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O conteúdo da fé

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

Nos últimos meses tenho visitado várias igrejas no leste africano. Infelizmente, devo relatar que, de certa forma, as igrejas tem sido incomodadas pela interferência de irmãos [e igrejas] do Brasil, e de seus ‘enviados’ – cujo objetivo é defender um ministério particular. Esses enviados têm acesso a um volume de recursos bastante expressivo, e defendem ser isso prova incontestável da ‘bênção’ divina sobre ‘o ungido’ [forma como se referem ao ministro a quem defendem] e sobre aqueles que guardam a ‘unidade’ [forma como se referem aos seguidores daquele ministro em particular].

Não duvido que quaisquer irmãos sejam abençoados. Afinal, Deus faz chover sobre justos e injustos. Por que não abençoaria Seus filhos? Nem duvido que os recursos materiais de que dispõem são bênçãos provindas da misericórdia e cuidado de Deus para com seus filhos (Mt 5:45; 7:11). Só não creio que o amor de Deus possa ser usado como prova, contra o próprio Deus, de que Ele tenha estabelecido, ou permitido a existência de, um intermediário entre Ele e Seus Filhos, um ‘ungido’, a quem Seus filhos devem obediência para que possam satisfazê-Lo. Afinal, Ele mesmo se deu a fim de abrir-nos um [único] novo e vivo caminho, através do Filho (2 Co 5:18-19; Hb 10:20; 13:12). Jesus derrubou a parede de separação que havia entre nós e o Pai, e tornou-se nosso único mediador (Ef 2:14-16, 18; 1 Tm 2:5; Hb 8:6; 9:15; 12:24).

 “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2:5).

“porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2:18).

Outra coisa importante é lembrar que, algumas vezes, a ‘chuva’ de bênção vem para testar nossos fundamentos (Mt 7:24-27). Se estivermos sobre a rocha, a chuva apenas manifestará a firmeza e estabilidade de nossa fé, as raízes que lançamos naquilo que é invisível.

A verdade vos libertará

Foi justamente essa chuva, esse volume de recursos financeiros, que levou uma igreja a nos escrever relatando as duas visitas que haviam recebido de um mesmo obreiro brasileiro e que, em suas palavras, havia um ‘evangelho da prosperidade’ que não poderiam aceitar. Mais tarde, também disseram que perceberam que o objetivo da assistência oferecida era restringir a liberdade dos santos. Segundo o relato desses irmãos, o obreiro brasileiro repetiu, por diversas vezes: “Não discuta. Negue a vida da alma. Não argumente – apenas diga de que precisa, e nós tomaremos conta. Haverá ofertas vindo do Brasil para te ajudar.”

Aquela igreja não recebia qualquer visita há algum tempo. Pouco tempo depois, pela misericórdia do Senhor, surgiu uma oportunidade para visitarmos tais irmãos. Graças ao Senhor, estavam bem e encorajados a prosseguir conhecendo ao Senhor. Durante a comunhão, nós recebemos uma luz do Senhor: foi a verdade que os libertou, e foi a verdade que os manteve livres. Eles entenderam que, por perceberem algo estranho na mensagem, foram guardados de se lançarem numa prisão: pois, uma vez que recebessem ‘ofertas’ desse grupo, se fariam obrigados a jurar subserviência ao líder do grupo [um tipo moderno de escravidão – comércio de almas – que tem sido praticado na África].

A partir de então, passamos a ter comunhão acerca da verdade. Especialmente quanto à importância de conhecer a verdade, a fim de que ninguém espreite nossa liberdade.

 “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32)

“E isto por causa dos falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão; aos quais nem ainda por uma hora nos submetemos, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gl 2:4-5)

Depois, voltando para casa, gastei algum tempo me debruçando sobre a questão da verdade. Ora, a fim de defender a verdade, e de nos firmarmos nela, precisamos, primeiramente, conhecê-la. Precisamos, pelo menos, conhecer quais são os pilares da verdade, nos quais cremos, nos quais nos apoiamos, e dos quais não aceitaremos, nem por um minuto, que alguém nos desvie. Também percebi que a verdade do evangelho é, de fato, a nossa fé. Finalmente, considerei que é necessário que a verdade do evangelho permaneça em nós, não só para que nos mantenhamos livres, mas, principalmente, para que possamos desfrutar plenamente a salvação de Deus.

Eu não negaria o fato de que foi exatamente disso que trataram os concílios cristãos do passado, que consolidaram e promulgaram os credos [tais como o credo apostólico ou o credo de Nicéia] dos quais, hoje, lança mão a grande maioria de nossos amados irmãos. Também não discutiria a pureza, a clareza e genuinidade daqueles irmãos do passado. Só me guardaria de me apegar, tão rapidamente, aos credos que formularam e, assim, simplificar esse texto, por conta dos expedientes de que se utilizaram. Por exemplo, a premissa de que ‘bispos’ guardavam a verdade e de que falavam por toda a igreja [em outro texto, acerca da base da igreja, já argumentei acerca dos corolários dessa tese – o pior deles sendo a infalibilidade papal]. Outro ponto a se recordar é que os concílios, especialmente os últimos, bem como os credos por eles promulgados, tinham por objetivo principal refutar e corrigir doutrinas que, à época, causavam distúrbio e divisão, não apenas entre os cristãos, mas também no império que, pouco a pouco, se confundia com a igreja. O objetivo principal não era ensinar ou definir a fé, antes, era identificar, refutar e, em última instância, punir os dissidentes, os portadores da ‘não-fé’.

Por isso prefiro lançar mão do ensinamento dos apóstolos, e do registro de sua defesa da fé, que, pela autoridade do Espírito Santo, se tornaram parte das sagradas escrituras (2 Pe 3:16). O apóstolo Paulo, por exemplo, passou por experiências semelhantes [de confusão causada por pessoas perturbando a liberdade das igrejas] e, ao fim de seu ministério, passou a enfatizar, com grande esforço e propriedade, a defesa e a confirmação do evangelho – o bom combate, o combate pela fé (Fp 1:7; Ef 6:19; 1 Tm 6:12; 2 Tm 4:7).

Paulo não combatia por uma definição etérea da fé ou por um capricho puramente doutrinário, deslocado da realidade. Ele combatia em favor da felicidade e progresso dos santos, pois percebia que essa fé, que lutava para proteger, e que fora entregue aos santos, de uma só vez, produz uma salvação que é comum (Cl 1:24; Fp 1:25; Jd 1:3). É em favor dessa salvação, para que tal salvação avance e cresça, que precisamos combater diligentemente pela fé. É claro que esse tipo de convocação ao combate pode ser mal interpretada, num primeiro instante, como um incentivo à discussão, à auto-afirmação, à infantilidade. Mas, em realidade, o maior combate se trava em nossa própria mente. Contra os sofismas, as mentiras bem contadas, que deformam nossa fé e entulham a fonte de nossa vida espiritual (2 Co 10:4; Hb 10:38; Rm 1:17; Gl 2:20; Hb 2:2-4).

 “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1:3).

“visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1:17).

“Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2:2-3).

Nossa salvação é produzida pela fé que foi pré-anunciada pelos profetas, depois manifestada pelo próprio Senhor, e, finalmente, pregada pelos apóstolos – testemunhas que Ele separou para esse propósito específico (At 10:40-43; Ef 3:1-4). Portanto, não podemos negligenciar tão grande salvação. Não podemos negligenciar a fé do Senhor Jesus, confirmada na pregação dos apóstolos e pré-anunciada nas palavras dos profetas (Rm 1:1-3; Rm 3:21; Gl 3:8-9).

 “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3:8-9)

São muitos os que hoje argumentam que o conhecimento não é importante, ou que é melhor sentir-se “cheio de vida” a gastar tempo buscando ou mesmo combatendo pela doutrina dos apóstolos. Essa posição, agora, me parece hipócrita, ou, no mínimo, contraditória, uma vez que o ensinamento dos apóstolos nos trás a fé na qual somos abençoados e ganhamos vida. Ou seja, sem conhecer o evangelho de nossa salvação, não temos fé nem vida. Portanto, os que argumentam pela vida, em detrimento do conhecimento, na verdade, argumentam contra a própria vida (Mt 22:29; Mc 12:24; 1 Tm 2:3-4; Tt 1:1). E foi em favor da vida, da graça de salvação, que os apóstolos, em muitas ocasiões, não apenas ensinaram a verdade do evangelho como também contenderam por ela (At 5:28-32; 11:1-17; At 15:1-11).

 “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2:3-4)

“Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão” (At 15:1-2)

“Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” (Mc 12:24)

O que é a fé

Agora, é interessante notar que ao falar sobre a fé os apóstolos utilizam duas acepções. A primeira equivale à definição de uma faculdade, uma capacidade. A fé é a faculdade de substantificar as coisas espirituais, de assegurar-se daquilo que não pode ser visto. Essa fé também é descrita como “o espírito da fé”, mostrando que realmente a fé é uma faculdade espiritual (Hb 4:2; 5:14; 11:1-3; 1 Co 12:9; 2 Co 4:13; 2 Ts 1:4). Creio que a questão mais importante relacionada a essa acepção da fé é que há uma diferença entre aquilo que conhecemos e aquilo em que já chegamos a crer. Há uma diferença entre entender e crer, que é diretamente relacionada à diferença entre as faculdades mentais [entender, recordar, etc.] e a faculdade espiritual da fé [crer]. Essa diferença pode ser vista na descrição que Paulo apresenta em Romanos 10, de como a fé é gerada em nós. A Palavra estava perto de nós, na nossa boca e no nosso coração [indicando que já havíamos ouvido e entendido a Palavra], e depois cremos (Dt 30:12-14; Rm 10:8-10, 17).

 “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11:1)

Depois, prestando atenção em versículos como At 3:16; 8:13; Rm 1:12, 3:25; 12:3; 2 Co 13:5; Gl 3:5, 9, 23; Ef 4:5; Fp 3:9; Cl 1:23; 2:7; 2 Ts 3:2; 1 Tm 1:4, 19; 3:9; 5:8; 6:10-11; 2 Tm 2:22; 4:7; Tt 1:4; 1 Pe 5:9; 2 Pe 1:1; 1 Jo 1:4 e Jd 1:3, percebemos que existe uma fé [em todos esses trechos precedida, no original, pelo artigo definido, formando a expressão ‘A Fé’] que é comum, mútua, que o próprio Deus repartiu, entregue de uma só vez a todos. Essa “fé-herança” é o conteúdo a ser recebido por aquela “fé-faculdade”.

 “isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha” (Rm 1:12)

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (12:3)

Essa fé-herança, a fé que o Senhor Jesus nos entregou, portanto, não depende de um processo histórico, não pode ser atrelada a um grupo específico, não pode ser restringida aos defensores de uma prática específica, aos seguidores de um ministro específico, ou de um aspecto específico da verdade [em resumo, não têm nada a ver com o tal mover atual de Deus, nem a base da unidade… nada dessa natureza]. Pois foi entregue de uma só vez; por que pertence a todos; por que prescinde de quaisquer outras condições, senão a própria regeneração. O conteúdo dessa fé comum é o que deve ser defendido. A aquilo a que nos apegamos. Outros ensinamentos bíblicos podem ser úteis, mas não são motivo de combate, pois não geram, diretamente, a fé e a salvação.

Bom, a fé que recebemos veio pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (Rm 10:17). Se sua Bíblia tem letras vermelhas, vai ser mais fácil perceber quais palavras Deus está falando diretamente, as palavras pelas quais combatemos. É claro que toda a escritura foi inspirada por Deus, e é útil para ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2 Tm 3:16). Mas é preciso perceber que nem todas as palavras nas sagradas escrituras expressam, diretamente, a verdade do evangelho em que cremos, ou o conteúdo da fé que gera nossa salvação. Algumas passagens estão lá para nos ajudar a entender a verdade, ou, até mesmo, para dar-nos exemplos da desobediência à verdade, e suas conseqüências (1 Co 10:11; Rm 15:4; 16:26; Hb 4:1-12; 2 Pe 2:6).

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3:16)

“Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1 Co 10:11)

“Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:11)

Note que não é minha intenção desacreditar ou diminuir a importância de qualquer porção da Bíblia. Jamais podemos duvidar da autoridade de qualquer porção das Escrituras (2 Pe 3:16). Todos os livros, do Antigo e do Novo Testamento, devem ser respeitados como, e de fato são, a Palavra de Deus (1 Ts 2:23; Pe 1:21). O que quero dizer é que toda a escritura aponta para algo, e todos os livros [a despeito da vasta diversidade de autores, de estilos literários, de contextos históricos e de conteúdo] são costurados por uma tese única, uma mensagem única, que precisa ser encontrada (Jo 5:39). Precisamos examinar as escrituras a fim de ‘garimpar’ essa mensagem. E é essa mensagem essencial que constitui nossa fé. É possível encontrar outras mensagens e outras utilidades para as escrituras. Alguém pode utilizar-se de trechos que se adéqüem à psicologia motivacional. Pode encontrar aconselhamento matrimonial. Técnicas pedagógicas. Pode encontrar princípios de administração financeira, teoria política, filosofia do direito e muitos outros ensinamentos práticos e úteis num contexto completamente diverso da fé. Alguém pode, até mesmo, usar alguns trechos de maneira desconexa para justificar uma atitude que vai contra o ensinamentos da própria Bíblia. Por isso é importante buscar e examinar as escrituras a fim de encontrar nelas a verdade e crer.

Jesus Cristo e Sua obra

Então, qual é a tese das escrituras? Quais são os predicados dessa tese, ou melhor, as verdades que compõem a nossa fé? Creio que a maioria de nós já ouviu que a fé se relaciona à nossa salvação e esse conceito encontra boa base bíblica (Ef 1:13; 2 Ts 2:10; Tg 1:18; 2 Jo 1:2-3). De acordo com essa percepção, nossa fé se baseia no evangelho da nossa salvação. Ou seja, nossa fé é composta pela verdade do evangelho (Gl 2:5, 14; Cl 1:15, 23). E, de acordo com o registro e o ensinamento das escrituras, o evangelho é o testemunho que se refere à pessoa e à obra de Cristo, e do qual depende nossa salvação (Rm 1:1-4).

 “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa”  (Ef 1:13)

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18)

“se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1:23)

De fato, o Senhor Jesus é a verdade (Jo 14:6). As escrituras testificam dele, e todos os profetas pré-anunciaram Sua obra (Jo 5:39; At 3:18-21; 10:43; 26:22-23; Rm 1:2; Ef 3:5; 1 Pe 1:10; 3:2). Ganhar vida eterna, encontrar o conteúdo verdadeiro das escrituras, é, sem dúvida, uma questão de achar Cristo, de ouvir o que o Pai nos fala pelo Filho (Ef 1:10; Cl 1:17, 19; 2:17; Hb 1:1-2). Daí derivamos a certeza de que a verdade acerca da pessoa de Jesus [Sua divindade; Sua natureza humana; Sua posição no trono, nas alturas; Sua autoridade e preeminência sobre todas as coisas] e a verdade acerca de Sua obra [ministério terreno, morte, ressurreição e ascensão] são a parte da fé (2 Tm 2:18; 1 Jo 2:21-22; 2 Jo 1:7).

 “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14:6)

Não quero apresentar esses pontos acerca da pessoa e obra de Cristo apenas como uma lista memorizada e repassada por tradição. Por isso, é importante apresentar trechos em que os apóstolos apresentam e defendem essas questões, o que chancela nossa percepção de que realmente são parte importantíssima da fé que defendemos:

  1. A natureza divina de Cristo:
  2. “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl 2:8-9)

    “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 Jo 5:20)

  3. A natureza humana de Cristo:
  4. “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.” (1 Jo 4:2-3)

    “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2 Jo 1:7)

  5. A posição e a autoridade de Cristo:
  6. “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2:36)

    “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:11-12)

    “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”  (At 5:31)

    “o qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1 Pe 3:22)

    “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2:22)

  7. Seu ministério terreno e Sua morte:
  8. “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;” (At 2:22-23)

    “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,” (1 Co 15:3)

    “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1 Pe 3:18)

  9. Sua ressurreição e ascensão:
  10. “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1 Co 15:12)

    “Estes se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo a fé a alguns” (2 Tm 2:18)

    [Nesse último versículo o apóstolo refuta uma doutrina que teorizava sobre a ressurreição, comparando-a, ou reduzindo-a, a uma mudança de prática, ou grande recomeço, e, conseqüentemente, reduzindo a ressurreição de Cristo ao status de uma mera mudança em sua prática ministerial.]

     “De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus” (Mc 16:19)

    “Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu” (Lc 24:51)

    “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2:33)

    “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4:10)

Diante desses textos, parece-me claro que a verdade do evangelho é o conteúdo de nossa fé. E que o evangelho é com respeito a Jesus Cristo, o filho de Deus, que, vindo em carne, viveu sem pecado e morreu uma morte vicária a nosso favor, ressuscitou ao terceiro dia, apareceu a muitos e, também diante de muitas testemunhas, ascendeu aos céus e está assentado à destra do Pai. A Ele foi dado um nome que está acima de todo nome, e não há outro nome pelo qual importa que sejamos salvos.

O evangelho de Jesus

Agora, gostaria de lembrar que o próprio Senhor disse que Suas palavras eram a verdade (Jo 18:37; Mc 1:38; Lc 4:43). O Senhor não apenas operava milagres, mas também ensinava. Ele ensinava com autoridade, pois apresentava a luz da verdade (Mt 4:16; 7:29; Mc 1:22). O conteúdo de Sua pregação, portanto, nunca poderia ser ignorado. Sua pregação é imutável e incontestável. Ele também comissionou a seus discípulos para que dessem testemunho de tudo aquilo que os ensinara (Mt 28:20). Sua pregação, que é a verdade conseqüentemente, constitui, assim como o registro acerca de Sua pessoa e obra, a verdade do evangelho (Jo 17:17). Constitui, portanto, a nossa fé.

E o conteúdo do ensinamento do Senhor Jesus é, de acordo com o registro dos evangelhos, o evangelho do reino (Mt4:17; Mc 1:14-15; Lc 4:43; Jo 3:3-5). Sua mensagem acerca do reino inclui a revelação dos mistérios do reino dos céus (Mt 13:11; Mc 4:11; Lc 8:10); os sinais da vinda, ou da manifestação do reino (Mt 16:28; 24:3-31; 25:31-46; Mc 13:3-27; Lc 21:7-28); a promessa do galardão do reino (Mt 13:43; 25:9-10, 19-23; Lc 19:15-19); bem como uma série instruções acerca de como viver as verdades acerca do reino. Ele afirma que a intenção do Pai era dar-nos o reino, nos compele a buscar o reino e Sua justiça, nos fala de como entrar no reino e viver Nele, e muitos outros ensinamentos acerca do reino (Lc 12:31-32; Mt 6:63; Lc 12:31; 13:24;  Jo 3:3-7).

“Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4:23)

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:14-15)

“Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado” (Lc 4:43)

Mesmo depois da ressurreição, nos quarenta dias em que passou com os discípulos, aperfeiçoando-lhes a fé, o conteúdo do ensinamento de Jesus era o reino (At 1:3). O reino não pode, portanto, ser tomado como coisa de somenos importância. Também não pode ser ignorado como mensagem principal do ensinamento de Jesus.

 “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (At 1:3)

Veja, Filipe anunciava a Cristo e, seu evangelho acerca de Cristo incluía o reino:

“Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo” (At 8:5)

“Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres” (v. 12)

Paulo, igualmente, ao ensinar acerca do Senhor Jesus, pregava o reino:

“Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas” (At 28:23)

“pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (v. 31)

O reino é, portanto, parte do evangelho e parte de nossa fé (At 8:12; 19:5-8; 28:23, 31). No entanto, é necessário admitir que a mensagem de Jesus acerca do reino é realmente vasta e, evidentemente, é bastante difícil de expressar em um credo, em uma fórmula, uma lista sintética de afirmações que dê conta de toda a verdade do reino [são 127 menções ao reino, só nas palavras do Senhor Jesus]. O ensinamento apostólico acerca do reino também é extenso [26 menções nas epístolas e 5 no Apocalipse]. No ensinamento dos apóstolos, o reino é algumas vezes utilizado como sinônimo da igreja, ou como uma designação mais ampla da vida cristã (At 20:25; Rm 14:17; 1 Co 4:20; Cl 1:13; 4:11; 1 Ts 2:12; Hb 12:28). Então, de certo modo, tudo o que os apóstolos ensinaram acerca da igreja diz respeito ao reino. Por outro lado, o ensinamento acerca do reino dá maior ênfase ao aspecto da herança do reino, ou o galardão do reino (At 14:22; 1 Co 6:9-10; 15:24, 50; Gl 5:21; Ef 5:5; 2 Ts 1:5; 2 Tm 4:1, 18; Tg 2:5; 2 Pe 1:11)

Essa questão é delicada, pois, muitas vezes, confundimos a fé que é comum a todos os santos, essa fé que foi entregue a todos, de uma só vez, com nossa interpretação (individual ou corporativa), que nem é perene, nem pode ser comum. É no momento em que confundimos nossa visão particular com a fé, que substituímos o reino por outra esfera, menor, menos acolhedora, menos inclusiva, mais cara – como a seita dos fariseus, impondo a lei mosaica no meio da igreja (At 15:5). Quando confundimos a fé com nossa interpretação, nos tornamos como o fariseu que voltou para casa impuro. Preservar a fé, nos permite voltar para casa como o publicano, que volta perdoado, justificado (Lc 18:10-14).

O Senhor escolheu ensinar, a maior parte do tempo, através de parábolas (Mt 13:3, 10-13, 34; 22:1; Mc 4:2; Lc 8:10). Os mistérios do reino dos céus foram transmitidos por meio de parábolas e pela interpretação de algumas parábolas (Lc 8:10). Por isso é perigoso tentar instituir um “credo do reino”. É perigoso tentar compilar uma ‘revelação completa’ do reino, pois, certamente, o processo de selecionar e expressar de forma concisa as verdades do reino é bastante influenciado por nossa interpretação individual. O perigo é maior quando a interpretação traz, em si, uma implicação prática que pode ser usada como “circuncisão”, como teste de aceitação [ou rejeição] de pessoas no reino (Mt 10:41; 18:5-6).

 “Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34)

“Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento” (Mc 4:2)

“Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt 18:6)

Se o reino é tão difícil de resumir e de expressar, como pode ser parte da fé? Bom, como vimos no início desta exposição, a fé está relacionada a nossa salvação. A verdade acerca de Jesus e de Sua obra trata cabalmente da questão de nossa salvação da perdição eterna. Que é o aspecto inicial da salvação – a nossa redenção. Nosso passado como pecadores é apagado, uma vez que o escrito de dívida, que era contra nós, foi encravado na cruz  (Cl 2:14). Também, ao cremos em Jesus, recebemos a vida eterna, pois, aquele que tem o Filho, tem a vida eterna, e nos tornamos filhos de Deus (Jo 1:12; 3:36; 5:24; 6:47, 54; 1 Jo 5:12). Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Ele desceu como pão do céu para que todo que dele come não pereça, antes, receba espírito e vida por meio Dele (Jo 3:16; 6:50, 63). Portanto, estamos livres da condenação eterna, da ‘segunda morte’, e temos a esperança de estar para sempre com Jesus (Rm 6:10; 1 Ts 4:17; Hb 2:9-15; 9:28; Tg 5:20; 1 Jo 3:14; Ap 1:8; 20:14; 21:8). Tudo isso está relacionado com a nossa fé em Jesus, em Sua morte e ressurreição.

Mas, uma vez redimidos, reconciliados com Deus e regenerados, há ainda outro aspecto da salvação. Nossa salvação diária, nossa santificação, que nos transforma e nos faz parecer com Jesus (Rm 5:10; 12:1-2; 1 Co 1:30-31; 2 Co 1:9-10; 2 Pe 1:3-8). Essa salvação posterior, ouso dizer, é fruto daquela parte da fé concernente ao reino.

 “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5:10)

“Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos” (2 Co 1:9-10)

“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe 1:3-4)

O reino dos céus na África

Portanto, apesar de não me atrever a listar um grupo de verdades que apresente a totalidade do evangelho do reino, posso encontrar, no evangelho do reino, respostas à minha necessidade presente e à necessidade daqueles à minha volta, a quem sirvo. E, buscando uma maneira de ajudar os irmãos nessa região da África, tenho desfrutado de alguns aspectos particulares do evangelho do reino. Considerando ainda mais atentamente essas coisas, percebi que podem ser de ajuda à minha família e aos amados irmãos a quem envio esse texto.

Tenho dito aos irmãos aqui que, uma vez que o reino é parte da fé, precisamos conhecer o reino. Precisamos conhecer o regime de governo, ou a autoridade desse reino; a composição; a constituição, ou o ordenamento básico, desse reino; os limites; a posição. De forma simples, posso resumir, a reposta para tudo é Cristo.

O Senhor Jesus é o único Rei e soberano. A Ele pertence a soberania, ou seja, poder e autoridade absolutos, indivisíveis, indissolúveis. Veja que o conceito moderno de soberania está fortemente atrelado ao Estado como representante da soberania nacional, ou a soberania do povo. Nos estados modernos a autoridade tem de ser representativa pois o poder soberano é indivisível, e, portanto, não poderia ser distribuído entre os cidadãos. Daí, a autoridade da coletividade soberana ser delegada a fim de ser representada num único corpo. Mas, no reino dos céus, o povo não é soberano e a autoridade não é representativa. Jesus, nosso Rei, é soberano: toda autoridade pertence a Ele e Ele a exerce diretamente (Mt 28:18; 1 Co 11:3; Ef 4:15; 5:23).

 “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18)

“Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Co 11:3)

A preeminência e a autoridade de Cristo têm sido atacadas há séculos na África. Missionários de todas as partes vieram, pregaram o evangelho, assistiram aos pobres e, enquanto o faziam, ensinaram aos africanos que estes dependiam de ajuda estrangeira, espiritual e materialmente. Esses mesmos missionários, durante séculos, representaram a cultura ou estiveram diretamente associados às nações que exerciam controle sobre este continente, como se fossem realmente donos de tudo e de todos. Infelizmente, o mesmo princípio distorcido de autoridade penetrou e se solidificou em todos os grupos cristãos. Por todos os lados vemos pessoas agindo como dominadores do rebanho, alguns por constrangimento, outros por sórdida ganância. É possível encontrar aqueles que são ‘melhor-intencionados’, que não admitem exercer controle sobre os santos, mas ainda insistem na tese de que os filhos de Deus sejam dependentes de algum líder.

Tentamos ajudar aos irmãos, mostrando que todos os reis e todos os ungidos para exercer autoridade no Antigo Testamento são figuras, sombras, do único Ungido, o Cristo de Deus, que é Jesus. No Novo Testamento, ninguém mais pode declarar-se ‘o ungido’, pois está claro que em Jesus se cumpriram todas as profecias e figuras acerca da unção do Pai (Lc 4:18-21; At 3:22; 7:37; Cl 2:17). A unção que temos é a unção da cabeça, que se estende a todos os membros de igual forma (Sl 133:2; 1 Jo 2:20, 27).

 “E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento” (1 Jo 2:20)

É sempre bom notar que não somos do mundo, embora estejamos no mundo (Jo 17:16). Enquanto estivermos no mundo, precisamos dar a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus (Mc 12:17). Quanto ao cosmos, ao sistema do mundo, temos autoridades delegadas, às quais nos submetemos em obediência a Cristo (Rm 13:1; Cl 3:22; Tt 3:1; 1 Pe 2:14; 2 Pe 2:10; Jd 1:8). Mas é uma afronta ao encabeçamento de Cristo supor que a autoridade do reino dos céus seja semelhante, em natureza ou forma, à autoridade do império das trevas. Que comunhão pode haver entre as trevas e a luz?

 “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;” (Mt 20:25-26)

“Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:25-26)

“Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;  e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos” (Mc 10:42-44)

“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças (…) segundo os preceitos e doutrinas dos homens?” (Cl 2:20, 22)

Acerca do governo na igreja

Há autoridade na igreja? Sim, é Cristo. Cristo pode usar os membros do Seu próprio corpo para exercer Sua autoridade? Claro que sim! Mas o membro não se torna a autoridade delegada da cabeça. Não se torna autoridade sobre outros membros. A cabeça continua sendo a única autoridade no corpo. A cabeça continua sendo a única sobre, acima dos membros. O conceito de ferramenta, ou membro que é utilizado na consecução de uma ordem, é muito diferente do conceito de delegado, ou representante da cabeça. Note que o governo na igreja é expresso, quando necessário, por meio de um dom espiritual, e esse dom não é dos mais importantes. Veja as listas de dons espirituais, e verá que o dom de governo, quando citado, figura entre os últimos, ou, os de menor importância. Mas nós devemos promover os melhores dons (Rm 12:3-8; 1 Co 12:8-10, 28-31).

“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (…) Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons” (1 Co 12:28, 31)

“Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (v. 11)

Isso não anula, de forma alguma, o ensinamento apostólico acerca dos presbíteros/bispos [termos intercambiáveis, usados para se referir, seja quanto à natureza ou quanto à função, àqueles que têm o ofício, ou ministério, de liderar a igreja] (At 14:23; 20:17-36; 1 Tm 3:1-7; 5:17-20; Tt 1:5-9; Tg 5:14; 1 Pe 5:1; Hb 13:17, 24). A doutrina dos apóstolos acerca dos presbíteros é clara e indiscutível. Ainda assim, levados por seus próprios interesses, muitos a têm distorcido, utilizando-se de uma preocupação saudável dos apóstolos, especialmente quanto ao cuidado diário dos santos, para estabelecer um sistema hierárquico na igreja. Distorcem a sã doutrina a fim de tomar o lugar que pertence a Cristo e exercer autoridade sobre os irmãos, exaltando-se sobre o rebanho que é de Deus. Veja que em todos os trechos, as atividades a que foram incumbidos os presbíteros nunca incluem o exercício de autoridade sobre a igreja.

Vemos as expressões pastorear, socorrer, hospedar, ensinar, cuidar, ter bom testemunho, ser irrepreensível como despenseiro, exortar pelo reto ensino, convencer, pastorear como modelo do rebanho, e, finalmente, guiar, especialmente como exemplo de fé. Esse é o tipo de liderança ensinado pelos apóstolos, que não admite o exercício de autoridade sobre os irmãos. É impressionante que, mesmo não havendo qualquer brecha para que o ofício episcopal seja confundido com governo sobre a igreja, os nicolaítas só conseguem enxergam governo nessa doutrina. Note que a única menção a governo, em toda a doutrina acerca do presbitério, é o governo que o presbítero deve ter sobre sua própria casa.

“e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);” (1 Tm 3:4-5)

Alguém poderia argumentar que 1 Tm 5:17 fala de presidir. Entretanto, é preciso lembrar que o verbo proisyhmi [proistemi], no original, que foi erroneamente traduzido como presidir, significa, na verdade, montar guarda, proteger, cuidar e, por extensão, prestar assistência, ajudar. É um termo que se adéqua melhor ao ofício de uma babá do que ao de um governador. Pessoas que tentam exercer primazia na igreja, estar sobre os outros, sempre trazem problemas à igreja em lugar de cuidado (3 Jo 1:9).

Amados, se dermos ao Espírito a liberdade [ou melhor, se reconhecermos Sua autoridade] para  nos liderar, nos usar conforme Lhe apraz, não precisaremos elevar um mero ser humano como autoridade ‘substituta’ ou ‘delegada’. Se tivermos o Espírito, teremos a unção para nos liderar, para nos ensinar todas as coisas, e não será necessário eleger um ‘vigário’ de Cristo, um substituto. Não será necessário defender a ‘autoridade delegada’ de ninguém na igreja (1 Jo 2:27). Por outro lado, quando, por preguiça ou ganância, permitirmos que o sistema de autoridade do mundo, o trono de Satanás, entre na igreja, então existirá autoridade delegada entre nós. O delegado, os delegados do delegado, os delegados dos delegados do delegado… Isso se chama hierarquia, ou, em linguagem propriamente bíblica, as obras dos nicolaítas – às quais o Senhor odeia (Ap 2:6).

O Espírito foi específico ao listar o dom de governo na quinta categoria. Devemos dar importância àquilo que Deus dá, conforme Ele dá. Estamos ajudando os irmãos aqui, no continente africano, a não darem importância a títulos, à posição ou ao reconhecimento. A não darem importância à tradição mundana que prega haver hierarquia entre nós. Rejeitamos o trono de Satanás que vem com as obras dos nicolaítas. Pelo contrário, damos preeminência a Cristo e buscamos os melhores dons, a fim de servi-Lo (Cl 1:18).

Durante uma visita à Tanzânia, um grupo de agentes de imigração nos parou e um irmão queniano, que viajava conosco, acabou sendo levado e quase ficou preso, por que escreveu em seu passaporte “Pregador” como profissão. Se você é um pescador, e é encontrado pregando, “Parabéns!”. Mas, se você é um pregador, antes de começar a exercer sua profissão, precisa de autorização especial do governo (visto de trabalho, residência temporária, etc.). Nada mais justo, evidentemente. Acabamos pagando USD 200 para liberar o irmão. Mas foi um preço pago por uma boa lição. Todos os presentes, inclusive o “Pregador”, vimos que qualquer tentativa de estabelecer uma posição [de autoridade ou não], ou lutar por um título, por reconhecimento, tem um único resultado: nos anular como servos de Cristo e nos misturar com os negócios desse mundo.

Todos os irmãos ficaram tocados. Depois de resolvida a situação, tivemos comunhão mostrando aos irmãos que Jesus, sendo Senhor e Rei sobre todas as coisas, nunca aceitou um titulo. Quando O chamavam de Filho de Deus, respondia dizendo que é Filho do homem. Quando perguntado se era rei, respondeu “tu o dizes” (Mt 27:11). Quando perguntado se era Filho de Deus, respondeu da mesma forma (Mt 26:63-64). Não era falsa humildade, nem só mais um preceito religioso. O Senhor realmente tomou o caminho da humilhação. Ele é agora nosso único caminho (Jo 14:6). O reino não é uma instituição hierarquizada, com ofícios e títulos, com assentos e tronos. O reino é um caminho (At 18:26; 24:14; 2 Pe 2:2). Nesse caminho, a única autoridade a quem seguimos e a única autoridade a quem defendemos é Jesus, o Autor e Consumador da fé, que vai adiante de todos nós (Hb 12:1-2).

A natureza do reino

Perceber que o Senhor Jesus é nosso único rei já resolve uma multidão de problemas em nossa carreira cristã, especialmente em nosso convívio com os amados filhos de Deus. Quando Jesus é soberano, não há relação de inferioridade ou superioridade entre nós. Mas a percepção que Jesus é rei não resolve outro problema grandemente difundido na África: o evangelho da prosperidade. A confusão entre o que vem de Deus e o que vem do mundo faz com que muitos vivam angustiados, esperando por aquilo que não traz esperança. O reino de Deus é espiritual e as bênçãos do reino são, antes de tudo, espirituais. A maior delas sendo a nossa liberdade em Cristo.

Quando iniciou seus sinais na Galiléia, Jesus recebeu a visita de um dos governantes dos judeus. De certa forma, podemos dizer que Nicodemos se interessou pela doutrina de Jesus [pois o chama de mestre] por causa dos sinais que Jesus fazia [pois indicou que via em Jesus, pelos sinais que fazia, autoridade da parte de Deus] (Jo 3:1-2). Mas a essa confusão entre as coisas de Deus e as coisas que podem ser vistas, o Senhor Jesus respondeu que é necessário nascer de novo para ver o reino de Deus. Aquilo que pode ser visto com olhos carnais não pode ser confundido com o reino de Deus. O reino é visto por aqueles que têm outra vida, outra natureza. O reino é do alto, e só pode ser visto por aqueles que nasceram do alto, da água e do Espírito (Jo 3:5-7; 1 Co 10:1-2).

E a natureza espiritual do reino foi também parte da defesa do evangelho por parte dos apóstolos, cuja preocupação era ajudar os irmãos a desassociar sua vida e prática cristã do conhecimento que tinham, da percepção limitada que tinham, baseada naquilo que podiam ver e não na palavra da fé, pregada pelos apóstolos (Rm 14:1; Co 15:50).

 “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50)

Ainda é muito difícil para os irmãos aqui desassociarem a bênção material da maturidade espiritual. Os mesmo brancos que traziam o ensinamento bíblico também traziam dinheiro. Assim, ficou estabelecido que se alguém tem bom ensinamento, deve também ter bastante dinheiro. Mas, nossa defesa do evangelho tem sido para que os irmãos percebam que o que é provindo da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. O reino de Deus tem uma natureza diferente, que não pode ser medida, nem teatada, nem apreendida, por meio de coisas inferiores, terrenas.

E o evangelho da prosperidade tem outras vertentes, por exemplo, a bênção numérica. Muitos são os que defendem a genuinidade de seu ministério baseando-se no número de seguidores que arrastam após si. Encontramos vários ‘bispos’ e ‘apóstolos’ que são capazes de nos dizer quantas “igrejas” têm, com quantas pessoas, com que volume de ofertas, etc. – mas não são capazes de citar um versículo bíblico. Mais uma vez, o número de pessoas não pode medir nem testar nossa proximidade do reino dos céus. Muitas pessoas na carne, unidas em um só propósito, ainda são apenas carne. Note que o Senhor, que abomina divisão, preferiu confusão e divisão à unidade de Babel (Gn 11:1-7).

“e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro” (Gn 11:6-7)

Recursos financeiros e grandes ajuntamentos podem até resultar da bênção de Deus para os filhos do reino, mas não necessariamente expressam o reino. O reino não é visto nessas coisas. De acordo com o ensinamento do Senhor, em João 3, a melhor maneira de assegurar-se de que você está no reino é seguir o Espírito (Jo 3:5-8).

“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3:8)

A maior bênção do reino, e a mais contundente prova de que estamos vivendo o reino de Deus na terra é a liberdade que só o Espírito dá. Se sou obrigado, por tradição, revelação ou ‘dívida de gratidão’, a seguir alguém, já não é mais o Espírito quem me guia. Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2 Co 3:17). Apesar de alguns ainda acharem que a piedade é fonte de lucro, o Senhor mesmo, pela palavra de Sua boca, está nos libertando e nos guardando de, por amor ao dinheiro, ou às coisas materiais, nos desviarmos da fé (1 Tm 6:5-10). Essa é a bênção que melhor expressa o reino. E precisamos perceber a natureza espiritual do reino para desfrutar plenamente essa bênção.

A composição, o limite e a posição do reino

Quanto à composição do reino, também pelo que lemos em João 3, temos de admitir que o reino é composto exclusivamente por pessoas que têm Cristo. Portanto, Cristo é o conteúdo, a vida e o significado das ações dos cidadãos desse reino (Mt 13:43; Lc 12:32; Jo 1:12, 17; 3:3-8). Ele é o código de conduta, o limite da liberdade individual e o sentido da vida conjunta desses cidadãos. Ele é o “acordo social”, o “ethos”, o espírito do povo, a constituição do reino (Jo 10:1-5, 27; Rm 14:8; Cl 1:26-27; Cl 3:1-4).

“Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 13:43)

Isso pode parecer ‘espiritual demais’, mas tem aplicações práticas muito importantes. Todos os cidadãos do reino de Deus foram igualmente qualificados para entrarem no reino por meio da vida. Todos os cidadãos são igualmente filhos de Deus (Jo 1:12; Ef 2:19). Portanto, não há castas nem há classes sociais nesse reino. Pode até haver diferença nas realizações, mas elas não resultam em qualquer diferença entre os cidadãos. Não existe a classe dos que fazem tudo. E, certamente, não existe a classe dos que nada fazem. O Rei deu a mesma porção e a mesma responsabilidade a cada um, e também julgará igualmente a cada um (Mt 25:13:30; Mc 13:33-37; Lc 19:12-15).

“Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo. É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie” (Mc 13:33-37)

Isso quer dizer que cada um deve levar a cabo sua função, seu ministério, no reino. Não podemos ser maus e negligentes, enterrando o dom de Deus (Mt 25:26; Lc 19:22-24; 1 Tm 4:14; 2 Tm 1:16). Sentar-se e esperar que outros nos sirvam e façam tudo na igreja é apenas outro tipo de obra de nicolaítas, que o Senhor odeia. Uma vez que, aos filhos desse reino, o Pai já concedeu todas as coisas, Nele mesmo (Lc 15:31), já não é necessário esperar um homem que nos ajude (Jo 5:7-8), ou algo por algo mais que nos satisfaça (Jo 4:12-15).

“Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu” (Lc 15:31)

Esse é um grande mistério do reino, que os foi revelado. Cristo, como a semente do reino, está em nós. Essa é nossa esperança da glória. E é por essa esperança da glória que podemos ser cidadãos completos, perfeitos, desse reino. Não só desfrutando das riquezas insondáveis de Cristo como também contribuindo para o avanço do reino (Mt 5:48; Cl 1:27-28).

“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48)

“o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1:26-28)

Por outro lado, não nos cabe interferir no serviço de outros irmãos, ou ditar o que devem fazer, ou como fazer. Se quisermos promover o reino, cabe-nos apenas encorajar uns aos outros ao desfrute de Cristo. Afinal, Cristo é o limite, a fronteira do reino (Jo 1:46; 4:29; 10:7-9). Ele é a porta. Quem entra em Cristo, encontra o reino. O que não está em Cristo não está no reino. O que está em Cristo está no reino. Assim, a quem Ele tiver chamado, recebemos (Mt 18:5; Mc 9:37; Jo 13:20).

“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê” (Jo 1:46)

“Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo 10:9)

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou” (Jo 13:20)

Cristo como limite do reino é uma grande lição para nós. Muitas vezes temos oportunidades de cooperar pelo reino, mas somos limitados por algum tipo de ‘circuncisão’, por alguma fronteira dentro do reino, baseada em ensinamentos e práticas que não constituem a fé, a verdade do evangelho (Cl 4:10-11). Outras vezes nos recusamos a receber ajuda pelo mesmo motivo. Cristo é o nosso limite. Ele é a porta. Não podemos criar outra porta, outra separação, pois, certamente, deixaremos o Senhor do lado de fora (Ap 3:17-20).

“Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo” (Cl 4:10-11)

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3:20)

Cristo é a fronteira, é a entrada do reino e é também sua posição (Lc 17:20-21; Jo 4:21-24; 14:17). Esse reino só pode ser visto em Cristo, só pode ser adentrado e visto por aqueles que nasceram de novo, do alto, cuja vida está oculta com Cristo em Deus (Jo 15: 15:4, 9; Cl 3:1-3). Portanto, para sermos firmados e consolidados na fé acerca do reino, precisamos ser firmados e consolidados Nele. Estar no reino não é uma questão de estar num ‘solo sagrado’, nem de pertencer a um determinado grupo de elite. Se trocarmos nossa posição em Cristo por outra posição, que desesperança! Que retrocesso!

“Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4:21)

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:20-21)

A coroa

Pode parecer estranho, mas é mais fácil perceber a importância dos aspectos da verdade do reino que citei acima quando eles são atacados. Quando tudo parece bem, o evangelho do reino parece teórico e evasivo. Mas quando a continuidade de nossa salvação é ameaçada, vemos quão preciosa é a fé na palavra do reino. Por exemplo, quando outra autoridade, ou outra forma de autoridade, surge na igreja. Ou quando alguém tenta impor um limite à igreja, excluindo outros irmãos, baseado em uma teoria, em um ensinamento, em uma prática [ainda que comprovada e claramente bíblicos].

A triste percepção é que a maioria dos cristãos lutaria mais por seu líder do que por Cristo. Digo isso pois é patente que, diariamente, lutam mais para provar qual líder [ou qual doutrina] é superior do que para que Cristo seja o único tema numa conversa, para que nada retire a atenção e a simplicidade devidas a Cristo. Lutam mais por práticas, que constituem limites muito restritos, do que por preservar Cristo, que é inclusivo.

Por isso, amados, esforcemo-nos por manter a unidade do Espírito, no vínculo da paz. Lutemos concordemente pela fé evangélica (Fp 1:27). A fé no evangelho acerca de Jesus. A fé no evangelho do reino, que Jesus pregou. Combatamos o bom combate a fim de guardar a fé, até o fim de nossa carreira para que, confiadamente, lancemos mão da coroa que nos está guardada (1 Tm 4:7-8; Hb 6:18).

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1:27)

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (1 Tm 4:7-8)

“para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta” (Hb 6:18)

Minha comissão, diante do Senhor, realmente não é apontar erros, ou identificar exatamente quem, e de que modo, estaria atacando a fé, no que diz respeito ao reino. Creio que só o Espírito pode confirmar os corações, em toda boa palavra e boa obra (1 Ts 3:13; 2 Ts 2:16-17). Numa reação natural, imatura, eu tentaria defender o reino apenas apontando erros e condenando pessoas. Isso mostra minha necessidade de crer mais e confiar mais no Espírito. De fato, é melhor repetir essas palavras do reino, de maneira positiva, e crer.

Por outro lado, vale lembrar que também é parte do ensinamento do reino permitir que cada um receba diretamente do Senhor aquilo que o próprio Senhor deseja dar-lhe (Mt 20:14-15).

“Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20:14-15)

Finalmente, amados, gostaria de pedir que julguem tudo o que acabo de dizer e retenham o que é bom e, no que for preciso, me corrijam em amor. Dois ou três falam, e todos julgam. É nesse julgamento de todos que se manifesta a mente de Cristo (1 Co 14:29; 2:16).