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Sobre o conhecimento

Written by Jethro Bezerra on . Posted in Citações, trechos de livros etc

Ainda na onda de comentários de livros, queria comentar agora o livro “Reconsiderando a Vontade de Deus”, de Frank Viola. De leitura fácil, traz uma visão muito sensata sobre a compreensão da vontade de Deus em nossas vidas. Destaque para o capítulo que trata da importância da sabedoria e do discernimento no processo de conhecer a vontade de Deus, não apenas no aspecto relacionado à escolhas que precisamos fazer pra viver neste mundo, do tipo casar ou comprar uma bicicleta; mas também, e principalmente, com relação à aplicação dessa vontade divina em nossas vidas enquanto cristãos, do tipo falar em línguas ou não. Nesse contexto, é possível encontrar trechos preciosos como: “Os únicos critérios para a comunhão entre cristãos são esses: Deus recebeu essa pessoa? Se Deus tiver recebido alguém em Sua família, então quem é você para rejeitá-lo? Se alguém creu no Salvador, Jesus Cristo, então Deus o recebeu.” O livro é publicado pela Editora Restauração: www.editorarestauracao.com.br. Pena que seja vendido, porque afinal de contas, sabemos que a palavra de Deus é de graça!

Mas queria desenvolver esse assunto relativo ao discernimento mencionado no livro fazendo um gancho com o seguinte trecho, também precioso: “Normalmente, os cristãos maduros têm mais liberdade do que os cristãos imaturos. Isso é porque os cristãos maduros tendem a ter mais conhecimento.” Pode acreditar, é isso mesmo que você leu. E pode ficar tranqüilo que a frase não foi descontextualizada como se costuma praticar por aí. É exatamente isso que ela quer dizer: cristãos maduros são os que tem mais conhecimento. É certo que algo assim incomoda nos ouvidos de muita gente, mas, ainda que o território seja de fato espinhoso, vale a pena considerar sobre o assunto.

Em resumo, o entendimento corrente apregoa que o conhecimento produz morte. Essa doutrina é derivada da experiência de Adão e Eva que, ao comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Éden, se tornaram mortais. É preciso no entanto considerar mais a fundo essa questão partindo do princípio que conhecer o bem e o mal por si só não significa nada. Se o homem tivesse comido exclusivamente da árvore da vida, ainda assim dificilmente ele seria alienado de discernimento. A bondade faz parte, por exemplo, do fruto do Espírito (Gl 5:22). Aliás, Gn 3:22 mostra que conhecer o bem e o mal é uma característica do próprio Deus e a nós é absurda a ideia de que qualquer traço de morte exista em Deus. Adão mesmo precisava ter discernimento para compreender o mandamento divino e como o apóstolo Paulo disse a Timóteo: “E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” (1 Tm 2:14). Ora, foi justamente a incapacidade de Eva de discernir o engano que conduziu-nos todos à transgressão. Note ainda que, também segundo o próprio Deus no mesmo versículo 22, se não fosse bloquear o acesso à árvore da vida, talvez Adão estivesse no nosso meio até hoje, Vivinho da Silva.

Onde é que está o problema então? O problema está justamente em ‘ser como Deus é’, que é o que a serpente propôs, mas sem que isso ocorresse por meio da própria vida divina. Notem: o propósito da obra de Satanás que começou ali em Gn 3, como manifestação de sua própria natureza (Is 14:14, Ez 28:2), é diluir a proeminência de Deus. Foi assim com Babel, quando a geração criada quis elevar o nome de Ninrode até os céus (Gn 11:4), foi assim com o judaísmo, quando a geração chamada, em seus sacerdotes, rejeitou o próprio Deus clamando: “Não temos rei, senão César!”(Jo 19:15), assim será na apostasia dos últimos dias, quando a geração dos eleitos (Mt 24:24) tolerará que o anticristo se assente no santuário de Deus, “ostentando-se como se fosse o próprio Deus.” (2 Ts 2:4). O comer da árvore do conhecimento do bem e do mal não produziu cemitérios, mas religiões, que ainda que a pretexto de adorar ou servir a Deus, mais afastaram as pessoas de um relacionamento pessoal e genuíno com Deus do que propriamente aproximaram.

Aí está o princípio: não é o conhecimento que produz morte, e sim a perda do relacionamento íntimo ou direto com Deus. Nada faz isso melhor do que uma religião em que Deus não seja o único. O capítulo quinto do evangelho de João traz muita luz sobre esse assunto, mas por ora consideremos apenas os versículos 39 e 40: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo não quereis vir a mim para terdes vida.” O conhecimento das escrituras por parte dos judeus existia, mas lhes faltava buscar Aquele pra quem as escrituras apontavam: Cristo.

O Senhor estabelece novamente um marco para o novo testamento, dessa vez com relação à nossa experiência no trato do conhecimento. Cristo é a fonte da vida, nada mais. Alguns grupos reivindicam a propriedade exclusiva da vida, como se a tivessem registrada em algum instituto de patentes ou propriedade. Isso é zombar a Cristo. E a base para dizerem isso é justamente o desprezo do conhecimento. Mas a verdade é que, mesmo uma palavra leve e suave, como por exemplo: “por onde passar esse rio, tudo viverá”, que como resultado produza a exaltação de homens, de preferência em detrimento de outros; não tem mais valor do que uma palavra como: “Deus há de ferir-te, parede branqueada!”, se esta, no fim, colaborar mais para conduzir as pessoas a Cristo, a vida eterna, e a Ele somente.

Não à toa, o Senhor fez o alerta no mesmo capítulo 5 de João, 4 versículos adiante daqueles que lemos: “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo não procurais a glória que vem do Deus único?”

Bom, ainda assim, o assunto é mesmo muito sensível, será que não poderíamos ter um embasamento melhor não? Recentemente, aproveitei para notar nas minhas leituras versículos que tratavam desse assunto. Foi possível perceber que os apóstolos não apenas esperavam discernimento por parte dos santos, como mostram os versículos seguintes…:

  • Rm 14:5 – Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente.
  • Rm 15:14 – Eu próprio, meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios de bondade, cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros.
  • Rm 16:19 – Quanto à vossa obediência, é ela conhecida de todos. Comprazo-me, pois, em vós; e quero que sejais sábios no bem, mas simples no mal.
  • 1 Co 1:5 – Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento,…
  • 1 Co 10:15 – Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo.
  • 2 Co 1:13 – Pois nada lhes escrevemos que vocês não sejam capazes de ler ou entender. (NVI)
  • 2 Co 3:14 – Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia. Na verdade as mentes deles se fecharam, pois até hoje o mesmo véu permanece quando é lida a antiga aliança. Não foi retirado, porque é somente em Cristo que ele é removido. De fato, até o dia de hoje, quando Moisés é lido, um véu cobre os seus corações. Mas quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado. Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade. (NVI)
  • Gl 6:7 – Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. (NVI)
  • Ef 3:4 – Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo,…
  • Ef 4:17-18 – E digo isto, e testifico no Senhor, para que não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração;…
  • Ef 5:15, 17 – Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios,… por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.
  • Cl 2:16-19 – Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo. Não permitam que ninguém que tenha prazer numa falsa humildade e na adoração de anjos os impeça de alcançar o prêmio. Tal pessoa conta detalhadamente suas visões, e sua mente carnal a torna orgulhosa. Trata-se de alguém que não está unido à Cabeça, a partir da qual todo o corpo, sustentado e unido por seus ligamentos e juntas, efetua o crescimento dado por Deus. (NVI)
  • 1Ts 5: 21 – Examinai tudo. Retende o bem.
  • 1 Tm 3:14-15 – Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa; mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade.
  • 1 Tm 4:13 – Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá.
  • Tg 1:5 –  E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.
  • 2 Pe 1:5-7 – Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade; à piedade a fraternidade; e à fraternidade o amor. (NVI)

…mas eles, os apóstolos, também tinham um pesado encargo em seus corações para que os santos tivessem tal conhecimento, como evidenciado nos versículos seguintes:

  • Ef 1:16 – Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações: Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação; Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos;…
  • Fp 1:9-11 – E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.
  • Cl 1:9-10 – Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoriainteligência espiritual; para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus;…

Vale mencionar ainda:

  • At 6:3 – Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa… (NVI)
  • At 17:11 – Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.

Dá para entender o motivo dos apóstolos darem tanta importância a esse assunto. É que uma vez estabelecida uma relação hierárquica na igreja, em que uns tem primazia sobre outros, o próximo passo é ajustar o ensinamento àquilo que se torna mais conveniente, mesmo que seja preciso deturpá-lo. O apóstolo Paulo previu que, dentre os irmãos mesmos, se levantariam homens falando coisas pervertidas para que arrastassem os discípulos atrás deles. Na igreja DE DEUS, a qual ele comprou com Seu próprio sangue, não pode haver lugar para lobos vorazes. (At 20:28-30) Nesse sentido, cito mais um versículo, que na minha opinião, é crucial para a prática da igreja numa condição normal:

  • 1 Co 14:29 – E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.

Nesse sentido, é possível ver castelos sendo construídos em torno de doutrinas como por exemplo: negar a vida da alma. Enquanto essa palavra for aplicada para forçar sujeição a homens, ela é um exemplo claro de perversão da palavra. O negar a vida da alma nunca deveria ser mais enfatizado do que tomar a cruz e, muito menos, do que seguir o Senhor!

Talvez a essa altura já dê para dizer isso, mas julgue você mesmo, o conhecimento é importante ou não? Note que todas esses versículos se referem a um conhecimento/ entendimento/ exame/ discernimento/ julgamento/ não ser enganado/ saber que estão relacionados ao ato de pensar mesmo. É por meio desse processo mental que podemos crer na palavra que, finalmente, nos conduzirá à Cristo e à vida. Aí sim passaremos a tratar com uma outra forma de conhecimento, essencialmente espiritual, que é a participação na vida divina em toda sua extensão (p. ex. Ef 3:17-19; 4:13).

Para terminar, queria voltar ao comentário lá do começo sobre a relação entre conhecimento e maturidade. Parte da pregação que tenta anular a capacidade de discernimento dos santos chega a louvar a ignorância como condição essencial para que alguém se torne vencedor, aquele que é maduro na segunda vinda de Cristo. O argumento é que o crescimento de vida é tudo o que se precisa. Ora, o crescimento de vida sem discernimento jamais configurará maturidade. Até a sociedade humana reconhece a figura do incapaz. Esse é aquele que, em alguns casos, mesmo apesar da idade adulta, é impossibilitado de exercer cidadania porque é carente de discernimento. O padrão do reino de Deus não seria inferior. A palavra de Deus ainda claramente trata dessa relação:

  • Lc 2:40 – E o menino [Jesus] crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.
  • 1 Co 2:14 – 3:1 – Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo. E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo.
  • Cl 1:28-29 – A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo; e para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente.
  • Hb 5:13-14 – Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.

Que o Senhor de fato conceda a todos nós seus filhos encorajamento para buscarmos conhecer plenamente toda verdade, que traz libertação, e vivermos pela mente de Cristo.

“Isso é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve pregar em tempos oportunos”. 1 Tm 2:4.