“Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4:10-16)

Porque não deixei de me congregar com a Igreja

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Semana passada, um amigo de infância sofreu uma enorme perda. No grupo de WhatsApp dos “brothers”, outro irmão enviou uma mensagem informando o que havia acontecido e nos encorajando a prestar todo apoio, em oração e no que mais fosse possível. Ele terminou essa mensagem dizendo: “É por isso que estamos no Corpo de Cristo. Então, agora vamos agir como o Corpo”.

Quando falamos do Corpo de Cristo, é muito comum pensarmos na contribuição, o serviço de cada membro, na vida eclesiástica, nas reuniões ou cultos da igreja com a qual congregamos. Essa tendência é bastante forte, mesmo sendo comum a pregação que atrela o conceito de corpo ao dia-a-dia, ao convívio e cuidado mútuo, para além da reuniões.

Eu tive a bênção de ter uma experiência saudável de corpo. Sou uma pessoa naturalmente introvertida. Mas tenho um grupo enorme, e duradouro, de amigos. São amigos que tenho desde a infância e a mais tenra juventude porque convivíamos na vida cristã normal. Não apenas nos encontrávamos nas reuniões, mas havia um contato constante. Havia liberdade, cuidado e unidade entre as famílias. Tanto que alguns de nós, quando criança ou jovens, chamavam as irmãs da igreja de mãe também. Mamãe Loide, mamãe Guiomar etc.

E ainda hoje experimentamos essa vida de corpo, pois, mesmo morando em diferentes cidades e congregando em diferentes igrejas, ainda buscamos suportar uns aos outros no amor, na fé e na Palavra.

Há no entanto, um certo “desencanto” com a visão da Igreja com Corpo de Cristo. E há um número cada vez maior de irmãos que se afastam de suas denominações e grupos cristãos organizados à procura de uma experiência mais genuína ou mais pura com Deus. É fácil generalizar e menosprezar todo um conjunto de contextos, experiências e aspirações, embalando todo mundo num título demeritório como “desigrejado” ou “rebelde”.

Eu entendo que a decepção acontece justamente quando a vida eclesiástica, a vida de ajuntamentos públicos, conferências, publicações etc, não se ajusta à expectativa ou à imagem que se tem do Corpo. Não se parece com aquela dinâmica de edificação mútua, em amor, descrita em Efésios (Ef 4:2, 12-16; 5:2). Infelizmente, é inegável que ainda temos muitas divisões, disputas em defesa de um ministério em detrimento de outro, em defesa de um entendimento teológico em detrimento de outro. Não somos perfeitos. Nosso líderes não são perfeitos. Erramos, participamos ou damos ensejo a muitas dessas disputas. O resultado é que o mundo nos vê divididos e muitos irmãos abandonam os grupos em que congregam em decorrência disso, seja por desapontamento, esgotamento, perseguição ou uma série de outras razões.

Elias teve uma experiência de se afastar da congregação de Israel. Note que, à época, Israel era uma nação dividida e idólatra, que, sob a liderança de Jezabel, buscava a morte dos que adoravam ao verdadeiro Deus de Israel. Com a porção que recebeu diretamente de Deus, ele teve foças suficientes para chegar em Horebe e se alojar em uma caverna (1 Rs 19:5-8). No caso específico de Elias, Deus não o mandou sair. Ele saiu fugindo da perseguição. Mesmo assim, o Senhor o alimentou na jornada.

Além disso, na caverna, Elias teve uma comunhão pessoal com Deus que começou com a pergunta: “Que fazes aqui, Elias?” A resposta foi “(…) mataram os teus profetas às espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida” (vs. 9-10). É interessante observar que Deus perguntou o que Elias estava fazendo e ele apresentou como resposta o que Israel estava fazendo. Deus, então, mandou que Elias saísse da caverna e se apresentasse a Ele. Lá fora, um vento forte a ponto de fender os montes, mas o Senhor não estava no vento. Depois um terremoto, mas o Senhor não estava nele. Depois um fogo ardente, mas o Senhor também não estava no fogo. Por fim, um cicio tranquilo e suave e Elias entendeu que o Senhor estava, finalmente, ali. Por isso cobriu o rosto e saiu da caverna. Então, o Senhor lhe perguntou novamente: “Que fazes aqui, Elias?”. Elias repetiu exatamente a mesma resposta (vs. 11-14).

O Senhor, então, mandou que ele fosse até a Síria ungir a Hazael como rei. Também ordenou ungir a Jeú como rei de Israel e a Elizeu como profeta. E concluiu com a seguinte afirmação: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (vs. 15-18).

Minha conclusão é que, onde quer que eu esteja hoje, não pode ser pior do que a nação de Israel nos tempos de Elias. Se Deus, mesmo naquela Israel, conservou sete mil fieis, porque não conservaria uma proporção ainda maior onde estou hoje? Além disso, o enfoque, na minha comunhão pessoal com Deus, é no que eu estou fazendo, não no grupo. A despeito de quão só e desamparado eu possa me sentir, Deus está ungido reis e profetas – está exercendo Sua soberania absoluta.

Deus não estava no vento forte, que transforma a paisagem fendendo os montes. Não estava no terremoto ou no fogo. Deus não estava fazendo grandes sinais para mudar a situação de Israel. E, provavelmente, não veremos Deus operando mudanças milagrosas na cristandade como um todo. A resposta de Deus não se encaixava nas expectativas de Elias. E a resposta que Deus dá pros problemas da igreja hoje pode não se encaixar nas nossas expectativas. Mas Ele continua sendo Deus, absolutamente soberano.

Meu sentimento, ao apresentar essa passagem, é que, talvez, ainda vamos experimentar muitos problemas no nosso convívio com os irmãos. Haverá problemas de ordem fundamental, como havia em Israel, e nós não seremos capazes de lidar com eles, como Elias não foi. E Deus segue sendo o mesmo. Se for preciso nos afastar, que o Senhor seja gracioso conosco e nos alimente, como fez com Elias, e nos ajude a encontrar um lugar onde possamos ouvir seu cicio suave. Se não for preciso nos afastar, que nos esforcemos, igualmente, para encontrar o Senhor, ouvi-Lo, e atender à Sua voz. O foco será sempre nossa comunhão pessoal com Deus e o que Ele quer que cada um faça, na sua experiência e contexto pessoal.

A experiência real do Corpo, a meu ver, não está na corretude da forma eclesiástica ou do bojo teológico sistemático ao qual o grupo adere. A experiência do Corpo está na percepção de que somos pecadores, frágeis, e de que, sem o Senhor, não somos e não temos nada. O que nos iguala e nos une é nossa desesperadora necessidade Dele. A experiência de Corpo está em desenvolvermos uma vida em comum, uma “cumplicidade” em torno da percepção de que não somos fortes o suficiente para caminharmos sozinhos.

Tenho aprendido a confiar no Senhor e em Seu cuidado específico com cada um de Seus filhos. Quem pode dizer que não foi o Senhor que chamou alguém para fora de sua denominação? Ele chamou os discípulos para fora de um judaísmo envelhecido e vazio. Chamou os reformadores para fora de uma igreja apóstata. E pode ter chamado um irmão que congregava comigo para fora de uma experiência negativa no grupo com o qual me reúno hoje. Por isso não me escandalizo com alguém que se afaste, nem creio que seja necessário fazer campanha para que alguém congregue dessa ou daquela maneira.

No entanto, tive a experiência pessoal de deixar o convívio com um grupo específico e ver muitos dos que saíram na mesma época se enfraquecerem ou se afastarem aos poucos, como Ló, até serem completamente absorvidos por uma cultura, uma cosmovisão e uma maneira de vida sem Deus (Gn 13:11-12). Por isso creio ser importante apresentar um encorajamento e um testemunho positivo a respeito de congregar-se.

O ensinamento apostólico nos adverte que não deixemos de congregar-nos (Hb 10:25). É importante ressaltar que essa admoestação foi dada num contexto em que autor de Hebreus nos ensina sobre o privilégio dos crentes de acesso à presença de Deus. Congregar-se, nesse contexto, não nos leva à presença de Deus. Pelo contrário, experimentar a presença de Deus é que nos habilita a manter a prática, o costume, de congregar-nos. Depois de adentrarmos, com intrepidez, no Santos dos Santos, pelo novo e vivo caminho que Ele mesmo nos consagrou pelo véu (vs. 19-20), precisamos guardar firme a confissão da esperança (v. 23); estimularmos, uns aos outros, ao amor e às boas obras (v. 24); e, finalmente, não deixar de congregar-nos (v. 25).

Então, uma vida cristã normal começa com uma experiência individual saudável, que nos habilita a uma experiência corporativa saudável. A raiz, o fundamento, é o exercício do direito ao Santo dos Santos. Congregar-se é um dos frutos. Logo, numa situação de normalidade, estaremos nos congregando: seja no contexto de um ministério que agrega milhares de pessoas, em centenas de países, seja no contexto de duas ou três famílias que suportam umas às outras no amor de Cristo. Ambos – o ministério gigantesco e o grupinho de famílias – são apenas parte do Corpo de Cristo.

No fim, o que importa é que, quando um irmão sofra uma grande perda, nós sejamos capazes de chorar com ele. Que tenhamos o mínimo de intimidade, pelos menos pra sermos avisados dos problemas. Que, na hora da provação, os irmãos saibam o nosso telefone e saibam que podem contar conosco, porque estaremos prontos a consolar, a servir. É por isso que estamos no Corpo de Cristo. E é por isso que eu não deixei de me congregar com a Igreja.

Porque voltei a congregar na Igreja

Written by Alisson Countinho on . Posted in Comunhão

Durante 10 anos fiquei afastado da comunidade cristã onde eu congregava. Durante este período, no início eu tentei viver a vida da igreja em pequenos grupos de casas, mas não durou muito tempo, depois tentei conhecer alguns outros grupos cristãos, mas também não prosperou, e por fim, andava por minha própria conta, acreditando que poderia tranquilamente guardar a fé em uma “carreira solo”, afinal de contas, eu pensava: conviver em uma comunidade, seja ela mais orgânica ou mais formal é muito complicado, e às vezes traz mais feridas do que benefícios.

Hoje olhando para trás, consigo traçar um paralelo entre a minha experiência e a experiência de Ló (Gn.13:5). Por causa de algumas dificuldades de convívio, Abraão e Ló decidem se separar. Ló ao se separar de Abraão, faz uma escolha errada e escolhe as terras baixas para se estabelecer e pouco a pouco vai se aproximando de Sodoma, e depois de algum tempo lá ele já está bem adaptado a cultura da região, a ponto dele ter muita dificuldade em abandonar aquele lugar.

Retornando para a minha experiência, nos últimos anos, eu já estava totalmente adaptado a uma vida fora da presença dos irmãos da igreja, já havia refeito todo o meu ciclo social, os meus finais de semana já estavam preenchidos e etc… já não sentia mais nenhuma falta, ou necessidade de conviver com os irmão da igreja. Não que eu considerasse que havia abandonado a fé, mas eu simplesmente aos poucos fui deixando de considerar.

O problema de se afastar de uma comunidade cristã, é que na maioria dos casos, aos poucos, sem perceber, você vai se aproximando de outras formas de convívio, essas outras formas de convívio, também aos pouco, vão fazendo você esquecer quem Deus é, e o que Ele fez e o que Ele está fazendo hoje.

Mas assim como na experiência de Ló, onde Deus, pela Sua misericórdia, envia dois anjos para salvá-lo da destruição de Sodoma, Deus enviou dois anjos para me resgatar da indiferença espiritual e de práticas que não glorificavam mais a Deus. Esses anjos foram minha esposa e meu filho.

Em um certo dia, fruto de uma experiência pessoal da minha esposa (em outra ocasião eu contarei a experiência dela), ela resolve voltar para a igreja, em uma atitude de consagração muito forte, a ponto de ser possível perceber que a esfera dentro de casa havia mudado. E ao retornar para a igreja, ela leva meu filho de 4 anos na época, que passa a gostar muito de frequentar a salinha de crianças, e passa a me convidar todo o final de semana para ir para as reuniões da igreja. Depois de recusar umas tantas vezes, passei a ficar constrangido, e passei a eventualmente aceitar o convite dele. No começo não me sentia a vontade, mas com o tempo, uma fagulha voltou a queimar no meu coração. De alguma forma aquele ambiente foi como um espelho, onde eu pude enxergar a minha atual situação, o que me proporcionou arrependimento. Creio que quando as pessoas se reúnem em nome de Cristo, existe uma benção especial naquele lugar, capaz de operar acontecimentos que não ocorreriam de outra forma.

Ló não deixou de pertencer a família de Abraão quando ele deixou a casa de Abraão, mas Ló perdeu uma coisa preciosa, que era a benção que estava sobre a casa de Abraão.

Quando deixamos de conviver com os irmãos, não deixamos de pertencer a família de Deus, e nem deixamos de ser amado por Ele, mas perdemos uma benção especial que é a benção do Salmo 133: “Oh! Quão bom e agradável é que os irmãos vivam em união… porque ali o Senhor ordena Sua benção e a vida para sempre.”

Um dos desafios da bíblia foi fazer com que os irmãos conseguissem viver em união: Caim teve inveja do seu irmão Abel a ponto de matá-lo, Esaú foi enganado pelo seu irmão Jacó e tentou matá-lo, os irmãos de José não suportaram o ar de superioridade de seu irmão e venderam-no como escravo, o irmão do filho pródigo não suportou o regresso do seu irmão, após desperdiçar toda a herança do seu Pai.

O único irmão na bíblia que conseguiu amar incondicionalmente seus irmãos, foi o nosso irmão mais velho: Jesus. Que Ele possa resolver todos os conflitos existentes entre os seus irmãos mais novos. Que Ele seja, não só o nosso exemplo, mas também o nosso mediador.

O nosso convívio com os irmãos em Cristo deve ser o suficiente para chorarmos com os que choram, alegrarmos com os que se alegram. E se qualquer ferida surgir, ela certamente será cicatrizada bem mais rápido no meu da congregação, onde o óleo da cura é derramado.

(Não) Exite coincidência?

Written by Alisson Countinho on . Posted in Comunhão

Um amigo me incentivou a escrever sobre: “Existe coincidência?”, ou seja, estamos a mercê do acaso, a vida é uma sucessão de acontecimentos aleatórios e diante de muitos acontecimentos monótonos, raras vezes somos surpreendidos por acontecimentos bem improváveis? Ou somos personagens de um livro já previamente escrito. Como disse, poeticamente, o Rei Davi: “… e em Teu livro foram registrados todos os meus dias…” Ou talvez exista uma terceira opção? E se somos personagens de um livro incompleto escrito a duas canetas, ou como gosto de visualizar: escrito a duas penas.

Certa vez em um encontro de jovens, em meio a uma ministração, somado a momentos de êxtase espiritual, tive uma visão em minha mente: Uma enorme biblioteca, daquelas medievais, e um homem escrevia histórias interessantíssimas, e muitos vinham até esta biblioteca para ler essas histórias. Mais tarde na mesma reunião três jovens compartilharam, contando suas experiências de vida e como elas vinham se achando insignificantes, cada uma dentro do seu contexto de vida, e naquele momento pensei comigo que precisava contar para elas sobre o que eu havia acabado de ver: que as histórias delas também estavam registradas naqueles livros e muitos estavam lendo e achando muito empolgante. Mas acabei guardando para mim, por achar que poderia ser muita viagem da minha cabeça.

Gosto de pensar que existe um roteiro, um esboço para cada um de nós, e que alguns por meio da fé conseguem seguir o roteiro, acrescentando muitas nuances aqui e acolá, mas outras pessoas, de alguma forma, como num ato de rebeldia, conseguem se desvencilhar completamente deste roteiro e são entregues a própria sorte.

Se existe coincidência? Não… as coincidências são as partes mais interessantes de nossa história… Com certeza elas são a parte que Ele escreveu.

As histórias que Ele escreveu, serão contadas eternamente. Se você resolveu escrever sozinho, ela será esquecida para sempre. Ainda dá tempo, siga o roteiro.