudável dos apóstolos, especialmente quanto ao cuidado diário dos santos, para estabelecer um sistema hierárquico na igreja. Distorcem a sã doutrina a fim de tomar o lugar que pertence a Cristo e exercer autoridade sobre os irmãos, exaltando-se sobre o rebanho que é de Deus. Veja que em todos os trechos, as atividades a que foram incumbidos os presbíteros nunca incluem o exercício de autoridade sobre a igreja.

Vemos as expressões pastorear, socorrer, hospedar, ensinar, cuidar, ter bom testemunho, ser irrepreensível como despenseiro, exortar pelo reto ensino, convencer, pastorear como modelo do rebanho, e, finalmente, guiar, especialmente como exemplo de fé. Esse é o tipo de liderança ensinado pelos apóstolos, que não admite o exercício de autoridade sobre os irmãos. É impressionante que, mesmo não havendo qualquer brecha para que o ofício episcopal seja confundido com governo sobre a igreja, os nicolaítas só conseguem enxergam governo nessa doutrina. Note que a única menção a governo, em toda a doutrina acerca do presbitério, é o governo que o presbítero deve ter sobre sua própria casa.

“e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);” (1 Tm 3:4-5)

Alguém poderia argumentar que 1 Tm 5:17 fala de presidir. Entretanto, é preciso lembrar que o verbo proisyhmi [proistemi], no original, que foi erroneamente traduzido como presidir, significa, na verdade, montar guarda, proteger, cuidar e, por extensão, prestar assistência, ajudar. É um termo que se adéqua melhor ao ofício de uma babá do que ao de um governador. Pessoas que tentam exercer primazia na igreja, estar sobre os outros, sempre trazem problemas à igreja em lugar de cuidado (3 Jo 1:9).

Amados, se dermos ao Espírito a liberdade [ou melhor, se reconhecermos Sua autoridade] para  nos liderar, nos usar conforme Lhe apraz, não precisaremos elevar um mero ser humano como autoridade ‘substituta’ ou ‘delegada’. Se tivermos o Espírito, teremos a unção para nos liderar, para nos ensinar todas as coisas, e não será necessário eleger um ‘vigário’ de Cristo, um substituto. Não será necessário defender a ‘autoridade delegada’ de ninguém na igreja (1 Jo 2:27). Por outro lado, quando, por preguiça ou ganância, permitirmos que o sistema de autoridade do mundo, o trono de Satanás, entre na igreja, então existirá autoridade delegada entre nós. O delegado, os delegados do delegado, os delegados dos delegados do delegado… Isso se chama hierarquia, ou, em linguagem propriamente bíblica, as obras dos nicolaítas – às quais o Senhor odeia (Ap 2:6).

O Espírito foi específico ao listar o dom de governo na quinta categoria. Devemos dar importância àquilo que Deus dá, conforme Ele dá. Estamos ajudando os irmãos aqui, no continente africano, a não darem importância a títulos, à posição ou ao reconhecimento. A não darem importância à tradição mundana que prega haver hierarquia entre nós. Rejeitamos o trono de Satanás que vem com as obras dos nicolaítas. Pelo contrário, damos preeminência a Cristo e buscamos os melhores dons, a fim de servi-Lo (Cl 1:18).

Durante uma visita à Tanzânia, um grupo de agentes de imigração nos parou e um irmão queniano, que viajava conosco, acabou sendo levado e quase ficou preso, por que escreveu em seu passaporte “Pregador” como profissão. Se você é um pescador, e é encontrado pregando, “Parabéns!”. Mas, se você é um pregador, antes de começar a exercer sua profissão, precisa de autorização especial do governo (visto de trabalho, residência temporária, etc.). Nada mais justo, evidentemente. Acabamos pagando USD 200 para liberar o irmão. Mas foi um preço pago por uma boa lição. Todos os presentes, inclusive o “Pregador”, vimos que qualquer tentativa de estabelecer uma posição [de autoridade ou não], ou lutar por um título, por reconhecimento, tem um único resultado: nos anular como servos de Cristo e nos misturar com os negócios desse mundo.

Todos os irmãos ficaram tocados. Depois de resolvida a situação, tivemos comunhão mostrando aos irmãos que Jesus, sendo Senhor e Rei sobre todas as coisas, nunca aceitou um titulo. Quando O chamavam de Filho de Deus, respondia dizendo que é Filho do homem. Quando perguntado se era rei, respondeu “tu o dizes” (Mt 27:11). Quando perguntado se era Filho de Deus, respondeu da mesma forma (Mt 26:63-64). Não era falsa humildade, nem só mais um preceito religioso. O Senhor realmente tomou o caminho da humilhação. Ele é agora nosso único caminho (Jo 14:6). O reino não é uma instituição hierarquizada, com ofícios e títulos, com assentos e tronos. O reino é um caminho (At 18:26; 24:14; 2 Pe 2:2). Nesse caminho, a única autoridade a quem seguimos e a única autoridade a quem defendemos é Jesus, o Autor e Consumador da fé, que vai adiante de todos nós (Hb 12:1-2).

A natureza do reino

Perceber que o Senhor Jesus é nosso único rei já resolve uma multidão de problemas em nossa carreira cristã, especialmente em nosso convívio com os amados filhos de Deus. Quando Jesus é soberano, não há relação de inferioridade ou superioridade entre nós. Mas a percepção que Jesus é rei não resolve outro problema grandemente difundido na África: o evangelho da prosperidade. A confusão entre o que vem de Deus e o que vem do mundo faz com que muitos vivam angustiados, esperando por aquilo que não traz esperança. O reino de Deus é espiritual e as bênçãos do reino são, antes de tudo, espirituais. A maior delas sendo a nossa liberdade em Cristo.

Quando iniciou seus sinais na Galiléia, Jesus recebeu a visita de um dos governantes dos judeus. De certa forma, podemos dizer que Nicodemos se interessou pela doutrina de Jesus [pois o chama de mestre] por causa dos sinais que Jesus fazia [pois indicou que via em Jesus, pelos sinais que fazia, autoridade da parte de Deus] (Jo 3:1-2). Mas a essa confusão entre as coisas de Deus e as coisas que podem ser vistas, o Senhor Jesus respondeu que é necessário nascer de novo para ver o reino de Deus. Aquilo que pode ser visto com olhos carnais não pode ser confundido com o reino de Deus. O reino é visto por aqueles que têm outra vida, outra natureza. O reino é do alto, e só pode ser visto por aqueles que nasceram do alto, da água e do Espírito (Jo 3:5-7; 1 Co 10:1-2).

E a natureza espiritual do reino foi também parte da defesa do evangelho por parte dos apóstolos, cuja preocupação era ajudar os irmãos a desassociar sua vida e prática cristã do conhecimento que tinham, da percepção limitada que tinham, baseada naquilo que podiam ver e não na palavra da fé, pregada pelos apóstolos (Rm 14:1; Co 15:50).

 “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50)

Ainda é muito difícil para os irmãos aqui desassociarem a bênção material da maturidade espiritual. Os mesmo brancos que traziam o ensinamento bíblico também traziam dinheiro. Assim, ficou estabelecido que se alguém tem bom ensinamento, deve também ter bastante dinheiro. Mas, nossa defesa do evangelho tem sido para que os irmãos percebam que o que é provindo da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. O reino de Deus tem uma natureza diferente, que não pode ser medida, nem teatada, nem apreendida, por meio de coisas inferiores, terrenas.

E o evangelho da prosperidade tem outras vertentes, por exemplo, a bênção numérica. Muitos são os que defendem a genuinidade de seu ministério baseando-se no número de seguidores que arrastam após si. Encontramos vários ‘bispos’ e ‘apóstolos’ que são capazes de nos dizer quantas “igrejas” têm, com quantas pessoas, com que volume de ofertas, etc. – mas não são capazes de citar um versículo bíblico. Mais uma vez, o número de pessoas não pode medir nem testar nossa proximidade do reino dos céus. Muitas pessoas na carne, unidas em um só propósito, ainda são apenas carne. Note que o Senhor, que abomina divisão, preferiu confusão e divisão à unidade de Babel (Gn 11:1-7).

“e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro” (Gn 11:6-7)

Recursos financeiros e grandes ajuntamentos podem até resultar da bênção de Deus para os filhos do reino, mas não necessariamente expressam o reino. O reino não é visto nessas coisas. De acordo com o ensinamento do Senhor, em João 3, a melhor maneira de assegurar-se de que você está no reino é seguir o Espírito (Jo 3:5-8).

“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3:8)

A maior bênção do reino, e a mais contundente prova de que estamos vivendo o reino de Deus na terra é a liberdade que só o Espírito dá. Se sou obrigado, por tradição, revelação ou ‘dívida de gratidão’, a seguir alguém, já não é mais o Espírito quem me guia. Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2 Co 3:17). Apesar de alguns ainda acharem que a piedade é fonte de lucro, o Senhor mesmo, pela palavra de Sua boca, está nos libertando e nos guardando de, por amor ao dinheiro, ou às coisas materiais, nos desviarmos da fé (1 Tm 6:5-10). Essa é a bênção que melhor expressa o reino. E precisamos perceber a natureza espiritual do reino para desfrutar plenamente essa bênção.

A composição, o limite e a posição do reino

Quanto à composição do reino, também pelo que lemos em João 3, temos de admitir que o reino é composto exclusivamente por pessoas que têm Cristo. Portanto, Cristo é o conteúdo, a vida e o significado das ações dos cidadãos desse reino (Mt 13:43; Lc 12:32; Jo 1:12, 17; 3:3-8). Ele é o código de conduta, o limite da liberdade individual e o sentido da vida conjunta desses cidadãos. Ele é o “acordo social”, o “ethos”, o espírito do povo, a constituição do reino (Jo 10:1-5, 27; Rm 14:8; Cl 1:26-27; Cl 3:1-4).

“Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 13:43)

Isso pode parecer ‘espiritual demais’, mas tem aplicações práticas muito importantes. Todos os cidadãos do reino de Deus foram igualmente qualificados para entrarem no reino por meio da vida. Todos os cidadãos são igualmente filhos de Deus (Jo 1:12; Ef 2:19). Portanto, não há castas nem há classes sociais nesse reino. Pode até haver diferença nas realizações, mas elas não resultam em qualquer diferença entre os cidadãos. Não existe a classe dos que fazem tudo. E, certamente, não existe a classe dos que nada fazem. O Rei deu a mesma porção e a mesma responsabilidade a cada um, e também julgará igualmente a cada um (Mt 25:13:30; Mc 13:33-37; Lc 19:12-15).

“Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo. É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie” (Mc 13:33-37)

Isso quer dizer que cada um deve levar a cabo sua função, seu ministério, no reino. Não podemos ser maus e negligentes, enterrando o dom de Deus (Mt 25:26; Lc 19:22-24; 1 Tm 4:14; 2 Tm 1:16). Sentar-se e esperar que outros nos sirvam e façam tudo na igreja é apenas outro tipo de obra de nicolaítas, que o Senhor odeia. Uma vez que, aos filhos desse reino, o Pai já concedeu todas as coisas, Nele mesmo (Lc 15:31), já não é necessário esperar um homem que nos ajude (Jo 5:7-8), ou algo por algo mais que nos satisfaça (Jo 4:12-15).

“Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu” (Lc 15:31)

Esse é um grande mistério do reino, que os foi revelado. Cristo, como a semente do reino, está em nós. Essa é nossa esperança da glória. E é por essa esperança da glória que podemos ser cidadãos completos, perfeitos, desse reino. Não só desfrutando das riquezas insondáveis de Cristo como também contribuindo para o avanço do reino (Mt 5:48; Cl 1:27-28).

“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48)

“o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1:26-28)

Por outro lado, não nos cabe interferir no serviço de outros irmãos, ou ditar o que devem fazer, ou como fazer. Se quisermos promover o reino, cabe-nos apenas encorajar uns aos outros ao desfrute de Cristo. Afinal, Cristo é o limite, a fronteira do reino (Jo 1:46; 4:29; 10:7-9). Ele é a porta. Quem entra em Cristo, encontra o reino. O que não está em Cristo não está no reino. O que está em Cristo está no reino. Assim, a quem Ele tiver chamado, recebemos (Mt 18:5; Mc 9:37; Jo 13:20).

“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê” (Jo 1:46)

“Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo 10:9)

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou” (Jo 13:20)

Cristo como limite do reino é uma grande lição para nós. Muitas vezes temos oportunidades de cooperar pelo reino, mas somos limitados por algum tipo de ‘circuncisão’, por alguma fronteira dentro do reino, baseada em ensinamentos e práticas que não constituem a fé, a verdade do evangelho (Cl 4:10-11). Outras vezes nos recusamos a receber ajuda pelo mesmo motivo. Cristo é o nosso limite. Ele é a porta. Não podemos criar outra porta, outra separação, pois, certamente, deixaremos o Senhor do lado de fora (Ap 3:17-20).

“Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo” (Cl 4:10-11)

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3:20)

Cristo é a fronteira, é a entrada do reino e é também sua posição (Lc 17:20-21; Jo 4:21-24; 14:17). Esse reino só pode ser visto em Cristo, só pode ser adentrado e visto por aqueles que nasceram de novo, do alto, cuja vida está oculta com Cristo em Deus (Jo 15: 15:4, 9; Cl 3:1-3). Portanto, para sermos firmados e consolidados na fé acerca do reino, precisamos ser firmados e consolidados Nele. Estar no reino não é uma questão de estar num ‘solo sagrado’, nem de pertencer a um determinado grupo de elite. Se trocarmos nossa posição em Cristo por outra posição, que desesperança! Que retrocesso!

“Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4:21)

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:20-21)

A coroa

Pode parecer estranho, mas é mais fácil perceber a importância dos aspectos da verdade do reino que citei acima quando eles são atacados. Quando tudo parece bem, o evangelho do reino parece teórico e evasivo. Mas quando a continuidade de nossa salvação é ameaçada, vemos quão preciosa é a fé na palavra do reino. Por exemplo, quando outra autoridade, ou outra forma de autoridade, surge na igreja. Ou quando alguém tenta impor um limite à igreja, excluindo outros irmãos, baseado em uma teoria, em um ensinamento, em uma prática [ainda que comprovada e claramente bíblicos].

A triste percepção é que a maioria dos cristãos lutaria mais por seu líder do que por Cristo. Digo isso pois é patente que, diariamente, lutam mais para provar qual líder [ou qual doutrina] é superior do que para que Cristo seja o único tema numa conversa, para que nada retire a atenção e a simplicidade devidas a Cristo. Lutam mais por práticas, que constituem limites muito restritos, do que por preservar Cristo, que é inclusivo.

Por isso, amados, esforcemo-nos por manter a unidade do Espírito, no vínculo da paz. Lutemos concordemente pela fé evangélica (Fp 1:27). A fé no evangelho acerca de Jesus. A fé no evangelho do reino, que Jesus pregou. Combatamos o bom combate a fim de guardar a fé, até o fim de nossa carreira para que, confiadamente, lancemos mão da coroa que nos está guardada (1 Tm 4:7-8; Hb 6:18).

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1:27)

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (1 Tm 4:7-8)

“para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta” (Hb 6:18)

Minha comissão, diante do Senhor, realmente não é apontar erros, ou identificar exatamente quem, e de que modo, estaria atacando a fé, no que diz respeito ao reino. Creio que só o Espírito pode confirmar os corações, em toda boa palavra e boa obra (1 Ts 3:13; 2 Ts 2:16-17). Numa reação natural, imatura, eu tentaria defender o reino apenas apontando erros e condenando pessoas. Isso mostra minha necessidade de crer mais e confiar mais no Espírito. De fato, é melhor repetir essas palavras do reino, de maneira positiva, e crer.

Por outro lado, vale lembrar que também é parte do ensinamento do reino permitir que cada um receba diretamente do Senhor aquilo que o próprio Senhor deseja dar-lhe (Mt 20:14-15).

“Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20:14-15)

Finalmente, amados, gostaria de pedir que julguem tudo o que acabo de dizer e retenham o que é bom e, no que for preciso, me corrijam em amor. Dois ou três falam, e todos julgam. É nesse julgamento de todos que se manifesta a mente de Cristo (1 Co 14:29; 2:16).