Onde buscar?

Written by davieverton on . Posted in Comunhão

“Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la. Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá; ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.”
(Jo 4:15-24)

Parece uma constante entre todos os buscadores de Deus fixar  o lugar onde o encontrar, antes de buscá-lo. Nessa passagem  a mulher samaritana, ao perceber que se encontrava diante de um profeta, toma a oportunidade para sanar de uma vez suas dúvidas quanto ao lugar da adoração: “no monte ou no templo?”. A lógica empreendida pela mulher é simples e certamente reflete a experiência de boa parte dos cristãos. Acha-se o lugar, o grupo certo, o povo escolhido e depois ancora-se nessa certeza geográfica, depositando toda a constância espiritual no lugar, como se Deus habitasse em lugar feito por mãos humanas (At 17:24).

Essas tentativas genuinas, correspondem à expectativa humana de trazer a comunhão com Deus a um campo comum, já que as coisas espirituais são de difícil discernimento aos iniciados na carreira. Assim, na tentativa de apaziguar as dúvidas e incertezas da vida cristã, criam-se parâmetros fixos capazes de garantir o mínimo de estabilidade espiritual, a fim de que ancorada a alma, com todos os seus sentimentos e modo de pensar racional, apazigue-se a consciência.

No curso da história do cristianismo inúmeros movimentos surgiram trazendo algo revolucionário.  A reforma protestante, os irmãos morávios,  os irmãos unidos da inglaterra, o movimento petencostal, a dita restauração, são alguns exemplos dessas tentativas, tão genuinas e puras inicialmente, que inspiraram corações sequiozos por encontrar uma comunhão plena e absoluta com Deus e no entanto, todos esses movimentos perderam gradativamente a força e o vigor inícial, que fugiram, deixando para traz tão somente as formas desertas, e carentes da presença de Deus.

Todavia, não foi em um terreno sólido que Deus plantou sua vida, nem propôs uma carreira baseada em certezas plenas, e deixou isso claro ao falar à mulher samaritana “que não mais no monte, nem no templo, mas em Espírito e em verdade” (Jo 4:23). A proposta de Deus é o Espírito, palavra derivada do radical grego pneuma, que quer dizer sopro, ar ou vento, “que sopra onde quer”, que não pode ser tocado, retido ou sistematizado, mas pode ser ouvido em seus movimentos sempre inovadores (Jo 3:8).

Não resta dúvidas que todos os parâmetros estabelecidos buscavam tão somente estabilizar a comunhão com o Pai, mas o fim dos métodos é sempre a sistematização, assim, quando Deus, que é Vento, soprar em outras direções restará somente a estrutura, e da parte dos que a construiram o apego a ela. Aos que porém optarem somente pelo Espírito e desejam uma comunhão efetiva e o crescimento constante em Deus restará, quanto ao caminho em que se segue, constante incerteza, e uma fraqueza, justificada somente a carta à igreja em Filadélfia, e substituida apenas eventualmente pela suave brisa trazendo o pneuma, a doce presença, para encher os pulmões de vigor e garantir, de forma discreta, uma íntima certeza de que Deus ainda está alí, como que dando um tapinha nas costas e dizendo “segue daí que estamos aqui por perto”, e por isso prosseguimos.

Religião

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão


"Religião (do latim religare, significando religação com o divino) é um conjunto de sistemas culturais e de crenças, além de visões de mundo, que estabelece os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e os valores morais. Muitas religiões têm narrativas, símbolos, tradições e histórias sagradas que se destinam a dar sentido à vida ou explicar a sua origem e do universo. As religiões tendem a derivar a moralidade, a ética, as leis religiosas ou um estilo de vida preferido de suas ideias sobre o cosmos e a natureza humana" - http://pt.wikipedia.org/wiki/Religião

A Bíblia narra o surgimento da primeira religião e, nessa narrativa, exibe claramente a origem do ato religioso e os resultados da religião para o homem e para tudo a sua volta. No Édem, homem e mulher tinham acesso irrestrito a Deus. Mais que acessível, Deus era uma constante em suas vidas. Homem e mulher não apenas podiam falar com Deus, Deus mesmo os buscava para comunhão, diariamente. Eles sabiam que não passariam um dia sequer sem encontrá-Lo. Havia suprimento abundante e o único trabalho consistia em não mudar nada, ou seja, em guardar aquele ambiente para que nada interferisse em tão perfeito estado.

Infelizmente, naquele mais tenebroso dia da história da humanidade, mulher e homem optaram por outra vida. Ao comerem do fruto do conhecimento do bem e do mal, decidiram viver uma realidade completamente diferente. Agora, no tocante ao conhecimento do bem e do mal, eram iguais a Deus. Entretanto, logo perceberam que, quanto à justiça, nunca seriam iguais a Deus. Viram-se nus. E, com o fim de cobrir as suas vergonhas, ou melhor, encobrir sua injustiça, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Eis aí a primeira religião do homem.

Toda religião consiste na mesma atitude: um método, uma fabricação humana, com o fim de transformar o homem, justificá-lo. Essa atitude é sempre impulsionada pela premissa de que, de certo modo, somos quase perfeitos, quase iguais a Deus. O nirvana budista, o homem bom de Confúcio, a obediência islâmica, a propiciação do sacrifício incessante católico, o bom caráter protestante, a instantânea transformação e o poder espiritual dos pentecostais – todos são nomes diferentes para a mesmíssima folha de figueira, a cobertura que o homem, por sua própria ‘excelência’, cose para si mesmo.

O resultado é que o homem e a sua mulher esconderam-se de Deus ao ouvir a Sua voz. Ninguém lhes ensinou a se esconder. Ninguém lhes disse que não poderiam mais ver a Deus. Adão dá a resposta que explica o resultado interior da religião: ‘tive medo, e me escondi’. A religião propõe métodos, exige atividades, garante resultados. Entretanto, no íntimo do homem religioso existe apenas medo. Medo da morte. Medo de não ser aceito. Medo de, na verdade, não ser como Deus. A religião distorce a percepção humana a respeito de Deus, e distorce ainda mais a percepção humana acerca de sua própria condição.

Quanto à companheira de religião, também companheira de pecado, o que havia no homem era apenas acusação. Medo no coração. Acusação aos semelhantes nos lábios. E, em sua consciência, a insuportável distância de Deus. Mas esse ainda não é o quadro completo da vida religiosa.

A mulher, agora em dores,  daria à luz filhos. O desejo da mulher, agora, era para seu marido, e ele a governaria. Que grande ironia para a mulher que escolheu conhecer o bem e mal com o fim de ser igual a Deus – estava, agora, sob seu marido. O homem foi afastado de Deus e agora também precisava laborar na terra, para, do suor de seu rosto, comer o seu pão. A terra se tornou maldita. E a terra maldita se tornou o destino cruel da humanidade: vir do pó, retornar ao pó. Um ciclo estúpido de tirar da terra, com dificuldade, o sustento para uma vida degradada, fadada a esvair-se na mesma terra.

Talvez seja essa a melhor definição de religião: um ciclo estúpido. O ato religioso repetiu-se na próxima geração. Ao fim de uns tempos, trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de Sua oferta não se agradou.

É certo que Caim e Abel ouviram o relato daquele dia tenebroso em que seus pais foram expulsos do jardim. Ouviram acerca do julgamento, das consequências da escolha que fizeram. Ouviram acerca da inutilidade das folhas de figueira e de como seus pais foram cobertos por Deus com a pele de animais. Abel parece ter dado atenção ao relato e imitou Deus no sacrifício de animais. Caim, por sua vez, ignorou completamente a maldição e trouxe do fruto de seu labor na terra maldita, como se, por seu esforço, a maldição se tornasse aceitável. Como se, por seu esforço, ele mesmo se fizesse aceitável.

Abel não inventou nada, e foi considerado justo. Caim, em seu esforço religioso, recebeu apenas a resposta de que o pecado estava à porta, e que era necessário dominá-lo. É evidente que Caim não podia dominar seu ímpeto pecaminoso: matou a seu irmão, mentiu para Deus e se tornou maldito. Mais um ciclo da maldição religiosa se completava. Maldita se tornou a terra, malditos se tornaram Caim e sua descedência.

No princípio, o homem não precisava fazer nada para ter comunhão com Deus. O homem não precisava aprender nada; não precisava provar nada a ninguém; não precisava conquistar, alcançar ou adquirir coisa alguma para ver Deus. Depois da queda, tentou fazer-se digno da presença de Deus fabricando uma cobertura. Tentou tornar-se digno de Deus oferencendo o fruto de seu fatigante esforço. Mas não foi aceito.

Os nomes mudam, as práticas envolvidas também, mas o ímpeto religioso ainda reside em cada ser humano. A religião se reinstala, geração após geração. Se reacomoda a cada cultura. A cada sistema de valores. A cada geração, as palavras de Deus são distorcidas. A percepção acerca de Deus é distorcida. As histórias são mal-contadas. E o erro religioso se perpetua. Quando será que vamos parar de nos esforçar para alcançar Deus? Nossas iniqüidades fazem separação entre nós e Deus, e não há obras que façamos que podem nos justificar (Is 59:2; Gl 2:16). Nenhuma realização, nenhuma conquista, nenhum procedimento nos justificará. Não nos cabe subir ao céu. Não nos cabe reencontrar Deus. Não nos cabe executar a religação entre homens e Deus. Religião é apenas um ciclo estúpido de esforço e maldição.

Não sei se tenho qualquer outra informação útil, ou conclusão, acerca da religião. Mas tenho uma resposta a ela.

A resposta para o vazio, o sentido da vida humana, o caminho de volta… chama-se Emanuel. Deus conosco. Você não encontrará salvação tentando alcançar Deus. Você pode ser salvo pelo Deus que já te alcançou. Que nunca partiu. Que nunca desistiu daquelas afáveis conversas diárias, na viração do dia. Jesus não representa um ideal a ser alcançado. Ele é o testemunho do amor e da presença totalmente amável de Deus. Jesus não estabeleceu a prática correta. Ele é a pessoa de quem precisamos. A pessoa de quem sempre precisamos. A pessoa que sempre esteve próxima, até mesmo no coração, sondando cada um, inquietando cada um com a inigualável sede por Deus.

A religião continuará a te dizer “faça”. Jesus é. Hoje Ele me disse: “Eu sou”. Eu cri. Fui salvo por aquilo que Ele é. Percebi que não precisaria fazer mais nada. Não escrevi esse texto para estar mais perto Dele. Só escrevi para extravasar minha indignação com a maldita religião. A religião que por tanto anos exigiu que fizesse muitas coisas, mas nunca  me deu Jesus. A religião que por tantos anos me fez pensar em que fazer, como fazer. Mas Jesus continua comigo, e continuará aqui, comigo, até a consumação do século. Agora, toda a questão se resume em “quem”. Quero prestar atenção em Jesus. Ele mesmo se deu a mim. Eu cri. Recebi. Chega de fazer. Quero desfrutar.

 

As armas e a guerra

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Li, ontem, no jornal de maior circulação no Quênia, uma crítica à maneira de fazer guerra do país. Um cidadão queniano comparava o estilo de exércitos vizinhos, que considera bem sucedidos. Ele citou a ‘aderência’, por parte do exército de seu país, a uma ‘consciência internacional’, que, segundo ele, gera um relacionamento subserviente em relação à opinião pública, materializada nos meios de comunicação, especialmente internacionais.

Ele citou, como contrapartida, o exército de Uganda, que derrotou, sem jamais prestar quaisquer informações à mídia, e expulsou ditadores extremamente temidos, como Idi Amin Dada, em Uganda, e também ajudou a formar a República Democrática Congo, ao expulsar o cruel Mobuto, que a chamava de Zaire. Depois, citou o exército de Ruanda, a única força militar que realmente interviu, e teve sucesso em interromper o genocídio da etnia Tutsi, um massacre comprovadamente organizado e patrocinado por forças internacionais muito mais poderosas e, à época, diluído pela mídia internacional como pequeno conflito étnico.

Esses dois exércitos têm entre as características comuns sua origem “não-oficial”, miliciana. Sua motivação, digamos, muito mais passional e ideológica que profissional. Formaram-se num movimento de luta por liberdade ou, simplesmente pela preservação de sua etnia. Também comungam de uma tática hoje considerada obsoleta e ineficiente: esses exércitos caminham até seu objetivo. E, até mesmo por isso, geralmente trazem consigo pouco equipamento e mantimento.

Foi assim que o exército de Uganda caminhou 1600 km até Kinshasa, onde derrotaram Mobuto. Foi assim que o exército de Ruanda circundou todo o país e desarticulou todas as tropas organizadas do antigo regime, inclusive os batalhões franceses que as apoiavam. Foi assim que, ao chegar a Kinshasa, o exército de Uganda já havia dizimado todos os focos de resistência no caminho. Já havia conquistado a aderência de voluntários locais, e o apoio logístico de uma boa parcela da população.

A esta altura, você, como um bom cristão, deve estar se perguntando qual seria o seu interesse em assuntos assim, tão mundanos e sangrentos. Bem, o Senhor nos aconselhou a aprender algo com respeito à administração de recursos realizada pelos filhos desse século, “porque os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16:8). Em especial, o Senhor queria nos ajudar a fazer bom uso das nossas riquezas materiais.

“E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito”. (v. 9-10)

É claro que, em se tratando de riquezas materiais, seria mais óbvio olhar para os banqueiros de Wall Street. Eles têm muito, e terão ainda mais. Mas eu creio que, para nosso aperfeiçoamento na carreira cristã, deve ser mais interessante olhar para esses exércitos e aprender o que eles fazem das riquezas que têm – ou melhor, não têm. Digo, eles têm pouco, mas realizam muito.

O que a parábola do administrador infiel, em Lucas 12, nos mostra é que, na verdade, todos nós somos administradores infiéis, por natureza. Todos nós precisamos de certo “empurrãozinho”, a iminência do julgamento, para buscar ajustar nossas contas. Aquele administrador infiel usou de riquezas que não eram suas a fim de garantir seu futuro. E, não se engane, foi louvado por isso. Não digo que sejamos todos desorganizados e ineficientes quanto a padrões humanos. O que quero mostrar é que nossa natureza infiel tende a confundir o que realmente vem de nós, e aquilo que não vem de nós. Não só confundimos a origem, como também a natureza das coisas. E o resultado é reprovação.

A fonte de nossos recursos

O exército queniano, de acordo com dados apresentados naquela reportagem, recebe enormes aportes internacionais. Mas, por outro lado, está envolvido numa guerra de interesse muito mais ‘internacional’ que nacional. Estão na Somália lutando contra uma organização acusada de ataques em território queniano, especialmente seqüestros e furtos. O exército queniano mantém uma campanha coordenada com auxílio de consultores internacionais, claramente apresentada à mídia por meio de coletivas de imprensa diárias. Financiado por agentes externos, influenciado por agentes externos, agindo em favor de interesses externos, vigiado por olhos externos.

Uganda e Ruanda têm de conseguir no próprio campo de batalha, geralmente por aprovação popular, os recursos de que precisam em seu caminho. Quênia recebe os recursos de agentes estranhos ao campo de batalha. Uganda e Ruanda são recebidos como parte do povo e representantes da vontade popular. Quênia é criticado como mero fantoche. A fonte dos recursos parece invadir a vontade e, talvez, até mesmo a identidade de seu recipiente.

Quênia, em sua abundância, nos mostra o significado da escravidão de alguém que olha sempre para outro, a fim de receber suprimento. Uganda e Ruanda são um exemplo de como a provisão e os recursos para batalha podem vir do próprio objeto de nossa defesa. Se defendemos a verdade, nossa provisão e armas vêm, necessariamente, da verdade. Se sua percepção e conhecimento da verdade vêm, majoritariamente, de outra pessoa, de um bom ministro, você pode declarar-se realmente livre? Se todos os caminhos para sua prática cristã foram apontados por um único ministro, você é realmente livre?

Há também o perigo de acreditarmos que temos direito sobre aquilo que recebemos, e, é nesse caso que combatentes apoiados pela população passam, rapidamente, a algozes de seus defensores. Veja o caso de Qadaffi, na Líbia, ascenso ao poder numa revolta popular, libertária, fez-se, ele mesmo, ditador. E não é estranho que tenha sido deposto pela mesma via.

Isso me fez considerar a origem do que tenho em mãos. Depois de três anos longe de meu país e de meu emprego, tenho aprendido uma coisa: tudo o que tenho, é por que recebi. Nada do que tenho é realmente meu. O Senhor nos fez passar, minha esposa e eu, todo esse tempo sem que realmente tivéssemos necessidade de nada [embora, vez ou outra, eu tivesse achado que nos faltava algo, a verdade é que não faltou nada do que precisássemos].

“O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23:1)

Houve um tempo em que eu recebia, para padrões brasileiros, um salário mais do que suficiente para minhas necessidades. Algumas vezes, naquele período, tive certeza de que merecia aquilo, e ainda mais. A verdade é que nem o pão, nem mesmo o ar que respiro, nada foi conquistado, merecido, como se viesse de minha própria capacidade. Tudo veio do cuidado amoroso de Deus. Deus seja louvado!

O maior problema é que, sempre que fui a origem de meus recursos, fui também o alvo. Quando o que temos é nosso, é também para nós. Nossa infidelidade, geralmente, não consiste apenas em servir da maneira errada, mas em servir a pessoa errada. Temos muitas coisas ‘nossas’ e, conseqüentemente, servimos muito a nós mesmos. Meus bens. Minhas convicções. Minha doutrina. Minha prática. Meu grupo. Meu líder. Minha identidade.

Tenho visto pessoas defendendo um ‘ungido’ de Deus, e, por algum tempo pensava que prestavam adoração subserviente ao líder em sincera abnegação. Mas, observando com mais atenção é impossível não perceber que defender o líder é, na verdade, defender a si mesmo. Servir o líder humano, atribuindo-lhe infalibilidade divina, é servir à sua própria convicção de infalibilidade. É servir a si mesmo. O seguidor projeta no líder a convicção que tem a respeito de si mesmo, e exalta o líder para exaltar a si mesmo. Foi por isso que o Senhor não aceitou ser chamado ‘bom mestre’: para que o discípulo não permanecesse no erro de julgar-se bom (Mc 10:17; Lc 18:18-19).

Vejo que é necessário recordar-me, constantemente, de que meu redentor é também meu Senhor e minha única fonte. Tudo subsiste Nele. Essa é a única maneira de servir somente a Ele, e não a mim mesmo.

“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” (Cl 1:13-17)

A natureza de nossas armas

Agora, é interessante perceber que as riquezas materiais não constituem, de acordo com a sã doutrina dos apóstolos, os recursos de que dispomos em nossa batalha. “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10:4-5).

Riquezas materiais e armas espirituais realmente não se misturam. São de naturezas diferentes. Isso é ainda mais evidente quando nos lembramos de que o Senhor se referia à riqueza da terra como “riquezas de origem iníqua”. A questão é que o administrador é o mesmo. E quem é injusto no pouco, é também no muito. Quem é infiel naquilo que não é importante, é também naquilo que importa.

Da mesma maneira com que nos enganamos quanto à fonte dos recursos de que dispomos [nos julgando, na maioria das vezes, merecedores do fruto de nosso próprio esforço e qualificação], também erramos agindo, ainda que inconscientemente, como se a graça e a luz de que desfrutamos fossem fruto de nossa própria justiça ou fidelidade. Essa confusão também se explica, em certa medida, pela falta de percepção da natureza de nossas armas espirituais. Como podem armas espirituais advirem da capacidade natural, terrena, de quem as detém? Como pode a graça decorrer de obras, se ninguém pode sequer ser justificado por suas obras (Rm 3:28; Gl 2:16; Gl 3:11)? Como podemos derivar a certeza de que seremos aprovados, vencedores, do fato de aderirmos a uma prática ou de suportarmos um ministério particular? Não seria isso graça advindo de obra?

Em outro trecho, a Palavra se refere ao poder de Deus sendo manifestado nas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas (2 Co 6:7). Mais uma vez, o poder é de Deus, e as armas provêm da justiça. E, certamente, não temos justiça em nós mesmos, senão o próprio “Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Co 1:30-31).

De maneira mais específica ainda, sabemos que temos, entre os itens de nossa armadura, a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6:17). Essa espada é “viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4:12).

Segundo o versículo citado acima, a eficácia de nossa atuação no mundo advém inteiramente da Palavra. Ela é viva e eficaz, e permanece para sempre (1 Pe 1:23). Nosso impacto como sal da terra, depende do sal da Palavra (Cl 4:6). O poder de multiplicação, qualquer que seja, advém da semente e não de quem planta, nem de quem rega, nem de como o fazem (1 Co 3:6-7; Tg 1:18; Fp 1:15-18).

“De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:7)

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18)

“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade (…) Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei”. (Fp 1:15, 18)

 

O objetivo de nossa luta

Ora, se os resultados dependem apenas da Palavra, por que lutar, então? A Palavra tem em si poder para crescer e multiplicar-se (Is 55:11; At 6:7; 12:24), por que, então, labutamos? Lutamos pela defesa dessa mesma Palavra. Não por que não tenha poder em si mesma, mas para que seja recebida como de fato é. Não lutamos pela pureza da Palavra, mas sim contra a impureza dos canais pelos quais é transmitida (Fp 1:7, 16).

Estou incumbido da defesa do evangelho (Fp 1:16). Você também. Temos o mesmo combate (Fp 1:30). Esse é o bom combate da fé (1 Tm 6:18). Nossa tarefa, como bons soldados, é nos firmarmos nas profecias de que antecipadamente fomos objeto, não nos envolvendo nos negócios dessa vida, antes, procurando satisfazer apenas Àquele que nos arregimentou (1 Tm 1:18; 2 Tm 2:3-4). O encorajamento a nos firmarmos nas promessas mostra nossa tendência natural de nos afastarmos delas. Lutamos, portanto, primeiramente, contra as fortalezas em nossa própria mente, contra as mentiras, que, por bem contadas, parecem-nos a verdade. Lutamos contra a tradição, contra a hipocrisia, isto é, contra os substitutos da Palavra, os substitutos de Cristo.

“Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo:  Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15:5-9)

Nossa estratégia

Note que os verdadeiros inimigos da Palavra são interiores, portanto, a estratégia para derrotá-los deve tocar nosso interior. É certo que há perseguições exteriores. Sei disso muito bem, especialmente depois de passar alguns anos em um país em que a mera circulação com material evangelístico é criminalizada. Mas, confesso: limitações exteriores nunca constituíram inimigos reais. O medo da morte pode ser um inimigo, mas a morte não tem qualquer poder sobre nós (Sl 49:15; Hb 2:14). Auto-preservação pode ser um inimigo, apesar do fogo dos sofrimentos ser, necessariamente, para nosso bem (Mt 5:10; Rm 8:28; 1 Pe 1:7; 4:12).  O medo da incerteza pode ser um inimigo, mas é apenas quando não sabemos para onde ir que o vento do Espírito Santo enche nosso peito, e nos leva para onde quer. Parece paradoxal, mas, nos firmarmos nas promessas é inteiramente um assunto de nos desapegarmos de nossa própria solidez – é abandonar o barco para ir ter com o Senhor sobre as águas.

“Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3:7-8)

Mas, talvez, auto-afirmação seja o maior inimigo. Veja, nossa liberdade está intimamente ligada ao nosso arbítrio, à maneira com que julgamos. É nosso arbítrio que é livre. Ao usá-lo, a Bíblia nos instrui a julgar todas as coisas. Mas nos adverte a não julgar pessoas, pois, pela mesma medida com que julgamos, também seremos julgados. Devemos julgar todas as coisas usando a Palavra, dividindo pensamentos e propósitos do coração. Assim podemos ser aprovados, não tendo nada do que nos envergonhar (2 Tm 2:15). Na prática, porém, fazemos exatamente o inverso: julgamos pessoas e ‘engolimos’ qualquer coisa proveniente daqueles previamente julgados como ‘bons mestres’. Nossa insistência em atribuir bondade aos nossos eleitos, como já ponderei, é, em última instância, auto-afirmação.

“julgai todas as coisas, retende o que é bom;” (1 Ts 5:21)

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7:1-2)

“Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Co 2:15)

Recorde que o apóstolo insta para que a igreja julgue o que ele fala, apesar de ter certeza de que ele mesmo não deve ser julgado, nem julga a si mesmo, pois a responsabilidade para julgar pessoas está inteiramente sobre o Senhor.

 “Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo” (1 Co 10:15)

“Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo. Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor” (1 Co 4:3-4)

Nossa liberdade e nobreza consistem em conferir coisas espirituais com espirituais (1 Co 2:13). Examinando, com avidez, as escrituras para ver como as coisas, de fato, são (At 17:11). Por favor, não confunda isso com legalismo ou tradicionalismo. A diferença essencial, devo lembrar, está na fonte: por que a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1:17). O vento, o mover, do Espírito Santo certamente está nas Escrituras, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:21).

E é com nossa real liberdade em Cristo que lutamos pela verdade do evangelho. Contra toda confusão. Contra as coisas indevidamente não julgadas. Não julgando a ninguém, apesar de julgar tudo. Lutamos para, de algum modo, sermos cooperadores da verdade, na defesa e confirmação do evangelho, e, na verdade, desfrutarmos a nossa paz (Jo 8:36; 1 Co 9:13; Cl 3:5; Fp 1:5, 7; 3 Jo 1:18; ).

 “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36)

“Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele” (1 Co 9:13)

“Pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.  Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo” (Fp 1:5, 7)

“Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos” (Cl 3:5)

“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4:7)