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Porque não deixei de me congregar com a Igreja

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Semana passada, um amigo de infância sofreu uma enorme perda. No grupo de WhatsApp dos “brothers”, outro irmão enviou uma mensagem informando o que havia acontecido e nos encorajando a prestar todo apoio, em oração e no que mais fosse possível. Ele terminou essa mensagem dizendo: “É por isso que estamos no Corpo de Cristo. Então, agora vamos agir como o Corpo”.

Quando falamos do Corpo de Cristo, é muito comum pensarmos na contribuição, o serviço de cada membro, na vida eclesiástica, nas reuniões ou cultos da igreja com a qual congregamos. Essa tendência é bastante forte, mesmo sendo comum a pregação que atrela o conceito de corpo ao dia-a-dia, ao convívio e cuidado mútuo, para além da reuniões.

Eu tive a bênção de ter uma experiência saudável de corpo. Sou uma pessoa naturalmente introvertida. Mas tenho um grupo enorme, e duradouro, de amigos. São amigos que tenho desde a infância e a mais tenra juventude porque convivíamos na vida cristã normal. Não apenas nos encontrávamos nas reuniões, mas havia um contato constante. Havia liberdade, cuidado e unidade entre as famílias. Tanto que alguns de nós, quando criança ou jovens, chamavam as irmãs da igreja de mãe também. Mamãe Loide, mamãe Guiomar etc.

E ainda hoje experimentamos essa vida de corpo, pois, mesmo morando em diferentes cidades e congregando em diferentes igrejas, ainda buscamos suportar uns aos outros no amor, na fé e na Palavra.

Há no entanto, um certo “desencanto” com a visão da Igreja com Corpo de Cristo. E há um número cada vez maior de irmãos que se afastam de suas denominações e grupos cristãos organizados à procura de uma experiência mais genuína ou mais pura com Deus. É fácil generalizar e menosprezar todo um conjunto de contextos, experiências e aspirações, embalando todo mundo num título demeritório como “desigrejado” ou “rebelde”.

Eu entendo que a decepção acontece justamente quando a vida eclesiástica, a vida de ajuntamentos públicos, conferências, publicações etc, não se ajusta à expectativa ou à imagem que se tem do Corpo. Não se parece com aquela dinâmica de edificação mútua, em amor, descrita em Efésios (Ef 4:2, 12-16; 5:2). Infelizmente, é inegável que ainda temos muitas divisões, disputas em defesa de um ministério em detrimento de outro, em defesa de um entendimento teológico em detrimento de outro. Não somos perfeitos. Nosso líderes não são perfeitos. Erramos, participamos ou damos ensejo a muitas dessas disputas. O resultado é que o mundo nos vê divididos e muitos irmãos abandonam os grupos em que congregam em decorrência disso, seja por desapontamento, esgotamento, perseguição ou uma série de outras razões.

Elias teve uma experiência de se afastar da congregação de Israel. Note que, à época, Israel era uma nação dividida e idólatra, que, sob a liderança de Jezabel, buscava a morte dos que adoravam ao verdadeiro Deus de Israel. Com a porção que recebeu diretamente de Deus, ele teve foças suficientes para chegar em Horebe e se alojar em uma caverna (1 Rs 19:5-8). No caso específico de Elias, Deus não o mandou sair. Ele saiu fugindo da perseguição. Mesmo assim, o Senhor o alimentou na jornada.

Além disso, na caverna, Elias teve uma comunhão pessoal com Deus que começou com a pergunta: “Que fazes aqui, Elias?” A resposta foi “(…) mataram os teus profetas às espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida” (vs. 9-10). É interessante observar que Deus perguntou o que Elias estava fazendo e ele apresentou como resposta o que Israel estava fazendo. Deus, então, mandou que Elias saísse da caverna e se apresentasse a Ele. Lá fora, um vento forte a ponto de fender os montes, mas o Senhor não estava no vento. Depois um terremoto, mas o Senhor não estava nele. Depois um fogo ardente, mas o Senhor também não estava no fogo. Por fim, um cicio tranquilo e suave e Elias entendeu que o Senhor estava, finalmente, ali. Por isso cobriu o rosto e saiu da caverna. Então, o Senhor lhe perguntou novamente: “Que fazes aqui, Elias?”. Elias repetiu exatamente a mesma resposta (vs. 11-14).

O Senhor, então, mandou que ele fosse até a Síria ungir a Hazael como rei. Também ordenou ungir a Jeú como rei de Israel e a Elizeu como profeta. E concluiu com a seguinte afirmação: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (vs. 15-18).

Minha conclusão é que, onde quer que eu esteja hoje, não pode ser pior do que a nação de Israel nos tempos de Elias. Se Deus, mesmo naquela Israel, conservou sete mil fieis, porque não conservaria uma proporção ainda maior onde estou hoje? Além disso, o enfoque, na minha comunhão pessoal com Deus, é no que eu estou fazendo, não no grupo. A despeito de quão só e desamparado eu possa me sentir, Deus está ungido reis e profetas – está exercendo Sua soberania absoluta.

Deus não estava no vento forte, que transforma a paisagem fendendo os montes. Não estava no terremoto ou no fogo. Deus não estava fazendo grandes sinais para mudar a situação de Israel. E, provavelmente, não veremos Deus operando mudanças milagrosas na cristandade como um todo. A resposta de Deus não se encaixava nas expectativas de Elias. E a resposta que Deus dá pros problemas da igreja hoje pode não se encaixar nas nossas expectativas. Mas Ele continua sendo Deus, absolutamente soberano.

Meu sentimento, ao apresentar essa passagem, é que, talvez, ainda vamos experimentar muitos problemas no nosso convívio com os irmãos. Haverá problemas de ordem fundamental, como havia em Israel, e nós não seremos capazes de lidar com eles, como Elias não foi. E Deus segue sendo o mesmo. Se for preciso nos afastar, que o Senhor seja gracioso conosco e nos alimente, como fez com Elias, e nos ajude a encontrar um lugar onde possamos ouvir seu cicio suave. Se não for preciso nos afastar, que nos esforcemos, igualmente, para encontrar o Senhor, ouvi-Lo, e atender à Sua voz. O foco será sempre nossa comunhão pessoal com Deus e o que Ele quer que cada um faça, na sua experiência e contexto pessoal.

A experiência real do Corpo, a meu ver, não está na corretude da forma eclesiástica ou do bojo teológico sistemático ao qual o grupo adere. A experiência do Corpo está na percepção de que somos pecadores, frágeis, e de que, sem o Senhor, não somos e não temos nada. O que nos iguala e nos une é nossa desesperadora necessidade Dele. A experiência de Corpo está em desenvolvermos uma vida em comum, uma “cumplicidade” em torno da percepção de que não somos fortes o suficiente para caminharmos sozinhos.

Tenho aprendido a confiar no Senhor e em Seu cuidado específico com cada um de Seus filhos. Quem pode dizer que não foi o Senhor que chamou alguém para fora de sua denominação? Ele chamou os discípulos para fora de um judaísmo envelhecido e vazio. Chamou os reformadores para fora de uma igreja apóstata. E pode ter chamado um irmão que congregava comigo para fora de uma experiência negativa no grupo com o qual me reúno hoje. Por isso não me escandalizo com alguém que se afaste, nem creio que seja necessário fazer campanha para que alguém congregue dessa ou daquela maneira.

No entanto, tive a experiência pessoal de deixar o convívio com um grupo específico e ver muitos dos que saíram na mesma época se enfraquecerem ou se afastarem aos poucos, como Ló, até serem completamente absorvidos por uma cultura, uma cosmovisão e uma maneira de vida sem Deus (Gn 13:11-12). Por isso creio ser importante apresentar um encorajamento e um testemunho positivo a respeito de congregar-se.

O ensinamento apostólico nos adverte que não deixemos de congregar-nos (Hb 10:25). É importante ressaltar que essa admoestação foi dada num contexto em que autor de Hebreus nos ensina sobre o privilégio dos crentes de acesso à presença de Deus. Congregar-se, nesse contexto, não nos leva à presença de Deus. Pelo contrário, experimentar a presença de Deus é que nos habilita a manter a prática, o costume, de congregar-nos. Depois de adentrarmos, com intrepidez, no Santos dos Santos, pelo novo e vivo caminho que Ele mesmo nos consagrou pelo véu (vs. 19-20), precisamos guardar firme a confissão da esperança (v. 23); estimularmos, uns aos outros, ao amor e às boas obras (v. 24); e, finalmente, não deixar de congregar-nos (v. 25).

Então, uma vida cristã normal começa com uma experiência individual saudável, que nos habilita a uma experiência corporativa saudável. A raiz, o fundamento, é o exercício do direito ao Santo dos Santos. Congregar-se é um dos frutos. Logo, numa situação de normalidade, estaremos nos congregando: seja no contexto de um ministério que agrega milhares de pessoas, em centenas de países, seja no contexto de duas ou três famílias que suportam umas às outras no amor de Cristo. Ambos – o ministério gigantesco e o grupinho de famílias – são apenas parte do Corpo de Cristo.

No fim, o que importa é que, quando um irmão sofra uma grande perda, nós sejamos capazes de chorar com ele. Que tenhamos o mínimo de intimidade, pelos menos pra sermos avisados dos problemas. Que, na hora da provação, os irmãos saibam o nosso telefone e saibam que podem contar conosco, porque estaremos prontos a consolar, a servir. É por isso que estamos no Corpo de Cristo. E é por isso que eu não deixei de me congregar com a Igreja.