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É possível mudar um país com tinta?

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Há alguns dias passei por um grupo de jovens que distribuía panfletos sobre uma nova agremiação civil, talvez política. O conceito de partido ainda não é muito claro para os jovens egípcios. A maioria deles crê que seu grupo ou agremiação merece a participação de todos os cidadãos do país. O jovem que distribuía o panfleto dizia: “vá à Midan Libnan (Praça do Líbano), e inscreva-se também. Já somos mais de 80 milhões. Todo o país vai aderir”. O mais interessante na afirmação é que, segundo dados oficiais, a população inteira do Egito não passa de 79 milhões.

Há semanas, grupos de jovens organizados em escolas ou vizinhanças pintam as calçadas e muros do Cairo. Eles já varreram as ruas, já limparam a Praça Tahrir – palco dos maiores protestos e confrontos. Eles dizem que vão mudar o país. Eles dizem que vão estabelecer um modelo para o mundo inteiro. Um modelo de uma nação justa, organizada e pacífica. Eles vão fazer isso com tinta e pincel. Vão pintar um novo país. É, sem dúvida, um ato cívico importante e até mesmo louvável.

O problema, que a maioria deles não consegue perceber, é que eles estão cuidando apenas de alguns detalhes exteriores, sem realmente transformar os valores e conceitos que governam o país há séculos. Alguns se preocupam com a limpeza, outros com a instalação de sinais de trânsito. Alguns voluntários têm substituídos a polícia de trânsito, controlando o tráfego em alguns cruzamentos, e, devo admitir, têm se saído melhor na tarefa que os policiais. Há também os que se preocupam com aspectos mais profundos da organização política do país, tentando acompanhar a transição do gabinete do governo e saber se os novos indicados não estiveram envolvidos com o antigo regime. Tudo isso, no entanto, é ainda como pintar uma estrutura de madeira totalmente corroída por cupins.

Eles não aceitam ter de esperar numa fila – num restaurante, por exemplo, dez pessoas – com dinheiro nas mãos estendidas – falam com o caixa ao mesmo tempo, tentando fazer o pedido. Eles não respeitam as regras de trânsito – ninguém se importa com mão ou contramão, estacionam em 2a. 3a. 4a. fila, até bloqueiam totalmente a rua. Eles não respeitam áreas de não fumantes – as pouquíssimas que existem, geralmente em restaurantes de redes ocidentais, são completamente cheias de fumantes e fumaça. Em resumo, querem um país justo e igualitário, mas não abrem mão de um caráter egoísta e irresponsável. Querem um governo justo, mas querem ser injustamente beneficiados pela inexistência de limites à sua liberdade individual. Não aceitam instrução, isso fere seu orgulho. Não suportam críticas, mas estão prontos a criticar. Querem mudar a natureza do povo, do país, sem se demoverem um milímetro sequer de sua posição de conforto.

Querem uma melhor organização política. Querem liberdade de expressão, de agremiação e de reunião. Querem acabar com a antiga polícia do regime. Querem liberdade. Mas não entendem que seu anseio mais profundo só será atendido se tiverem uma mudança interior.

É fácil ver essa cena no Egito e nos egípcios. É mais difícil perceber que o mesmo acontece comigo. Com todos nós. Sonhamos com aquele dia em que todas as condições externas serão perfeitas, quando as pessoas a nosso redor funcionarão como agentes perfeitos de nosso mundo idealizado. Muitas vezes até “pintamos” uma vida nova em nosso discurso, em nossas resoluções de fim de ano, após ouvir uma mensagem marcante, em pequenas atitudes que reorganizam o ambiente sem mudar nosso coração. O pior acontece quando tentamos pintar uma nova igreja, tentando projetar nos irmãos à nossa volta a culpa por nossa falta de fé. Esperamos que a igreja mude em suas práticas e doutrinas, esperamos que os irmãos mudem em suas atitudes, às vezes até oramos por isso, mas não estamos realmente abertos à transformação.

Cada um de nós é responsável por pagar o preço necessário para seguir o Senhor, e alcançar o prêmio da soberana vocação. Não podemos esperar que o mundo mude, ou até mesmo que os irmãos mudem. Cada um precisa pagar o preço necessário para seguir o caminho que Deus lhe mostrou. “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado” (1 Co 7:17). Não podemos olhar para as pessoas à nossa volta e esperar uma reação. Nossa falta de fé faz com que nos fiemos naquilo que vemos e conhecemos. Nossa falta de fé nos faz apreciar demasiadamente o ‘status-quo’, o conforto da ‘salvação coletiva’. O conforto de projetar na igreja, especialmente nos líderes, a responsabilidade por nossa salvação. Nos contentamos com a aparência de santidade da rotina de nossa vida cristã e congregação, e fechamos os olhos para a real obediência à Palavra. A obediência que traz real transformação.

O Senhor Jesus é diferente. Ele não vê como vê o homem. Ele vê o coração. Em Seu ministério terreno Ele cuidou das feridas, das doenças, da fome, mas Sua intenção era gerar fé no coração daqueles a quem servia. Ele não encheu Seus próprios discípulos de poder ou de uma coragem sobrenatural. Ele não os tornou imortais, nem os livrou de qualquer das limitações exteriores que sempre sofreram. Em seu ministério, Sua morte e Ressurreição, o Senhor Jesus não pintou um mundo novo. Ele nos trouxe libertação. Ele nos deu vida.

Também, precisamos perceber que não é possível que sejamos transformados por uma nova conduta, uma nova maneira de vida, uma nova agenda. Não somos justificados, nem transformados, por aperfeiçoar nossa carne. Precisamos da graça que vem pela fé. Não importa quão perfeita seja a lei que formulemos em nossa mente ou quão detalhado seja nosso novo livro de conduta, “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3:11). Uma nova lei, uma nova conduta, uma nova aparência, nada disso nos salvará. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2:8).

Há salvação para os Egípcios. Há salvação para o Egito. Há salvação para todo aquele que crê no nome de Jesus e desfruta graça Nele. “Porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12). Os que crêem nesse nome não têm poder para controlar o ambiente à sua volta, mas receberam o privilégio de serem feitos filhos de Deus (Jo 1:12). Isso faz toda diferença. Essa é a mudança interior que preciso. É a transformação verdadeira: uma vida diferente, uma nova vida, crescendo, se expressando, me definindo, me movendo, determinando a direção de cada um de meus passos.

Já “pintei” novos começos, já mudei atitudes exteriores e, inevitavelmente, errei, caí, me desgastei. E agradeço ao Senhor por cada uma de minhas falhas, cada um dos novos começos mal sucedidos. Também já me desapontei com os filhos de Deus, especialmente os de maior reputação, por que esperava deles a orientação e o modelo de sucesso para minha carreira cristã. Agradeço ao Senhor por cada falha, cada uma das oportunidades de perceber que meu homem exterior, o velho homem, não pode ser aperfeiçoado, não tem esperança. Agradeço ao Senhor, também, por cada oportunidade de perceber que todos os meus irmãos são falhos como eu. “Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus. Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2 Co 4:15-16).

Agradeço ao Senhor, ainda mais, por Sua graça, que é concedida mediante a fé. A graça, que é experimentada nos nossos pequenos passos de fé, essa faz com que meu homem interior se renove, cresça e vença. Agradeço ao Senhor por cada oportunidade de me voltar à Palavra. Por cada oportunidade de crer e confessar. Escrever esse texto foi uma dessas oportunidades. Creio mais, desfrutei mais graça. Quero crer mais, desfrutar mais graça. E encorajar a todos a desfrutar salvação no nome de Jesus, “para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 4:16).

Que o Senhor Jesus seja contigo!