Memória

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

A memória é uma parte importantíssima do relacionamento entre as pessoas. Dizem que “a primeira impressão é a que fica”, mas, na verdade, é a “impressão constante” que fica. São os atos corriqueiros, as conversas repetidas, os pequenos detalhes da convivência que formam a imagem das pessoas que conhecemos e guardamos no coração. Nosso relacionamento com Deus também é muito impactado pela memória. Pela memória que temos Dele, e pela memória que Ele decidiu guardar de nós.

A história de Israel é uma figura que demonstra a importância da memória no nosso relacionamento com Deus (1 Co 10:11). O princípio da antiga aliança que Deus firmou com o povo de Israel foi o estabelecimento da páscoa como uma memória, um memorial entre o povo e Deus:

“Este dia vos será por memória, e  celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (Ex 12:14).

Deus também estabeleceu que guardassem o sábado, para que se lembrassem quem Ele é e o que Ele faz:

“Tu, pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados; porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica” (Ex 31:13)

Deus estabeleceu a páscoa, o sábado, as demais festas e uma série de outras ordenanças que tinham como objetivo garantir que eles se lembrariam de quem Deus é, do que Ele havia feito, de como os havia salvado e conduzido. Ao reafirmar e clarificar os termos da aliança no livro de Deuteronômio, Moisés repete mais de uma dezena de vezes a advertência de que Israel deveria se lembrar perpetuamente de como Deus os havia livrado do Egito.

No entanto, os livros históricos, como Juízes, Crônicas e Reis, mostram várias ocasiões em que o povo sofreu porque se esqueceu de Deus. Ao se esquecerem de Deus, eles também se esqueciam de quem eles eram, perdiam sua identidade, suas raízes, sua fonte. A atitude aparentemente punitiva de Deus, ao permitir que sobreviessem sobre eles seca, escassez, e até mesmo guerra e cativeiro, era na verdade, uma atitude de amor, de resgate. Como nos ensina Oseias, todas as vezes em que o Senhor cercou Israel com espinhos, seu objetivo não era fustigá-los, mas trazê-los de volta ao Seu amor (Os 6:6, 13-15).

Com base na história de Israel, podemos concluir que a memória que temos do Senhor não define apenas nosso relacionamento com Ele. Define quem nós somos, como vivemos e como viverão os nossos filhos.

A memória do Cordeiro

Foi por isso que, ao estabelecer uma nova aliança, o Senhor Jesus, nosso Cordeiro Pascal, estabeleceu uma nova festa, um novo rito, uma nova memória:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isso em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha.” (1 Co 11:23-26).

Deus encerrou a todos, maus e bons, debaixo da condenação da desobediência, a fim de que se manifestasse sua misericórdia para com todos, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 11:32; 3:23). Não importa quão engajados e bem-sucedidos nos sintamos na carreira cristã, não podemos nos esquecer da misericórdia, do corpo partido, do sangue derramado, que nos salvou a todos. Não importa quão deslocados ou derrotados nos sintamos na carreira cristã, não podemos nos esquecer da misericórdia, do corpo partido, do sangue derramado, que nos salvou a todos.

O ensinamento apostólico, por outro lado, é insistente em demonstrar que a graça foi recebida, e é recebida, e será sempre recebida, pela fé, e não como resultado de boas obras, para que não nos esqueçamos de quem é o Autor de nossa salvação, para que não nos esqueçamos de quem é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1:29, 36; At 15:11; Rm 3:24; 4:16; 5:2, 17; 11:6; 2 Co 8:9; Gl 1:15; Ef 1:6; 2:1, 5-8; Tt 3:7; Hb 2:9; 12:28; 1 Pe 1:3).

A memória do Cordeiro não é, portanto, passageira, ou restrita à experiência inicial de redenção. Agora, que temos essa nova aliança, temos um novo e vivo caminho, que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua carne (Hb 10:20). Isto é o mesmo que dizer que essa memória, do pão e vinho, do corpo partido e do sangue derramado, não apenas nos conta do que Deus fez no passado, mas aponta o caminho a ser trilhado no presente. Um caminho novo, vivo. Uma vida nova, baseada numa nova esperança, numa nova e incontestável certeza do amor de Deus.

E a importância da memória do Cordeiro também não se encerra no caminho, mas permanece viva em nosso destino final. A visão final em Apocalipse nos mostra o novo céu e a nova terra, e o tabernáculo, a habitação eterna de Deus com os homens, onde o Cordeiro, assentado no trono, é a lâmpada, irradiando a glória de Deus (Ap 21:1-3, 23; 22:3). Isso quer dizer que mesmo na eternidade futura deveremos nos lembrar do Cordeiro, deveremos ver tudo sob a luz dessa memória: Ele morreu em nosso lugar, o justo pelos injustos, a fim de que pudéssemos viver para sempre com Ele.

O Senhor, em contrapartida, decidiu se esquecer de nossos pecados. Em Hebreus, Ele nos diz o seguinte acerca da nova aliança:

“E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Pois, para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei.” (Hb 8:11-12).

Que grande graça! Nós seremos eternamente gratos ao Cordeiro que morreu para nos livrar de nossos pecados. Mas Ele jamais se lembrará de nossas faltas. Honrar essa memória é viver essa aliança. Não é apenas verbalizar o testemunho do que Ele fez por nós, antes, é seguir esse novo caminho. É viver na terra com os olhos no céu. Viver as nossas dificuldades corriqueiras, vencer os sofrimentos diários, desfrutando a certeza de nossa esperança eterna Nele.

A memória do Heróis

E esse caminho maravilhoso já foi trilhado por muitos. No passado muitos obtiveram bom testemunho na jornada da fé. Eles viveram com os olhos no céu, fitos numa pátria superior. Eram homens dos quais o mundo não era digno. Não por que fossem perfeitos. Todo aquele rol de “heróis da fé” em Hebreu 11 é formado de pessoas frágeis, fracas e mortais. Todos pecaram. Mas não foi a presença ou ausência de pecado, a presença ou ausência de imperfeições, que definiu a memória que temos deles. Foi a sua fé. Foi o fato de que, a despeito de suas falhas, eles não se esqueceram do que Deus havia falado. A memória que temos deles é resultado da memória que eles tiveram das promessas de Deus.

Mas o autor de Hebreus nos adverte que, embora tenham obtido tal testemunho, esses heróis não alcançaram a plenitude da promessa, uma vez que existe algo superior a nosso respeito; de forma que, sem nós, eles não sejam completos (Hb 11:39-40). Isto quer dizer que a história dos heróis da fé não está completa, e eles não alcançaram todos os benefícios da promessa porque falta a nossa parte nessa história. Para que eles sejam completos, temos de seguir o exemplo que deixaram.

Temos também a seguinte promessa: “A memória do justo será abençoada;” (Pv 10:7). A memória dos justos deve resultar em bênção. A memória que temos daqueles que nos precederam na fé não se presta ao mero saudosismo. Não serve apenas como tema para “escolinha bíblica”. Precisamos ser encorajados a trilhar o mesmo caminho. Esses heróis só estarão completos quando nós, pelo encorajamento de seu testemunho, também vivermos como eles viveram.

Lembrar uns dos outros

Agora, temos a memória do Cordeiro e a memória dos heróis, aqueles que nos precederam na fé. Precisamos honrar a memória do Cordeiro trilhando o novo e vivo caminho. Precisamos honrar a memória dos heróis, buscando alcançar o mesmo bom testemunho que eles obtiveram, trilhando o caminho da fé. Mas também não podemos ignorar aqueles que estão conosco agora.

No livro de Êxodo, vemos que o Senhor determinou que o sumo sacerdote deveria levar duas pedras sobre as ombreiras do éfode, sobre as quais se inscreveriam os nomes dos filhos de Israel, para memória diante do Senhor (Ex 28:12). Também deveria levar um peitoral, com doze pedras preciosas, esculpidas com os nomes das doze tribos. O Senhor então disse:

“Assim, Arão levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo sobre o seu coração, quando entrar no santuário, pra memória diante do Senhor continuamente” (Ex 28:29).

Portanto, o caminho que Arão percorria, desde as colunas de bronze, na entrada do tabernáculo, até o Santo dos Santos, deveria ser trilhado com essa memória, sobre os ombros e sobre o coração. Desde os aspectos mais básicos do relacionamento com Deus, como a justiça, a redenção, até os aspectos mais profundos, como a glória transformadora do Santíssimo, há um caminho que deve ser trilhado levando os filhos de Deus sobre os ombros e sobre o coração.

Precisamos levar a memória de nossos familiares, nossos filhos, nossos companheiros na jornada da fé, sobre os nossos ombros e sobre o nosso coração. Isto é se responsabilizar uns pelos outros, é amar uns aos outros. E Paulo nos dá um ótimo exemplo do que significa levar o povo de Deus em seu coração, em memória diante do Senhor:

“Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações” (1 Ts 1:2)

“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós” (Rm 1:9)

“Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações:” (Ef 1:16)

A memória que deixamos

Por fim, é interessante considerar que, assim como fomos beneficiados pelo testemunho daqueles que nos precederam na fé, os nossos “heróis particulares”, alguns podem estar, nesse momento, olhando para nós, buscando o encorajamento que falta para que possam entrar pela porta estreita e seguir o caminho apertado da fé.

Minha oração diária é que, assim como tive o exemplo de minha mãe, que foi um testemunho determinante para que eu tomasse o caminho da fé, meus filhos também encontrem em mim um testemunho, um motivo para que escolham amar o Senhor. Oro para que tenham em mim a memória de alguém que ama a Deus sincera e profundamente. Não pretendo fundar a memória de um pai perfeito ou de um cristão perfeito. Não pretendo manter um personagem perfeito pois sei que ele se desfaria em pouco tempo. Oro apenas pela misericórdia de Deus, para que meu testemunho não afaste, mas, pelo contrário, aproxime meus filhos de Deus. Essa é a memória que quero deixar: que vale a pena, que é melhor, é a melhor escolha possível, trilhar o caminho da fé, lembrando-se do Cordeiro, encorajado pelo testemunho daqueles que já trilharam esse caminho, e na companhia de muitos que, como eu, foram conquistados pelo amor de Deus.

Epitáfio

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Recentemente, o Senhor levou minha mãe. Estive com ela naqueles últimos momentos, e pedia, desesperadamente, que o Senhor lhe desse mais tempo. Mas o Senhor disse não, e a levou. E por isso O louvo por Seu amor.

Esse louvor é, por um lado, um exercício. Para que minha fé, minha confiança nesse amor, seja ampliada. Por vezes, é difícil entender as respostas que o Senhor nos dá. Ou entender a maneira como Ele responde. Por isso, senti que seria interessante compartilhar o texto abaixo, que foi o que gostaria de ter lido no velório, e foi o que acabei dizendo aos presentes, embora, dada a emotividade da ocasião, de maneira menos organizada:

————————————————————————————————————

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus.” (1 Co 1:3-4)

Por convicção pessoal, não vejo este ajuntamento como uma forma de honrar minha mãe, de demonstrar-lhe carinho ou afeição. Creio que a oportunidade de honrá-la, de confortá-la e manifestar apreço sessou no dia em que o Senhor a tomou para Si. Nosso ajuntamento é para consolar os que ficam. É para que tenhamos a percepção de que a dor que sentimos, não a sentimos sozinhos. É para chorarmos juntos. É também para atenuarmos a dor com a consolação da esperança que temos em Cristo.

Eu agradeço sinceramente a presença de cada um, e também as muitas manifestações de pesar e apoio que recebemos nesses dias. A presença de cada um aqui, cada palavra de conforto, cada boa lembrança que ouvimos, reafirma nossa consolação de que minha mãe viveu plenamente, de que lutou o bom combate e completou a carreira que lhe estava proposta. Provam que não lhe faltaram dias para cumprir o grande mandamento, de que amemos ao próximo como a nós mesmos.

Essa é a marca, o testemunho da vida de minha mãe. Amou a Deus de todo o seu coração. Gastou-se por seus filhos, por sua família, por seus irmãos na fé, por seus alunos tão especiais. Ela se preocupava sinceramente com todos os que a rodeavam (na última conversa que tivemos, nos últimos minutos que tivemos juntos, ela me pedia que trouxesse roupas de bebê para doar para o jardineiro
que trabalhava em sua casa).

Mas esse amor não era irresponsável, ou vazio. Ela sabia muito bem e ensinou muito bem o significado da justiça, da lei. Aliás, a frase mais célebre da Dona Loide, que ouvi por toda a minha infância foi: “a lei é para aqueles que não vivem pelo Espírito. E pra vocês, eu sou a lei”. Creio que o grande feito, o ápice do testemunho dela, que eu agora invejo, foi que, para cada um de nós, a lei que nos limitava e influenciava exteriormente, foi eficaz para nos guardar e, em algum momento, conduzir à graça, que hoje nos define e move interiormente.

Dar esse testemunho não visa cobrir, evidentemente, as muitas falhas e pecados que, naturalmente, todos os filhos de Adão carregam. Esses foram cobertos pelo grande amor de Deus, manifestado de forma indubitável pelo sacrifício eterno do sangue de Seus Filho, derramado por nós na cruz. “(…) porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pe 4:8).

Diante desse testemunho, meu desejo é que não apenas vejamos uma vencedora, alguém que tem agora a corôa da vida, e nos consolemos com isso. Mas principalmente que possamos aprender com alguém que imitou a Cristo, para que possamos imitá-la e seguirmos com convicção ainda mais firme nossa jornada, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Por isso, peço ao Senhor que as boas lembranças, da forma como ela amava a todos, de como se preocupava com todos, de como acolhia a todos como filhos, se tornem um encorajamento para que façamos o mesmo. Peço que eu também alcance tamanha graça e veja minha filha encontrar o Senhor que tanto amo.

Peço, ainda, que, a despeito de todo o pesar, confirmemos nossa confiança no amor de Deus  e que, arraigados e alicerçados nesse amor, possamos declarar, com sinceridade, as mesmas palavras proferidas por Paulo, nosso irmão na fé, há quase dois mil anos:

“Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor”
(Rm 14:8)

Um ano e pouco de paternidade (2)

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Recentemente escrevi sobre como o nascimento de minha filha me fez ver o amor de Deus com novos olhos. O nascimento dela, desde a gestação, também me fez ver a vida cristã com novos olhos. Minha esposa e eu, pais de primeira viagem, ficamos muito empolgados já nos primeiros dias de gravidez. Fomos logo fazer uma ultrassonografia e, para nossa decepção, não vimos nada. Ou melhor, não vimos nada do que esperávamos: havia apenas um saco gestacional.

Então, considerando a frágil vida humana como um tipo, uma figura, da vida nova, superior e indissolúvel que recebemos como filhos de Deus, entendi que a vida cristã não começa com o cristão: ela começa com o ambiente onde o cristão é gerado. De onde o cristão recebe nutrientes, onde é guardado, preparado. E o Espírito me fez entender que esse “lugar” é Cristo.

pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,”
(Cl 1:16-18)

“aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz”
(Ef 2:15)

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”
(1 Pe 1:3)

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”
(Rm 6:4)

Parece óbvio, mas a dificuldade que temos em praticar, em experimentar, isso mostra que muitas vezes não entendemos que tudo na vida cristã começa em Cristo, que a novidade de vida é resultado de nossa união e proximidade com Ele. O crescimento começa em Cristo. Os frutos do Espírito têm sua origem Nele. A vitória sobre nossas muitas falhas de caráter começa Nele. Mas, mesmo sabendo disso, Cristo continua sendo o último recurso. Como bons cristãos, geralmente nos policiamos em muitos assuntos. Nos exercitamos na busca da piedade, buscamos sabedoria e, quando percebemos que é impossível recorremos a Ele.

Continuando a história da Tirza: Talita e eu, pais empolgados, voltamos na semana seguinte e, para nossa alegria, na segunda ultrassonografia vimos o que viria a ser a Tirza. Naquele momento era um minúsculo coraçãozinho, pulsando freneticamente. Então aprendemos que em torno daquele coraçãozinho um sistema nervoso se desenvolveria, e, com o desenvolvimento do sistema nervoso os outros sistemas se desenvolveriam até que, em torno daquele coração, houvesse uma pessoinha completa.

O escritor de provérbios, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu:

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida
(Pv 4:23)

Ao acompanhar a formação da Tirza passei a ter uma percepção completamente diferente desse versículo. Eu sempre tomava essa passagem como uma orientação no sentido de que meu coração deveria ser enchido daquilo que edifica, daquilo que traz vida. Isso estaria intrinsecamente ligado à orientação de guardar um bom depósito (2 Tm 1:14). Mas não é apenas uma questão de “controlar o acesso” ao coração, de receber apenas coisas boas, edificantes, espirituais. A questão é ter um coração novo, bom, espiritual. O coração é a fonte da vida por que é em torno do coração que se forma o homem, que se forma toda a vida que vivemos. Um homem novo, espiritual, procede de um coração novo, espiritual.

Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.”
(Ez 36:26-27)

“seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus.”
(1 Pe 3:4)

“Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.”
(Rm 2:29)

O coração, evidentemente, tem uma conotação subjetiva. Está relacionado aos desejos mais profundos, aos anseios, às preferências. É em torno dessa identidade mais profunda que se formam nossas convicções. E é dela que partem as decisões que mais impactam nossa vida e a vida daqueles ao nosso redor. A partir do coração formou-se o sistema nervoso da Tirza, e, com o sistema nervoso, tudo aquilo que comporia uma nova pessoa. Assim também, a partir do meu coração desenvolvem-se minha mente, minhas convicções, vontades e escolhas e, consequentemente, meus hábitos. Um coração novo leva imediatamente a uma mente nova, a essa mente a um novo homem com um novo viver. O fruto da renovação do coração é uma vida nova, que experimenta a agradável, boa e perfeita vontade de Deus.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”
(Rm 12:1-2)

Enfim, a maneira miraculosa como a Tirza foi gerada me mostrou que preciso estar em Cristo. Nele, um coração novo é criado. Um coração novo gera um novo homem, habilitado a experimentar a vontade de Deus, pronto para as boas obras, as quais Ele preparou de antemão para andássemos nelas. Quantas lições nessa pequena vida!

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
(Ef 2:10)