Um ano e pouco de paternidade (2)

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Recentemente escrevi sobre como o nascimento de minha filha me fez ver o amor de Deus com novos olhos. O nascimento dela, desde a gestação, também me fez ver a vida cristã com novos olhos. Minha esposa e eu, pais de primeira viagem, ficamos muito empolgados já nos primeiros dias de gravidez. Fomos logo fazer uma ultrassonografia e, para nossa decepção, não vimos nada. Ou melhor, não vimos nada do que esperávamos: havia apenas um saco gestacional.

Então, considerando a frágil vida humana como um tipo, uma figura, da vida nova, superior e indissolúvel que recebemos como filhos de Deus, entendi que a vida cristã não começa com o cristão: ela começa com o ambiente onde o cristão é gerado. De onde o cristão recebe nutrientes, onde é guardado, preparado. E o Espírito me fez entender que esse “lugar” é Cristo.

pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,”
(Cl 1:16-18)

“aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz”
(Ef 2:15)

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”
(1 Pe 1:3)

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”
(Rm 6:4)

Parece óbvio, mas a dificuldade que temos em praticar, em experimentar, isso mostra que muitas vezes não entendemos que tudo na vida cristã começa em Cristo, que a novidade de vida é resultado de nossa união e proximidade com Ele. O crescimento começa em Cristo. Os frutos do Espírito têm sua origem Nele. A vitória sobre nossas muitas falhas de caráter começa Nele. Mas, mesmo sabendo disso, Cristo continua sendo o último recurso. Como bons cristãos, geralmente nos policiamos em muitos assuntos. Nos exercitamos na busca da piedade, buscamos sabedoria e, quando percebemos que é impossível recorremos a Ele.

Continuando a história da Tirza: Talita e eu, pais empolgados, voltamos na semana seguinte e, para nossa alegria, na segunda ultrassonografia vimos o que viria a ser a Tirza. Naquele momento era um minúsculo coraçãozinho, pulsando freneticamente. Então aprendemos que em torno daquele coraçãozinho um sistema nervoso se desenvolveria, e, com o desenvolvimento do sistema nervoso os outros sistemas se desenvolveriam até que, em torno daquele coração, houvesse uma pessoinha completa.

O escritor de provérbios, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu:

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida
(Pv 4:23)

Ao acompanhar a formação da Tirza passei a ter uma percepção completamente diferente desse versículo. Eu sempre tomava essa passagem como uma orientação no sentido de que meu coração deveria ser enchido daquilo que edifica, daquilo que traz vida. Isso estaria intrinsecamente ligado à orientação de guardar um bom depósito (2 Tm 1:14). Mas não é apenas uma questão de “controlar o acesso” ao coração, de receber apenas coisas boas, edificantes, espirituais. A questão é ter um coração novo, bom, espiritual. O coração é a fonte da vida por que é em torno do coração que se forma o homem, que se forma toda a vida que vivemos. Um homem novo, espiritual, procede de um coração novo, espiritual.

Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.”
(Ez 36:26-27)

“seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus.”
(1 Pe 3:4)

“Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.”
(Rm 2:29)

O coração, evidentemente, tem uma conotação subjetiva. Está relacionado aos desejos mais profundos, aos anseios, às preferências. É em torno dessa identidade mais profunda que se formam nossas convicções. E é dela que partem as decisões que mais impactam nossa vida e a vida daqueles ao nosso redor. A partir do coração formou-se o sistema nervoso da Tirza, e, com o sistema nervoso, tudo aquilo que comporia uma nova pessoa. Assim também, a partir do meu coração desenvolvem-se minha mente, minhas convicções, vontades e escolhas e, consequentemente, meus hábitos. Um coração novo leva imediatamente a uma mente nova, a essa mente a um novo homem com um novo viver. O fruto da renovação do coração é uma vida nova, que experimenta a agradável, boa e perfeita vontade de Deus.

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”
(Rm 12:1-2)

Enfim, a maneira miraculosa como a Tirza foi gerada me mostrou que preciso estar em Cristo. Nele, um coração novo é criado. Um coração novo gera um novo homem, habilitado a experimentar a vontade de Deus, pronto para as boas obras, as quais Ele preparou de antemão para andássemos nelas. Quantas lições nessa pequena vida!

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
(Ef 2:10)

Um ano e pouco de paternidade (1)

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Estive bastante ocupado no último ano. Tanto que não escrevo nada neste canal há muito tempo. Graças ao Senhor, ontem completei um ano e três meses de paternidade. Isto é, Tirza, o presente que Deus deu a mim e à minha esposa, completou um ano e três meses. Com a chegada da Tirza, Deus alterou profundamente muitos aspectos de minha vida. Ele operou em minha fé, e um dos aspectos mais marcantes foi a respeito do amor de Deus.

Eu, que sou um homem mal, ao saber da gravidez de minha esposa, desenvolvi imediatamente um grande e inexplicável amor por aquela “pessoinha” que seria gerada. Ela não tinha nada a me oferecer. Nunca me fizera qualquer favor. Eu nem a conhecia. Mas a amei. Meu amor humano e falho pela minha filha me fez entender, valorizar e desfrutar de maneira muita nova e intensa o amor perfeito e eterno que Deus tem por nós.

“Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lc 11:13)

Mas, de certa forma, meu amor pela Tirza se explica pelo fato de que ela representa uma continuidade daquilo que sou. Me orgulho quando a elogiam. E, em todos os aspectos que pude verificar, ela é melhor do eu sou. Mais tranquila, mais pura, mais doce. É fácil amá-la. Deus, entretanto, me amou e me acolheu sendo eu não apenas contrário ao que Ele é, mas até mesmo abominável. Ele me olhou com compaixão, e com amor me quis como filho. Não só me recebeu, mas deu a Sua própria vida para me gerar como filho legítimo. O justo pelo injusto.

“Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles.” (Hb 2:10)

Em minha fraqueza, minha condição frágil e mortal, não tenho nada a oferecer. Não há nada de que o Criador necessite. Afinal, Ele trouxe tudo à existência. O amor do Pai por mim não advém daquilo que eu represento ou possa oferecer. Aliás, diante de Seu amor por mim, a única coisa que posso oferecer em retorno é a vida que já pertence a Ele. Pois Dele recebemos a vida, respiração e tudo mais. A única reação possível, então, é viver em resposta a esse tão vasto e profundo amor.

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.” (Ef 5:1-2)

E agora, por que amo minha filha e por que, dentro de minhas limitações, conheço o amor de Deus, tenho uma oração diária: que ela conheça esse amor. Eu me preocupo por que sei que muitos desafios virão, e devo me preparar para prover adequadamente muitas necessidades psicológicas e materiais, e em todos os aspectos da vida da Tirza. Mas nada me preocupa tanto quanto a necessidade de mostrar para minha filha, em minha própria vida, o amor de Deus. Não há nada que eu possa fazer que sequer chegue perto daquilo que Deus é, tem preparado e pode suprir para ela. Tenho certeza de que, no momento em que ela tocar esse amor, a vida dela terá sentido, terá esperança. E ela será suprida de toda sorte de bênção. E, em meio a toda essa preocupação, quando oro pedindo a Deus que conduza essa pequenina a Seu próprio amor, meu coração se enche de paz e conforto. Eu sei que Deus a ama.

 

O poder de mudar o mundo

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Li hoje no jornal Le Monde: “Avec suffisamment de passion, chacun de nous peut changer le Monde” – Com suficiente paixão, qualquer um de nós pode mudar o mundo. Minha primeira reação foi a de rejeitar a idéia. Pensei: “por mais que seja apaixonado por Jesus, e por mais paixão que possa empregar na luta por convencer o mundo a viver uma vida digna do filho de Deus, não posso transformar o mundo. Não posso transformar os valores compartilhados, o ideais, o contrato social”.

Depois de considerar um pouco mais a questão, percebi que estava misturando dois conceitos: mudar pessoas é uma coisa; mudar o mundo em que vivem é outra. Então percebi que, na verdade, é bem possível mudar o mundo. E há poder para mudar o mundo no próprio mundo. Grandes heróis e simples donas de casas já mudaram o mundo. A navegação continental do séc. XIV mudou o mundo. A revolução industrial mudou o mundo. A genialidade de Albert Einstein mudou o mundo. A teimosia de Rosa Parks, ao não ceder seu assento no ônibus, mudou o mundo. Mudar o mundo, realmente, requer apenas paixão suficiente. Talvez um pouco de espaço na mídia ajude.

Isso me ajudou a entender um pouco melhor, e apreciar um tanto mais, o amor de Deus por nós. “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” [1 Jo 5:19]. Mas, quando estávamos mortos, jazendo no mundo, e o mundo inteiro morto, jazendo no Maligno, fomos resgatados, redimidos, regenerados, ressuscitados. “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” [Jo 3:16]. O Senhor veio e nos salvou nesse mundo. Ele não veio mudar o mundo para ganhar as pessoas do mundo. Ele veio ao mundo para salvar pecadores, para dar-lhes um novo e vivo caminho. O mundo simplesmente não importa mais. Não estamos presos a ele, e sua condição não é mais, necessariamente, nossa condição.

E quando penso em fazer com que as pessoas reajam ao sacrifício de Jesus na cruz, que reajam amando ao Senhor e entregando-se a Ele, o que pretendo é mudar as pessoas, não o mundo. Mudar o mundo é simples, mas mudar pessoas é o desafio impossível. Nem mesmo uma lavagem cerebral, nem mesmo um sistema de controle intenso e avançadíssimo pode mudar uma pessoa.

Mas Deus pode mudar pessoas. Ou melhor, só Deus tem competência para mudar pessoas. Para mudar quem somos e para transformar as pessoas à nossa volta. Essa, aliás, é a obra prima de Deus: nossa transformação. O grandioso Deus, que estendeu os céus, fundou a terra e formou o espírito do homem dentro dele, tem uma obra maior, mais perfeita e completa, a obra que melhor expressa a suprema grandeza de Sua sabedoria: a transformação genuína daqueles que Nele crêem.

Creio que foi com esse mesmo sentimento que o apóstolo Paulo escreveu: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” [Fp 1:6]. A boa obra de Deus é fazer-nos seres humanos completos, com liberdade para escolhê-Lo e para efetivamente viver essa escolha, para sempre. A condição mortal, pecaminosa, sujeita ao engano da concupiscência dos olhos e da soberba da vida, nos faz menos do que homens. Nos faz menos do que o homem criado por Deus do pó da terra. E a salvação em Jesus não apenas nos traz de volta àquela condição original, ela surpassa em muito e nos eleva à condição de uma nova criação, um novo homem. Uma criação que não é baseada no pó da terra, mas em justiça e retidão, procedentes da verdade [Ef 4:24].

Essa transformação maravilhosa começou em nós no dia em que recebemos o evangelho. O evangelho que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O evangelho que é o poder de Deus para mudar as pessoas do mundo, livrá-las do mundo. E toda essa conversa sobre mudar o mundo – que inicialmente despertou em mim o pensamento derrotista de ‘desistir’ do mundo – acabou por despertar e aumentar em mim a percepção do amor de Deus e, consequentemente, a paixão pelo evangelho. Pode ser que nem todas as pessoas aceitem a salvação pela fé no evangelho, mas o evangelho é suficiente para todas as pessoas. Nessa semente incorruptível está o poder para transformar o mundo inteiro, toda e cada pessoa no mundo. Eu não tenho poder para mudar pessoas, ou mesmo para mudar o mundo, mas posso evangelizar. Posso me tornar cooperador do evangelho. Paulo também percebeu isso, e declarou: “Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele” [1 Co 9:23]. Também posso receber e ajudar aqueles que estão evangelizando o mundo, pois, como disse o apóstolo João, “devemos acolher esses irmãos, para nos tornarmos cooperadores da verdade” [3 Jo 1:8].

Graças a Deus!