“Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4:10-16)

É possível mudar um país com tinta?

Written by Stefano Mozart on . Posted in Comunhão

Há alguns dias passei por um grupo de jovens que distribuía panfletos sobre uma nova agremiação civil, talvez política. O conceito de partido ainda não é muito claro para os jovens egípcios. A maioria deles crê que seu grupo ou agremiação merece a participação de todos os cidadãos do país. O jovem que distribuía o panfleto dizia: “vá à Midan Libnan (Praça do Líbano), e inscreva-se também. Já somos mais de 80 milhões. Todo o país vai aderir”. O mais interessante na afirmação é que, segundo dados oficiais, a população inteira do Egito não passa de 79 milhões.

Há semanas, grupos de jovens organizados em escolas ou vizinhanças pintam as calçadas e muros do Cairo. Eles já varreram as ruas, já limparam a Praça Tahrir – palco dos maiores protestos e confrontos. Eles dizem que vão mudar o país. Eles dizem que vão estabelecer um modelo para o mundo inteiro. Um modelo de uma nação justa, organizada e pacífica. Eles vão fazer isso com tinta e pincel. Vão pintar um novo país. É, sem dúvida, um ato cívico importante e até mesmo louvável.

O problema, que a maioria deles não consegue perceber, é que eles estão cuidando apenas de alguns detalhes exteriores, sem realmente transformar os valores e conceitos que governam o país há séculos. Alguns se preocupam com a limpeza, outros com a instalação de sinais de trânsito. Alguns voluntários têm substituídos a polícia de trânsito, controlando o tráfego em alguns cruzamentos, e, devo admitir, têm se saído melhor na tarefa que os policiais. Há também os que se preocupam com aspectos mais profundos da organização política do país, tentando acompanhar a transição do gabinete do governo e saber se os novos indicados não estiveram envolvidos com o antigo regime. Tudo isso, no entanto, é ainda como pintar uma estrutura de madeira totalmente corroída por cupins.

Eles não aceitam ter de esperar numa fila – num restaurante, por exemplo, dez pessoas – com dinheiro nas mãos estendidas – falam com o caixa ao mesmo tempo, tentando fazer o pedido. Eles não respeitam as regras de trânsito – ninguém se importa com mão ou contramão, estacionam em 2a. 3a. 4a. fila, até bloqueiam totalmente a rua. Eles não respeitam áreas de não fumantes – as pouquíssimas que existem, geralmente em restaurantes de redes ocidentais, são completamente cheias de fumantes e fumaça. Em resumo, querem um país justo e igualitário, mas não abrem mão de um caráter egoísta e irresponsável. Querem um governo justo, mas querem ser injustamente beneficiados pela inexistência de limites à sua liberdade individual. Não aceitam instrução, isso fere seu orgulho. Não suportam críticas, mas estão prontos a criticar. Querem mudar a natureza do povo, do país, sem se demoverem um milímetro sequer de sua posição de conforto.

Querem uma melhor organização política. Querem liberdade de expressão, de agremiação e de reunião. Querem acabar com a antiga polícia do regime. Querem liberdade. Mas não entendem que seu anseio mais profundo só será atendido se tiverem uma mudança interior.

É fácil ver essa cena no Egito e nos egípcios. É mais difícil perceber que o mesmo acontece comigo. Com todos nós. Sonhamos com aquele dia em que todas as condições externas serão perfeitas, quando as pessoas a nosso redor funcionarão como agentes perfeitos de nosso mundo idealizado. Muitas vezes até “pintamos” uma vida nova em nosso discurso, em nossas resoluções de fim de ano, após ouvir uma mensagem marcante, em pequenas atitudes que reorganizam o ambiente sem mudar nosso coração. O pior acontece quando tentamos pintar uma nova igreja, tentando projetar nos irmãos à nossa volta a culpa por nossa falta de fé. Esperamos que a igreja mude em suas práticas e doutrinas, esperamos que os irmãos mudem em suas atitudes, às vezes até oramos por isso, mas não estamos realmente abertos à transformação.

Cada um de nós é responsável por pagar o preço necessário para seguir o Senhor, e alcançar o prêmio da soberana vocação. Não podemos esperar que o mundo mude, ou até mesmo que os irmãos mudem. Cada um precisa pagar o preço necessário para seguir o caminho que Deus lhe mostrou. “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado” (1 Co 7:17). Não podemos olhar para as pessoas à nossa volta e esperar uma reação. Nossa falta de fé faz com que nos fiemos naquilo que vemos e conhecemos. Nossa falta de fé nos faz apreciar demasiadamente o ‘status-quo’, o conforto da ‘salvação coletiva’. O conforto de projetar na igreja, especialmente nos líderes, a responsabilidade por nossa salvação. Nos contentamos com a aparência de santidade da rotina de nossa vida cristã e congregação, e fechamos os olhos para a real obediência à Palavra. A obediência que traz real transformação.

O Senhor Jesus é diferente. Ele não vê como vê o homem. Ele vê o coração. Em Seu ministério terreno Ele cuidou das feridas, das doenças, da fome, mas Sua intenção era gerar fé no coração daqueles a quem servia. Ele não encheu Seus próprios discípulos de poder ou de uma coragem sobrenatural. Ele não os tornou imortais, nem os livrou de qualquer das limitações exteriores que sempre sofreram. Em seu ministério, Sua morte e Ressurreição, o Senhor Jesus não pintou um mundo novo. Ele nos trouxe libertação. Ele nos deu vida.

Também, precisamos perceber que não é possível que sejamos transformados por uma nova conduta, uma nova maneira de vida, uma nova agenda. Não somos justificados, nem transformados, por aperfeiçoar nossa carne. Precisamos da graça que vem pela fé. Não importa quão perfeita seja a lei que formulemos em nossa mente ou quão detalhado seja nosso novo livro de conduta, “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3:11). Uma nova lei, uma nova conduta, uma nova aparência, nada disso nos salvará. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2:8).

Há salvação para os Egípcios. Há salvação para o Egito. Há salvação para todo aquele que crê no nome de Jesus e desfruta graça Nele. “Porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12). Os que crêem nesse nome não têm poder para controlar o ambiente à sua volta, mas receberam o privilégio de serem feitos filhos de Deus (Jo 1:12). Isso faz toda diferença. Essa é a mudança interior que preciso. É a transformação verdadeira: uma vida diferente, uma nova vida, crescendo, se expressando, me definindo, me movendo, determinando a direção de cada um de meus passos.

Já “pintei” novos começos, já mudei atitudes exteriores e, inevitavelmente, errei, caí, me desgastei. E agradeço ao Senhor por cada uma de minhas falhas, cada um dos novos começos mal sucedidos. Também já me desapontei com os filhos de Deus, especialmente os de maior reputação, por que esperava deles a orientação e o modelo de sucesso para minha carreira cristã. Agradeço ao Senhor por cada falha, cada uma das oportunidades de perceber que meu homem exterior, o velho homem, não pode ser aperfeiçoado, não tem esperança. Agradeço ao Senhor, também, por cada oportunidade de perceber que todos os meus irmãos são falhos como eu. “Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus. Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2 Co 4:15-16).

Agradeço ao Senhor, ainda mais, por Sua graça, que é concedida mediante a fé. A graça, que é experimentada nos nossos pequenos passos de fé, essa faz com que meu homem interior se renove, cresça e vença. Agradeço ao Senhor por cada oportunidade de me voltar à Palavra. Por cada oportunidade de crer e confessar. Escrever esse texto foi uma dessas oportunidades. Creio mais, desfrutei mais graça. Quero crer mais, desfrutar mais graça. E encorajar a todos a desfrutar salvação no nome de Jesus, “para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef 4:16).

Que o Senhor Jesus seja contigo!

 

O ministério do Novo Testamento

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

Na versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida (revisão 1995), a palavra ‘ministério’ é usada 47 vezes. No antigo testamento ela é utilizada em referência ao ofício dos sacerdotes, bem como ao serviço dos profetas (1 Cr 9:13; 2 Rs 17:23). Algumas vezes, ela representa a tradução da palavra hebraica ‘abodah’, que indica a realização das tarefas de um servo, ou escravo (1 Cr 23:14). Em outras ocasiões, é usada também como tradução de ‘shareth’, que indicava, especificamente, o serviço do tabernáculo (Ex 35:19). Em algumas poucas ocasiões é também tradução de ‘Yad’, que significa mão, e, figurativamente, capacidade, poder ou realização (2 Rs 17:23).

No Novo Testamento são 23 menções. Em duas ocasiões, ministério traduz o termo grego ‘leiturgia’, que era empregado para o serviço público, ou trabalho comunitário. Em Lucas 1:23, se refere ao serviço do templo. Em Hebreus 8:6, se refere ao sacerdócio superior de Cristo, em  comparação direta àquele exercido no templo da Antiga Aliança. Em outras poucas ocasiões, o termo ministério foi usado para traduzir ‘diatage’ ou ‘logos’, ambos se referindo a um mandato, uma ordem (At 7:53; 8:21). Mas é o termo ‘diakonia’ que encontra maior relação com a palavra ministério no Novo Testamento. Este é o termo utilizado por Pedro para definir o ministério apostólico em Atos 1:17. É o termo utilizado por Paulo para o ministério do Espírito (2 Co 3:8), o ministério da justiça, da reconciliação – o nosso ministério (2 Co 3:9; 4:1; 5:18). Paulo também fala sobre tornar plena, ou cumprir nossa ‘diakonia’ (Cl 4:17; 2 Tm 4:5).

Esse termo, soberanamente escolhido pelo Espírito Santo ao inspirar os autores do Novo Testamento, nos mostra o coração de Deus, Sua intenção. Deus quer nos suprir, nos alimentar e confortar. ‘Diakonia’ é justamente isso: distribuir, prover, suprir. É uma ação, não uma coisa. O Novo Testamento nos mostra que a responsabilidade dos apóstolos é suprir, alimentar àqueles a quem Deus tanto amou. Essa é também a responsabilidade dos profetas, dos evangelistas, dos pastores e mestres. Cada um o fará de acordo com a proporção da graça que recebeu (Ef 3:7), de acordo com a porção (grupo de pessoas) a que foi confiado (Gl 2:7-9), de acordo com a unção interior, que o ensina todas as coisas (1 Jo 2:27). Mas, o certo, é que todos devem apresentar sua justa contribuição no ministério, para um único objetivo: a edificação do Corpo de Cristo, em amor (Ef 4:16).

Infelizmente, os anos de história cristã provaram que nosso coração não é como o coração de Deus. A maioria dos cristãos entende os ministérios como sendo uma obra particular, uma realização pessoal ou, pior ainda, um índice de hierarquização: aquele que tem o maior ministério, ou o mais importante, pode exercer autoridade sobre outros. Alguns, ainda, teorizam sobre a existência de um único ministério, ao qual todos deveriam estar ‘submetidos’: um único tipo de falar, uma única corrente de pensamento, uma única organização, centralizadora e detentora única da verdade divina e do caminho da salvação. Foram entendimentos assim que levaram homens a cometer atrocidades em nome de Deus, na inquisição e nos muitos anos de trevas da história do cristianismo.

O Espírito nos confirma que esse entendimento – da existência de um único ministério – é incorreto ao confirmar a carta de Paulo aos Gálatas e a de Tiago, ambas como parte do texto Bíblico. Paulo afirma: “É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão. Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.” (Gl 2:16). Tiago, por sua vez, interpretou: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus.  Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” (Ti 2:21-24).

São duas interpretações acerca da mesma porção das escrituras, que geram duas práticas diferentes: uma desencoraja a busca por obras, enfatizando a fé; a outra, encoraja a realização de obras, ao valorizar a mesma fé. O certo é que ambos, Paulo e Tiago, escreveram com o fim de confirmar a fé dos santos, e animá-los a viver de acordo com essa fé. Ambos exerceram sua porção, seu ministério, e supriram os filhos de Deus com a fé. É incorreto pensar que Paulo deveria ter se submetido a Tiago, assim como é incorreto dizer que Tiago deveria ter seguido a Paulo. Ambos foram acolhidos e confirmados como ministros do Novo Testamento. Cada um com seu ministério.

Cada um de nós tem seu ministério. O texto grego do Novo Testamento ainda traz muitas declinações do termo ‘diakonia’, tais como ‘diakoneo’, ‘diakonetheida’, entre outras, que se traduzem para expressões como ‘meu ministério’, ‘nosso ministério’, e ‘teu ministério’. Isso quer dizer que a Escritura está cheia de provas de que cada um de nós deve exercer seu ministério. Cada um de nós deve se esforçar em suprir outros com as insondáveis riquezas de Cristo. É assim que todos nós chegaremos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:13).

O Ministério da Antiga Aliança era a composição do serviço levítico e sacerdotal, bem como a contribuição de cada um dos profetas. O Ministério do Novo Testamento é, por sua vez, o ministério do corpo de Cristo, o ministério de cada membro, a contribuição de cada parte. Não pode ser o ministério de um só. Não pode ser um tipo só de ministério, nem em favor de um grupo restrito. É o funcionamento normal de cada membro, em favor de todo corpo.

Que todos nós, a quem foi dado beber de um só Espírito, nos esforcemos para manter essa unidade do Espírito, no vínculo da paz, acolhendo, valorizando e nos beneficiando do ministério de cada membro (1 Co 12:13; Ef 4:3). Que cada um possa ser plenamente suprido pelo Ministério do Novo Testamento.