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A igreja só existe quando não tem jeito de existir

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Hoje um amado irmão, pouco mais jovem que eu, perguntou-me se deveria fazer parte de uma chapa concorrendo à diretoria de sua denominação. Ele estava preocupado com o fato de ser o mais jovem naquele grupo. Estava preocupado com o fato de que, certamente, haveria problemas e desentendimentos futuros, e ele teria de se expressar e argumentar com pessoas mais velhas e mais respeitadas que ele. Ele queria saber se, estando certo de que algo era o melhor para os irmãos, poderia, com consciência limpa, lutar por sua opinião.

Eu não fui capaz de responder a essas questões, na verdade, nem tive tempo de tentar. Perguntei-lhe qual era a função dessa diretoria. Ao que me respondeu: “governar a igreja”. Era o que precisávamos para mudar completamente a direção da conversa e ler várias passagens bíblicas. Saímos da esfera da opinião pessoal acerca de um assunto (lutar por sua opinião) e fomos procurar o que a Bíblia diz a respeito de outro assunto (o governo da igreja).

Lemos Mateus 18, a respeito da esfera prática da igreja e da necessidade de haver testemunhas que se disponham a resolver os problemas dos irmãos. Lemos Atos 20, quando o apostolo Paulo se dirige aos presbíteros de Éfeso como bispos, mostrando que uma palavra (presbítero) se refere à pessoa e a outra (bispo) à sua função. Vimos ali como os presbíteros, ou bispos, são constituídos pelo Espírito a fim de pastorear o rebanho de Deus, apegando-se à Palavra, que tem poder para edificar e dar herança entre os que são santificados. Lemos as características que o Senhor espera encontrar naqueles que são presbíteros, em 1 Timóteo 3 e em Tito 1. Vimos a exortação de Pedro em 1 Pedro 5, para que os presbíteros, como ele mesmo, pastoreassem a igreja voluntariamente, sem ganância, não como dominadores, mas como modelos do rebanho.

Por fim, perguntei-lhe de que forma um processo eleitoral de uma diretoria se encaixava nos textos que acabáramos de ler. Ele me respondeu que, na verdade, aquele não era o caminho que a Bíblia apresentava. Então lhe perguntei com que palavras ele se dirigiria a Deus, em oração, pedindo-Lhe bênção para trilhar um caminho que a Bíblia não aponta.

Emudecimento.

De certa forma, o irmão saiu entristecido da conversa. Na atual conjuntura, ele vê a diretoria como um mal necessário. Não está na Bíblia, mas é a única maneira de manter um registro perante as autoridades, de administrar um prédio, uma tesouraria, de contratar e supervisionar o trabalho de um pastor e uma série de outras questões práticas. Na verdade, a maioria dessas atividades não encontra qualquer base na revelação neotestamentária. Mas, como ter uma igreja sem essas coisas?

A igreja verdadeira não precisa de nenhuma “coisa” para existir. A igreja não é aquela associação civil detentora de um estatuto e de um imóvel. Muito menos seria o simples imóvel. A igreja é muito maior. A igreja é o novo homem coletivo, criado em Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (Ef 4:21). É a família de Deus, o corpo de Cristo, a obra prima de Deus. É a universal assembléia dos primogênitos de Deus (Hb 12:23).

Esse é um grande teste para nossa fé. Se nos fixarmos na idéia de que é necessário reunir um grupo com regularidade litúrgica, usar um imóvel grande e adequado para a realização de uma determinada liturgia, para que haja igreja; se acharmos que é preciso dinheiro e organização para que haja igreja, para que haja a vida da igreja; realmente precisaremos “engolir” uma porção de “males necessários”. Uma porção de coisas e práticas que vão contra a vontade de Deus revelada na Bíblia. Mas, se simplesmente crermos em Deus e confiarmos em sua Palavra, estaremos livres de todas essas preocupações.

O princípio da manifestação de Deus no Novo Testamento é que, quando somos fracos, então é que somos fortes. Por que o Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12:9-10). Quando não sou capaz, Ele se mostra capaz. Quando não tenho a solução para a existência da igreja, então Deus a traz à existência por Sua Palavra. “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11:3). A igreja só será visível e verdadeira se vier a existir, subsistir e persistir, à partir daquilo que não aparece. A igreja é fruto do trabalhar de Deus em nós. Ele criou o universo, cumpriu a redenção, gerou fé em nós. É Deus quem fará tudo e em todos. A igreja não é fruto de nossas boas ações, nem subsiste baseada em bens, contratos e boas soluções para os problemas práticos.

Se a igreja que você conhece é fruto da manutenção de uma ordem, de uma tradição, então você ainda não viu a igreja que Deus vê. Se você liga a continuidade ou o sucesso da igreja ao falar de algum profeta, ou grupo específico de profetas, então, você é parte da igreja deles. A igreja de Deus só depende de Deus. Nela, Deus é insubstituível. Na igreja verdadeira, Deus é o único infalível, o único em que nos fiamos e a quem seguimos ‘cegamente’ – embora Ele sempre nos revele o que irá fazer, quando o seguimos (Am 3:7).

A igreja verdadeira só existe em nossa experiência quando a igreja aparente, criada pelo esforço e capacidade humanos, deixa de existir. É um preço alto, levando em consideração os anos de tradicionalismo e conformismo que nos formam, que formam nosso caráter. Mas é uma decisão maravilhosa: confiar em Deus, e permitir-Lhe trazer à existência, em nós, a igreja que Ele tanto desejou, e por quem a Si mesmo Se entregou (Ef 5:25).