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A doçura do caos

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Temos vivido, minha esposa e eu, um período de completa indefinição. Estamos de retorno a nosso país, mas não nos próximos meses. Mas, talvez, nos próximos meses. Não temos muito. O que precisamos para uma casa foi vendido: não temos pratos ou talheres, nem sofá ou cama… Por outro lado, temos várias coisas que não nos interessam ou que não podemos levar conosco: um aquecedor de água, uma fruteira, vasos de flores. Algumas coisas queremos levar: pratos decorativos, talvez um tapete. Mas não temos espaço ou limite de peso suficientes.

Nada se ajusta. Nada acontece normalmente. Não há respostas simples para nada. Já não estamos aqui – em muitos sentidos, mas ainda não estamos lá. Quando chegarmos lá, de certa forma, não teremos para onde ir. Embora, evidentemente, tenhamos vários familiares e amigos, amados irmãos, que nos esperam e estariam gratos em nos receber prontamente.

Em meio a esse caos, percebemos que não temos lugar algum no mundo. Não temos onde reclinar a cabeça – ainda que o amor fraternal dos filhos de Deus seja nosso sublime conforto nessa terra (Sl 16:3). Resta-nos aguardar uma pátria superior. Em meio ao caos, à loucura da indefinição, percebemos mais claramente a doçura de Cristo. Ele é nossa rocha de salvação. Nosso castelo forte. Nosso rochedo. Ele é a única certeza. O único ponto de estabilidade.

Graças ao Senhor pela bagunça, pela fragilidade, pela instabilidade de nossas vidas no mundo. Graças ao Senhor pelos problemas que desmascaram as mentiras do mundo, que desfazem a certeza do sistema injusto do mundo. Nossa situação caótica me fez considerar a maneira como o Senhor lidava com o mundo, com o caos à Sua volta.

O Senhor Jesus não tinha nenhuma esperança no mundo. Quando falava do mundo, o cosmo, o sistema que move a vida na terra, Ele não emitia opiniões nem lançava sugestões de melhoria. Ele veio para salvar aqueles que estavam perdidos, e não para mudar o mundo.

“Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo” (Jo 12:47).

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; (…) Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.“ (Jo 17:9, 14).

Nós, cristãos, no entanto, fomos ensinados a defender nosso ponto de vista, nosso juízo. Somos encorajados a defender nossos valores e, ultimamente, até a militância política em favor da defesa dos valores cristãos tem se tornado tema e base das pregações e sermões. Não somos como o Senhor. Ele queria salvar aqueles que estavam no mundo. Nós, ao contrário, tentamos salvar o mundo. E, nessa tentativa, muitas vezes até mesmo odiamos as pessoas.

De vez em quando, por Sua infinita graça e misericórdia, o Senhor “chacoalha” nosso mundo. Ele quer nos desairragar, nos livrar dos laços que nos envolvem tão fortemente nos negócios deste século. Ele quer salvar todo homem do laço do pecado. Mas também quer salvar todo homem do laço da independência, da humanização do mundo, do antropocentrismo. O Senhor Jesus é nosso único bem. Nossa única esperança. Ele deve ser nossa única busca. Nossa única militância. Tudo o mais é passageiro, irreal, desnecessário.

Esses “terremotos” podem ser desilusões, acidentes ou simples conclusões a que chegamos pela luz da Palavra. Por vezes, precisamos perder uma oportunidade na carreira para perceber que o Senhor é mais importante. Outras vezes, precisamos perder um bem valioso. Talvez, enfrentar um período de enfermidade. Jó passou por quase tudo: perdeu bens, perdeu aqueles a quem amava. Jó perdeu sua honra. De homem justo e respeitado, passou a um miserável que se justificava diante de seus amigos, tentando convencê-los de sua inocência (Jó 1:1-3; 19:1-4). Ao fim da história de Jó, no entanto, não vemos uma “auto-descoberta”, ou qualquer correção no caráter ou no quotidiano de Jó. Ele se arrependeu, mudou sua mente, quando viu o Senhor.

 “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

O Senhor, com Seu amor, destruirá muitos de nossos sonhos e tornará em pó muitas de nossas esperanças. O que Ele quer? Retirar nossos olhos das coisas – materiais ou imateriais; presentes, passadas ou futuras – e voltar toda nossa atenção a Ele mesmo. Se O virmos, mudaremos completamente. Que doce ver a face de Cristo, ainda que em meio à loucura do caos!

 “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.” (2 Co 4:6)