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É assim que Deus nos ama

Written by Stefano Mozart on . Posted in Citações, trechos de livros etc

Há dois tipos de amor: amamos pessoas sábias e gentis e belas, porque precisamos delas; mas nós amamos (ou tentamos amar) pessoas estúpidas e desagradáveis porque elas necessitam de nós. Este segundo tipo é o mais divino porque é assim que Deus nos ama: não porque somos amáveis, mas porque ele é amor, não porque ele necessita receber, mas porque ele se agrada em dar.

CS Lewis

Porque não deixei de me congregar com a Igreja

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Semana passada, um amigo de infância sofreu uma enorme perda. No grupo de WhatsApp dos “brothers”, outro irmão enviou uma mensagem informando o que havia acontecido e nos encorajando a prestar todo apoio, em oração e no que mais fosse possível. Ele terminou essa mensagem dizendo: “É por isso que estamos no Corpo de Cristo. Então, agora vamos agir como o Corpo”.

Quando falamos do Corpo de Cristo, é muito comum pensarmos na contribuição, o serviço de cada membro, na vida eclesiástica, nas reuniões ou cultos da igreja com a qual congregamos. Essa tendência é bastante forte, mesmo sendo comum a pregação que atrela o conceito de corpo ao dia-a-dia, ao convívio e cuidado mútuo, para além da reuniões.

Eu tive a bênção de ter uma experiência saudável de corpo. Sou uma pessoa naturalmente introvertida. Mas tenho um grupo enorme, e duradouro, de amigos. São amigos que tenho desde a infância e a mais tenra juventude porque convivíamos na vida cristã normal. Não apenas nos encontrávamos nas reuniões, mas havia um contato constante. Havia liberdade, cuidado e unidade entre as famílias. Tanto que alguns de nós, quando criança ou jovens, chamavam as irmãs da igreja de mãe também. Mamãe Loide, mamãe Guiomar etc.

E ainda hoje experimentamos essa vida de corpo, pois, mesmo morando em diferentes cidades e congregando em diferentes igrejas, ainda buscamos suportar uns aos outros no amor, na fé e na Palavra.

Há no entanto, um certo “desencanto” com a visão da Igreja com Corpo de Cristo. E há um número cada vez maior de irmãos que se afastam de suas denominações e grupos cristãos organizados à procura de uma experiência mais genuína ou mais pura com Deus. É fácil generalizar e menosprezar todo um conjunto de contextos, experiências e aspirações, embalando todo mundo num título demeritório como “desigrejado” ou “rebelde”.

Eu entendo que a decepção acontece justamente quando a vida eclesiástica, a vida de ajuntamentos públicos, conferências, publicações etc, não se ajusta à expectativa ou à imagem que se tem do Corpo. Não se parece com aquela dinâmica de edificação mútua, em amor, descrita em Efésios (Ef 4:2, 12-16; 5:2). Infelizmente, é inegável que ainda temos muitas divisões, disputas em defesa de um ministério em detrimento de outro, em defesa de um entendimento teológico em detrimento de outro. Não somos perfeitos. Nosso líderes não são perfeitos. Erramos, participamos ou damos ensejo a muitas dessas disputas. O resultado é que o mundo nos vê divididos e muitos irmãos abandonam os grupos em que congregam em decorrência disso, seja por desapontamento, esgotamento, perseguição ou uma série de outras razões.

Elias teve uma experiência de se afastar da congregação de Israel. Note que, à época, Israel era uma nação dividida e idólatra, que, sob a liderança de Jezabel, buscava a morte dos que adoravam ao verdadeiro Deus de Israel. Com a porção que recebeu diretamente de Deus, ele teve foças suficientes para chegar em Horebe e se alojar em uma caverna (1 Rs 19:5-8). No caso específico de Elias, Deus não o mandou sair. Ele saiu fugindo da perseguição. Mesmo assim, o Senhor o alimentou na jornada.

Além disso, na caverna, Elias teve uma comunhão pessoal com Deus que começou com a pergunta: “Que fazes aqui, Elias?” A resposta foi “(…) mataram os teus profetas às espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida” (vs. 9-10). É interessante observar que Deus perguntou o que Elias estava fazendo e ele apresentou como resposta o que Israel estava fazendo. Deus, então, mandou que Elias saísse da caverna e se apresentasse a Ele. Lá fora, um vento forte a ponto de fender os montes, mas o Senhor não estava no vento. Depois um terremoto, mas o Senhor não estava nele. Depois um fogo ardente, mas o Senhor também não estava no fogo. Por fim, um cicio tranquilo e suave e Elias entendeu que o Senhor estava, finalmente, ali. Por isso cobriu o rosto e saiu da caverna. Então, o Senhor lhe perguntou novamente: “Que fazes aqui, Elias?”. Elias repetiu exatamente a mesma resposta (vs. 11-14).

O Senhor, então, mandou que ele fosse até a Síria ungir a Hazael como rei. Também ordenou ungir a Jeú como rei de Israel e a Elizeu como profeta. E concluiu com a seguinte afirmação: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (vs. 15-18).

Minha conclusão é que, onde quer que eu esteja hoje, não pode ser pior do que a nação de Israel nos tempos de Elias. Se Deus, mesmo naquela Israel, conservou sete mil fieis, porque não conservaria uma proporção ainda maior onde estou hoje? Além disso, o enfoque, na minha comunhão pessoal com Deus, é no que eu estou fazendo, não no grupo. A despeito de quão só e desamparado eu possa me sentir, Deus está ungido reis e profetas – está exercendo Sua soberania absoluta.

Deus não estava no vento forte, que transforma a paisagem fendendo os montes. Não estava no terremoto ou no fogo. Deus não estava fazendo grandes sinais para mudar a situação de Israel. E, provavelmente, não veremos Deus operando mudanças milagrosas na cristandade como um todo. A resposta de Deus não se encaixava nas expectativas de Elias. E a resposta que Deus dá pros problemas da igreja hoje pode não se encaixar nas nossas expectativas. Mas Ele continua sendo Deus, absolutamente soberano.

Meu sentimento, ao apresentar essa passagem, é que, talvez, ainda vamos experimentar muitos problemas no nosso convívio com os irmãos. Haverá problemas de ordem fundamental, como havia em Israel, e nós não seremos capazes de lidar com eles, como Elias não foi. E Deus segue sendo o mesmo. Se for preciso nos afastar, que o Senhor seja gracioso conosco e nos alimente, como fez com Elias, e nos ajude a encontrar um lugar onde possamos ouvir seu cicio suave. Se não for preciso nos afastar, que nos esforcemos, igualmente, para encontrar o Senhor, ouvi-Lo, e atender à Sua voz. O foco será sempre nossa comunhão pessoal com Deus e o que Ele quer que cada um faça, na sua experiência e contexto pessoal.

A experiência real do Corpo, a meu ver, não está na corretude da forma eclesiástica ou do bojo teológico sistemático ao qual o grupo adere. A experiência do Corpo está na percepção de que somos pecadores, frágeis, e de que, sem o Senhor, não somos e não temos nada. O que nos iguala e nos une é nossa desesperadora necessidade Dele. A experiência de Corpo está em desenvolvermos uma vida em comum, uma “cumplicidade” em torno da percepção de que não somos fortes o suficiente para caminharmos sozinhos.

Tenho aprendido a confiar no Senhor e em Seu cuidado específico com cada um de Seus filhos. Quem pode dizer que não foi o Senhor que chamou alguém para fora de sua denominação? Ele chamou os discípulos para fora de um judaísmo envelhecido e vazio. Chamou os reformadores para fora de uma igreja apóstata. E pode ter chamado um irmão que congregava comigo para fora de uma experiência negativa no grupo com o qual me reúno hoje. Por isso não me escandalizo com alguém que se afaste, nem creio que seja necessário fazer campanha para que alguém congregue dessa ou daquela maneira.

No entanto, tive a experiência pessoal de deixar o convívio com um grupo específico e ver muitos dos que saíram na mesma época se enfraquecerem ou se afastarem aos poucos, como Ló, até serem completamente absorvidos por uma cultura, uma cosmovisão e uma maneira de vida sem Deus (Gn 13:11-12). Por isso creio ser importante apresentar um encorajamento e um testemunho positivo a respeito de congregar-se.

O ensinamento apostólico nos adverte que não deixemos de congregar-nos (Hb 10:25). É importante ressaltar que essa admoestação foi dada num contexto em que autor de Hebreus nos ensina sobre o privilégio dos crentes de acesso à presença de Deus. Congregar-se, nesse contexto, não nos leva à presença de Deus. Pelo contrário, experimentar a presença de Deus é que nos habilita a manter a prática, o costume, de congregar-nos. Depois de adentrarmos, com intrepidez, no Santos dos Santos, pelo novo e vivo caminho que Ele mesmo nos consagrou pelo véu (vs. 19-20), precisamos guardar firme a confissão da esperança (v. 23); estimularmos, uns aos outros, ao amor e às boas obras (v. 24); e, finalmente, não deixar de congregar-nos (v. 25).

Então, uma vida cristã normal começa com uma experiência individual saudável, que nos habilita a uma experiência corporativa saudável. A raiz, o fundamento, é o exercício do direito ao Santo dos Santos. Congregar-se é um dos frutos. Logo, numa situação de normalidade, estaremos nos congregando: seja no contexto de um ministério que agrega milhares de pessoas, em centenas de países, seja no contexto de duas ou três famílias que suportam umas às outras no amor de Cristo. Ambos – o ministério gigantesco e o grupinho de famílias – são apenas parte do Corpo de Cristo.

No fim, o que importa é que, quando um irmão sofra uma grande perda, nós sejamos capazes de chorar com ele. Que tenhamos o mínimo de intimidade, pelos menos pra sermos avisados dos problemas. Que, na hora da provação, os irmãos saibam o nosso telefone e saibam que podem contar conosco, porque estaremos prontos a consolar, a servir. É por isso que estamos no Corpo de Cristo. E é por isso que eu não deixei de me congregar com a Igreja.

Existe coincidência?

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Estava conversando com um grande amigo e irmão na fé sobre uma série de eventos que me ocorreram. Então surgiu a pergunta: “Você não acha que é muita coincidência?”. Ao que eu respondi, tranquila e laconicamente: “Não.”

É claro que coincidências, na acepção de “simultaneidade de diversos acontecimentos”, como na definição dada pelo Priberam, existem. A questão mais profunda naquela pergunta era, na verdade, se eu acreditava que Deus estaria arranjando os acontecimentos numa ordem específica pra me apontar uma determinada direção.

Sim, eu creio que Deus pode arranjar acontecimentos numa ordem específica de modo a conduzir alguém a uma ação específica. Deus pode tudo. Creio que essa seja uma lição, por exemplo, na história de José. Ter mercadores passando por perto exatamente no dia em que seus irmãos o lançaram no poço? Ter o copeiro de faraó na mesma cela? Vários eventos na história de José parecem ser “coincidência demais”. E de fato foram. José sabia disso, e por isso mesmo afirmou: “Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito.” (Gn 45:7-8).

No entanto, saber que Deus pode arranjar os fatos para conduzir alguém a realizar alguma “missão” não me leva a concluir que sempre que me deparo com uma coincidência estou diante de um “chamado de Deus” ou algo do tipo. É verdade, Deus exercita sua vontade soberana arranjando eventos com Lhe apraz. A Bíblia nos traz diversos exemplos. Também é verdade que que Ele arranjou soberanamente diversos fatos para conduzir Seu povo. Vejo nesses exemplos a muita misericórdia e a longanimidade de Deus. Ele fala conosco e, por Sua bondade, nos conduz de diversas maneiras.

Essa percepção não nos obriga, entretanto, a procurar explicação pra tudo. Também não obriga a Deus a nos prover explicação ou direção em tudo. Já vi mestres cristãos ensinando que “o crente não pode se satisfazer em não entender”. Que “o cristão genuíno tem que buscar conhecer a vontade de Deus em tudo o que acontece com ele”. Minha impressão é que esses teólogos do “busque explicação pra tudo” se assentam na cadeira de Moisés, como os escribas e fariseus, e “atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los” (Mt 23:4).

Somos todos falhos. Temos pouca fé. Nosso coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto (Jr 17:9). Como nos prova a experiência de Jó, nem mesmo uma longa vida de fé e obediência nos capacita a entender plenamente os desígnios de Deus. Sempre existirão coisas maravilhosas demais para nosso pequeno e corrupto coração (Jó 42:3).

Além disso, a história de Rute nos mostra que, por muitas vezes, o arranjo soberano de Deus perpassa diversas gerações. Boaz, como parente mais próximo, pode ter exercido seu dever de resgatar uma viúva. Mas, muito antes que Boaz existisse, Deus a alimentou e sustentou, ordenando aos Israelitas: “Quando também segares a messe
da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” (Lv 19:9-10).

Note que essa lei, acerca de não rebuscar campos para alimentar o pobre e estrangeiro, foi dada ao povo enquanto estes comiam do maná que Deus lhes provia do céu, e bebiam de uma pedra que os seguia. E a pedra era Cristo (1 Co 10:3-4). Há um arco de centenas de anos entre o estabelecimento da lei e seu impacto prático na vida de Rute. E de Rute, Boaz gerou a Obede. Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi (Rt 4:21-22). E esse arco, entre o estabelecimento da lei e o resgate de Rute, é apenas um trecho de um arco ainda maior, que culmina no nascimento de “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1:1).

O Senhor, nosso Deus, é Fiel. E guarda Sua aliança e misericórdia até mil gerações aos que O amam e O obedecem (Dt 7:9). Quando for possível entender Seu arranjo e seguir Sua direção, sigamos com plena confiança. Quando não nos for possível entender os tempos, sigamos, ainda mais assim, em total confiança Nele. O requisito da fé, pra que nos aproximemos Dele, não é que entendamos os Seus caminhos, mas que creiamos que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que O buscam (Hb 11:6).

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.

Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre.

Salmo 131