Existe coincidência?

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Estava conversando com um grande amigo e irmão na fé sobre uma série de eventos que me ocorreram. Então surgiu a pergunta: “Você não acha que é muita coincidência?”. Ao que eu respondi, tranquila e laconicamente: “Não.”

É claro que coincidências, na acepção de “simultaneidade de diversos acontecimentos”, como na definição dada pelo Priberam, existem. A questão mais profunda naquela pergunta era, na verdade, se eu acreditava que Deus estaria arranjando os acontecimentos numa ordem específica pra me apontar uma determinada direção.

Sim, eu creio que Deus pode arranjar acontecimentos numa ordem específica de modo a conduzir alguém a uma ação específica. Deus pode tudo. Creio que essa seja uma lição, por exemplo, na história de José. Ter mercadores passando por perto exatamente no dia em que seus irmãos o lançaram no poço? Ter o copeiro de faraó na mesma cela? Vários eventos na história de José parecem ser “coincidência demais”. E de fato foram. José sabia disso, e por isso mesmo afirmou: “Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito.” (Gn 45:7-8).

No entanto, saber que Deus pode arranjar os fatos para conduzir alguém a realizar alguma “missão” não me leva a concluir que sempre que me deparo com uma coincidência estou diante de um “chamado de Deus” ou algo do tipo. É verdade, Deus exercita sua vontade soberana arranjando eventos com Lhe apraz. A Bíblia nos traz diversos exemplos. Também é verdade que que Ele arranjou soberanamente diversos fatos para conduzir Seu povo. Vejo nesses exemplos a muita misericórdia e a longanimidade de Deus. Ele fala conosco e, por Sua bondade, nos conduz de diversas maneiras.

Essa percepção não nos obriga, entretanto, a procurar explicação pra tudo. Também não obriga a Deus a nos prover explicação ou direção em tudo. Já vi mestres cristãos ensinando que “o crente não pode se satisfazer em não entender”. Que “o cristão genuíno tem que buscar conhecer a vontade de Deus em tudo o que acontece com ele”. Minha impressão é que esses teólogos do “busque explicação pra tudo” se assentam na cadeira de Moisés, como os escribas e fariseus, e “atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los” (Mt 23:4).

Somos todos falhos. Temos pouca fé. Nosso coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto (Jr 17:9). Como nos prova a experiência de Jó, nem mesmo uma longa vida de fé e obediência nos capacita a entender plenamente os desígnios de Deus. Sempre existirão coisas maravilhosas demais para nosso pequeno e corrupto coração (Jó 42:3).

Além disso, a história de Rute nos mostra que, por muitas vezes, o arranjo soberano de Deus perpassa diversas gerações. Boaz, como parente mais próximo, pode ter exercido seu dever de resgatar uma viúva. Mas, muito antes que Boaz existisse, Deus a alimentou e sustentou, ordenando aos Israelitas: “Quando também segares a messe
da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” (Lv 19:9-10).

Note que essa lei, acerca de não rebuscar campos para alimentar o pobre e estrangeiro, foi dada ao povo enquanto estes comiam do maná que Deus lhes provia do céu, e bebiam de uma pedra que os seguia. E a pedra era Cristo (1 Co 10:3-4). Há um arco de centenas de anos entre o estabelecimento da lei e seu impacto prático na vida de Rute. E de Rute, Boaz gerou a Obede. Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi (Rt 4:21-22). Há um arco ainda maior entre o resgate de Rute e o nascimento de “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1:1).

O Senhor, nosso Deus, é Fiel. E guarda Sua aliança e misericórdia até mil gerações aos que O amam e O obedecem (Dt 7:9). Quando for possível entender Seu arranjo e seguir Sua direção, sigamos com plena confiança. Quando não nos for possível entender os tempos, sigamos, ainda mais assim, em total confiança Nele. O requisito da fé, pra que nos aproximemos Dele, não é que entendamos os Seus caminhos, mas que creiamos que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que O buscam (Hb 11:6).

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.

Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre.

Salmo 131

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Comments (1)

  • MAURILIO CORREIA CESAR

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    Meu irmão e amigo Stefano, apesar de você ter me dito que por não ter passado pelo que estou passando não saberia como orientar ou consolar, entretanto as palavras desse texto encaixaram como luva na nossa necessidade!!! Tal como Paulo não estou mesmo não estando casada orientou os casais, você mesmo não passando pela mesma situação pode nos consolar!! Obrigado meu irmão!!

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