“Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4:10-16)

O conteúdo da fé

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

Nos últimos meses tenho visitado várias igrejas no leste africano. Infelizmente, devo relatar que, de certa forma, as igrejas tem sido incomodadas pela interferência de irmãos [e igrejas] do Brasil, e de seus ‘enviados’ – cujo objetivo é defender um ministério particular. Esses enviados têm acesso a um volume de recursos bastante expressivo, e defendem ser isso prova incontestável da ‘bênção’ divina sobre ‘o ungido’ [forma como se referem ao ministro a quem defendem] e sobre aqueles que guardam a ‘unidade’ [forma como se referem aos seguidores daquele ministro em particular].

Não duvido que quaisquer irmãos sejam abençoados. Afinal, Deus faz chover sobre justos e injustos. Por que não abençoaria Seus filhos? Nem duvido que os recursos materiais de que dispõem são bênçãos provindas da misericórdia e cuidado de Deus para com seus filhos (Mt 5:45; 7:11). Só não creio que o amor de Deus possa ser usado como prova, contra o próprio Deus, de que Ele tenha estabelecido, ou permitido a existência de, um intermediário entre Ele e Seus Filhos, um ‘ungido’, a quem Seus filhos devem obediência para que possam satisfazê-Lo. Afinal, Ele mesmo se deu a fim de abrir-nos um [único] novo e vivo caminho, através do Filho (2 Co 5:18-19; Hb 10:20; 13:12). Jesus derrubou a parede de separação que havia entre nós e o Pai, e tornou-se nosso único mediador (Ef 2:14-16, 18; 1 Tm 2:5; Hb 8:6; 9:15; 12:24).

 “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2:5).

“porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2:18).

Outra coisa importante é lembrar que, algumas vezes, a ‘chuva’ de bênção vem para testar nossos fundamentos (Mt 7:24-27). Se estivermos sobre a rocha, a chuva apenas manifestará a firmeza e estabilidade de nossa fé, as raízes que lançamos naquilo que é invisível.

A verdade vos libertará

Foi justamente essa chuva, esse volume de recursos financeiros, que levou uma igreja a nos escrever relatando as duas visitas que haviam recebido de um mesmo obreiro brasileiro e que, em suas palavras, havia um ‘evangelho da prosperidade’ que não poderiam aceitar. Mais tarde, também disseram que perceberam que o objetivo da assistência oferecida era restringir a liberdade dos santos. Segundo o relato desses irmãos, o obreiro brasileiro repetiu, por diversas vezes: “Não discuta. Negue a vida da alma. Não argumente – apenas diga de que precisa, e nós tomaremos conta. Haverá ofertas vindo do Brasil para te ajudar.”

Aquela igreja não recebia qualquer visita há algum tempo. Pouco tempo depois, pela misericórdia do Senhor, surgiu uma oportunidade para visitarmos tais irmãos. Graças ao Senhor, estavam bem e encorajados a prosseguir conhecendo ao Senhor. Durante a comunhão, nós recebemos uma luz do Senhor: foi a verdade que os libertou, e foi a verdade que os manteve livres. Eles entenderam que, por perceberem algo estranho na mensagem, foram guardados de se lançarem numa prisão: pois, uma vez que recebessem ‘ofertas’ desse grupo, se fariam obrigados a jurar subserviência ao líder do grupo [um tipo moderno de escravidão – comércio de almas – que tem sido praticado na África].

A partir de então, passamos a ter comunhão acerca da verdade. Especialmente quanto à importância de conhecer a verdade, a fim de que ninguém espreite nossa liberdade.

 “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32)

“E isto por causa dos falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão; aos quais nem ainda por uma hora nos submetemos, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gl 2:4-5)

Depois, voltando para casa, gastei algum tempo me debruçando sobre a questão da verdade. Ora, a fim de defender a verdade, e de nos firmarmos nela, precisamos, primeiramente, conhecê-la. Precisamos, pelo menos, conhecer quais são os pilares da verdade, nos quais cremos, nos quais nos apoiamos, e dos quais não aceitaremos, nem por um minuto, que alguém nos desvie. Também percebi que a verdade do evangelho é, de fato, a nossa fé. Finalmente, considerei que é necessário que a verdade do evangelho permaneça em nós, não só para que nos mantenhamos livres, mas, principalmente, para que possamos desfrutar plenamente a salvação de Deus.

Eu não negaria o fato de que foi exatamente disso que trataram os concílios cristãos do passado, que consolidaram e promulgaram os credos [tais como o credo apostólico ou o credo de Nicéia] dos quais, hoje, lança mão a grande maioria de nossos amados irmãos. Também não discutiria a pureza, a clareza e genuinidade daqueles irmãos do passado. Só me guardaria de me apegar, tão rapidamente, aos credos que formularam e, assim, simplificar esse texto, por conta dos expedientes de que se utilizaram. Por exemplo, a premissa de que ‘bispos’ guardavam a verdade e de que falavam por toda a igreja [em outro texto, acerca da base da igreja, já argumentei acerca dos corolários dessa tese – o pior deles sendo a infalibilidade papal]. Outro ponto a se recordar é que os concílios, especialmente os últimos, bem como os credos por eles promulgados, tinham por objetivo principal refutar e corrigir doutrinas que, à época, causavam distúrbio e divisão, não apenas entre os cristãos, mas também no império que, pouco a pouco, se confundia com a igreja. O objetivo principal não era ensinar ou definir a fé, antes, era identificar, refutar e, em última instância, punir os dissidentes, os portadores da ‘não-fé’.

Por isso prefiro lançar mão do ensinamento dos apóstolos, e do registro de sua defesa da fé, que, pela autoridade do Espírito Santo, se tornaram parte das sagradas escrituras (2 Pe 3:16). O apóstolo Paulo, por exemplo, passou por experiências semelhantes [de confusão causada por pessoas perturbando a liberdade das igrejas] e, ao fim de seu ministério, passou a enfatizar, com grande esforço e propriedade, a defesa e a confirmação do evangelho – o bom combate, o combate pela fé (Fp 1:7; Ef 6:19; 1 Tm 6:12; 2 Tm 4:7).

Paulo não combatia por uma definição etérea da fé ou por um capricho puramente doutrinário, deslocado da realidade. Ele combatia em favor da felicidade e progresso dos santos, pois percebia que essa fé, que lutava para proteger, e que fora entregue aos santos, de uma só vez, produz uma salvação que é comum (Cl 1:24; Fp 1:25; Jd 1:3). É em favor dessa salvação, para que tal salvação avance e cresça, que precisamos combater diligentemente pela fé. É claro que esse tipo de convocação ao combate pode ser mal interpretada, num primeiro instante, como um incentivo à discussão, à auto-afirmação, à infantilidade. Mas, em realidade, o maior combate se trava em nossa própria mente. Contra os sofismas, as mentiras bem contadas, que deformam nossa fé e entulham a fonte de nossa vida espiritual (2 Co 10:4; Hb 10:38; Rm 1:17; Gl 2:20; Hb 2:2-4).

 “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1:3).

“visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1:17).

“Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2:2-3).

Nossa salvação é produzida pela fé que foi pré-anunciada pelos profetas, depois manifestada pelo próprio Senhor, e, finalmente, pregada pelos apóstolos – testemunhas que Ele separou para esse propósito específico (At 10:40-43; Ef 3:1-4). Portanto, não podemos negligenciar tão grande salvação. Não podemos negligenciar a fé do Senhor Jesus, confirmada na pregação dos apóstolos e pré-anunciada nas palavras dos profetas (Rm 1:1-3; Rm 3:21; Gl 3:8-9).

 “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3:8-9)

São muitos os que hoje argumentam que o conhecimento não é importante, ou que é melhor sentir-se “cheio de vida” a gastar tempo buscando ou mesmo combatendo pela doutrina dos apóstolos. Essa posição, agora, me parece hipócrita, ou, no mínimo, contraditória, uma vez que o ensinamento dos apóstolos nos trás a fé na qual somos abençoados e ganhamos vida. Ou seja, sem conhecer o evangelho de nossa salvação, não temos fé nem vida. Portanto, os que argumentam pela vida, em detrimento do conhecimento, na verdade, argumentam contra a própria vida (Mt 22:29; Mc 12:24; 1 Tm 2:3-4; Tt 1:1). E foi em favor da vida, da graça de salvação, que os apóstolos, em muitas ocasiões, não apenas ensinaram a verdade do evangelho como também contenderam por ela (At 5:28-32; 11:1-17; At 15:1-11).

 “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2:3-4)

“Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão” (At 15:1-2)

“Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” (Mc 12:24)

O que é a fé

Agora, é interessante notar que ao falar sobre a fé os apóstolos utilizam duas acepções. A primeira equivale à definição de uma faculdade, uma capacidade. A fé é a faculdade de substantificar as coisas espirituais, de assegurar-se daquilo que não pode ser visto. Essa fé também é descrita como “o espírito da fé”, mostrando que realmente a fé é uma faculdade espiritual (Hb 4:2; 5:14; 11:1-3; 1 Co 12:9; 2 Co 4:13; 2 Ts 1:4). Creio que a questão mais importante relacionada a essa acepção da fé é que há uma diferença entre aquilo que conhecemos e aquilo em que já chegamos a crer. Há uma diferença entre entender e crer, que é diretamente relacionada à diferença entre as faculdades mentais [entender, recordar, etc.] e a faculdade espiritual da fé [crer]. Essa diferença pode ser vista na descrição que Paulo apresenta em Romanos 10, de como a fé é gerada em nós. A Palavra estava perto de nós, na nossa boca e no nosso coração [indicando que já havíamos ouvido e entendido a Palavra], e depois cremos (Dt 30:12-14; Rm 10:8-10, 17).

 “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11:1)

Depois, prestando atenção em versículos como At 3:16; 8:13; Rm 1:12, 3:25; 12:3; 2 Co 13:5; Gl 3:5, 9, 23; Ef 4:5; Fp 3:9; Cl 1:23; 2:7; 2 Ts 3:2; 1 Tm 1:4, 19; 3:9; 5:8; 6:10-11; 2 Tm 2:22; 4:7; Tt 1:4; 1 Pe 5:9; 2 Pe 1:1; 1 Jo 1:4 e Jd 1:3, percebemos que existe uma fé [em todos esses trechos precedida, no original, pelo artigo definido, formando a expressão ‘A Fé’] que é comum, mútua, que o próprio Deus repartiu, entregue de uma só vez a todos. Essa “fé-herança” é o conteúdo a ser recebido por aquela “fé-faculdade”.

 “isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha” (Rm 1:12)

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (12:3)

Essa fé-herança, a fé que o Senhor Jesus nos entregou, portanto, não depende de um processo histórico, não pode ser atrelada a um grupo específico, não pode ser restringida aos defensores de uma prática específica, aos seguidores de um ministro específico, ou de um aspecto específico da verdade [em resumo, não têm nada a ver com o tal mover atual de Deus, nem a base da unidade… nada dessa natureza]. Pois foi entregue de uma só vez; por que pertence a todos; por que prescinde de quaisquer outras condições, senão a própria regeneração. O conteúdo dessa fé comum é o que deve ser defendido. A aquilo a que nos apegamos. Outros ensinamentos bíblicos podem ser úteis, mas não são motivo de combate, pois não geram, diretamente, a fé e a salvação.

Bom, a fé que recebemos veio pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (Rm 10:17). Se sua Bíblia tem letras vermelhas, vai ser mais fácil perceber quais palavras Deus está falando diretamente, as palavras pelas quais combatemos. É claro que toda a escritura foi inspirada por Deus, e é útil para ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2 Tm 3:16). Mas é preciso perceber que nem todas as palavras nas sagradas escrituras expressam, diretamente, a verdade do evangelho em que cremos, ou o conteúdo da fé que gera nossa salvação. Algumas passagens estão lá para nos ajudar a entender a verdade, ou, até mesmo, para dar-nos exemplos da desobediência à verdade, e suas conseqüências (1 Co 10:11; Rm 15:4; 16:26; Hb 4:1-12; 2 Pe 2:6).

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3:16)

“Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1 Co 10:11)

“Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:11)

Note que não é minha intenção desacreditar ou diminuir a importância de qualquer porção da Bíblia. Jamais podemos duvidar da autoridade de qualquer porção das Escrituras (2 Pe 3:16). Todos os livros, do Antigo e do Novo Testamento, devem ser respeitados como, e de fato são, a Palavra de Deus (1 Ts 2:23; Pe 1:21). O que quero dizer é que toda a escritura aponta para algo, e todos os livros [a despeito da vasta diversidade de autores, de estilos literários, de contextos históricos e de conteúdo] são costurados por uma tese única, uma mensagem única, que precisa ser encontrada (Jo 5:39). Precisamos examinar as escrituras a fim de ‘garimpar’ essa mensagem. E é essa mensagem essencial que constitui nossa fé. É possível encontrar outras mensagens e outras utilidades para as escrituras. Alguém pode utilizar-se de trechos que se adéqüem à psicologia motivacional. Pode encontrar aconselhamento matrimonial. Técnicas pedagógicas. Pode encontrar princípios de administração financeira, teoria política, filosofia do direito e muitos outros ensinamentos práticos e úteis num contexto completamente diverso da fé. Alguém pode, até mesmo, usar alguns trechos de maneira desconexa para justificar uma atitude que vai contra o ensinamentos da própria Bíblia. Por isso é importante buscar e examinar as escrituras a fim de encontrar nelas a verdade e crer.

Jesus Cristo e Sua obra

Então, qual é a tese das escrituras? Quais são os predicados dessa tese, ou melhor, as verdades que compõem a nossa fé? Creio que a maioria de nós já ouviu que a fé se relaciona à nossa salvação e esse conceito encontra boa base bíblica (Ef 1:13; 2 Ts 2:10; Tg 1:18; 2 Jo 1:2-3). De acordo com essa percepção, nossa fé se baseia no evangelho da nossa salvação. Ou seja, nossa fé é composta pela verdade do evangelho (Gl 2:5, 14; Cl 1:15, 23). E, de acordo com o registro e o ensinamento das escrituras, o evangelho é o testemunho que se refere à pessoa e à obra de Cristo, e do qual depende nossa salvação (Rm 1:1-4).

 “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa”  (Ef 1:13)

“Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1:18)

“se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Cl 1:23)

De fato, o Senhor Jesus é a verdade (Jo 14:6). As escrituras testificam dele, e todos os profetas pré-anunciaram Sua obra (Jo 5:39; At 3:18-21; 10:43; 26:22-23; Rm 1:2; Ef 3:5; 1 Pe 1:10; 3:2). Ganhar vida eterna, encontrar o conteúdo verdadeiro das escrituras, é, sem dúvida, uma questão de achar Cristo, de ouvir o que o Pai nos fala pelo Filho (Ef 1:10; Cl 1:17, 19; 2:17; Hb 1:1-2). Daí derivamos a certeza de que a verdade acerca da pessoa de Jesus [Sua divindade; Sua natureza humana; Sua posição no trono, nas alturas; Sua autoridade e preeminência sobre todas as coisas] e a verdade acerca de Sua obra [ministério terreno, morte, ressurreição e ascensão] são a parte da fé (2 Tm 2:18; 1 Jo 2:21-22; 2 Jo 1:7).

 “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14:6)

Não quero apresentar esses pontos acerca da pessoa e obra de Cristo apenas como uma lista memorizada e repassada por tradição. Por isso, é importante apresentar trechos em que os apóstolos apresentam e defendem essas questões, o que chancela nossa percepção de que realmente são parte importantíssima da fé que defendemos:

  1. A natureza divina de Cristo:
  2. “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl 2:8-9)

    “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 Jo 5:20)

  3. A natureza humana de Cristo:
  4. “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.” (1 Jo 4:2-3)

    “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2 Jo 1:7)

  5. A posição e a autoridade de Cristo:
  6. “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2:36)

    “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:11-12)

    “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”  (At 5:31)

    “o qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1 Pe 3:22)

    “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2:22)

  7. Seu ministério terreno e Sua morte:
  8. “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;” (At 2:22-23)

    “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,” (1 Co 15:3)

    “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1 Pe 3:18)

  9. Sua ressurreição e ascensão:
  10. “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1 Co 15:12)

    “Estes se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo a fé a alguns” (2 Tm 2:18)

    [Nesse último versículo o apóstolo refuta uma doutrina que teorizava sobre a ressurreição, comparando-a, ou reduzindo-a, a uma mudança de prática, ou grande recomeço, e, conseqüentemente, reduzindo a ressurreição de Cristo ao status de uma mera mudança em sua prática ministerial.]

     “De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus” (Mc 16:19)

    “Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu” (Lc 24:51)

    “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2:33)

    “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas” (Ef 4:10)

Diante desses textos, parece-me claro que a verdade do evangelho é o conteúdo de nossa fé. E que o evangelho é com respeito a Jesus Cristo, o filho de Deus, que, vindo em carne, viveu sem pecado e morreu uma morte vicária a nosso favor, ressuscitou ao terceiro dia, apareceu a muitos e, também diante de muitas testemunhas, ascendeu aos céus e está assentado à destra do Pai. A Ele foi dado um nome que está acima de todo nome, e não há outro nome pelo qual importa que sejamos salvos.

O evangelho de Jesus

Agora, gostaria de lembrar que o próprio Senhor disse que Suas palavras eram a verdade (Jo 18:37; Mc 1:38; Lc 4:43). O Senhor não apenas operava milagres, mas também ensinava. Ele ensinava com autoridade, pois apresentava a luz da verdade (Mt 4:16; 7:29; Mc 1:22). O conteúdo de Sua pregação, portanto, nunca poderia ser ignorado. Sua pregação é imutável e incontestável. Ele também comissionou a seus discípulos para que dessem testemunho de tudo aquilo que os ensinara (Mt 28:20). Sua pregação, que é a verdade conseqüentemente, constitui, assim como o registro acerca de Sua pessoa e obra, a verdade do evangelho (Jo 17:17). Constitui, portanto, a nossa fé.

E o conteúdo do ensinamento do Senhor Jesus é, de acordo com o registro dos evangelhos, o evangelho do reino (Mt4:17; Mc 1:14-15; Lc 4:43; Jo 3:3-5). Sua mensagem acerca do reino inclui a revelação dos mistérios do reino dos céus (Mt 13:11; Mc 4:11; Lc 8:10); os sinais da vinda, ou da manifestação do reino (Mt 16:28; 24:3-31; 25:31-46; Mc 13:3-27; Lc 21:7-28); a promessa do galardão do reino (Mt 13:43; 25:9-10, 19-23; Lc 19:15-19); bem como uma série instruções acerca de como viver as verdades acerca do reino. Ele afirma que a intenção do Pai era dar-nos o reino, nos compele a buscar o reino e Sua justiça, nos fala de como entrar no reino e viver Nele, e muitos outros ensinamentos acerca do reino (Lc 12:31-32; Mt 6:63; Lc 12:31; 13:24;  Jo 3:3-7).

“Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4:23)

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:14-15)

“Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado” (Lc 4:43)

Mesmo depois da ressurreição, nos quarenta dias em que passou com os discípulos, aperfeiçoando-lhes a fé, o conteúdo do ensinamento de Jesus era o reino (At 1:3). O reino não pode, portanto, ser tomado como coisa de somenos importância. Também não pode ser ignorado como mensagem principal do ensinamento de Jesus.

 “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (At 1:3)

Veja, Filipe anunciava a Cristo e, seu evangelho acerca de Cristo incluía o reino:

“Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo” (At 8:5)

“Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres” (v. 12)

Paulo, igualmente, ao ensinar acerca do Senhor Jesus, pregava o reino:

“Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas” (At 28:23)

“pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (v. 31)

O reino é, portanto, parte do evangelho e parte de nossa fé (At 8:12; 19:5-8; 28:23, 31). No entanto, é necessário admitir que a mensagem de Jesus acerca do reino é realmente vasta e, evidentemente, é bastante difícil de expressar em um credo, em uma fórmula, uma lista sintética de afirmações que dê conta de toda a verdade do reino [são 127 menções ao reino, só nas palavras do Senhor Jesus]. O ensinamento apostólico acerca do reino também é extenso [26 menções nas epístolas e 5 no Apocalipse]. No ensinamento dos apóstolos, o reino é algumas vezes utilizado como sinônimo da igreja, ou como uma designação mais ampla da vida cristã (At 20:25; Rm 14:17; 1 Co 4:20; Cl 1:13; 4:11; 1 Ts 2:12; Hb 12:28). Então, de certo modo, tudo o que os apóstolos ensinaram acerca da igreja diz respeito ao reino. Por outro lado, o ensinamento acerca do reino dá maior ênfase ao aspecto da herança do reino, ou o galardão do reino (At 14:22; 1 Co 6:9-10; 15:24, 50; Gl 5:21; Ef 5:5; 2 Ts 1:5; 2 Tm 4:1, 18; Tg 2:5; 2 Pe 1:11)

Essa questão é delicada, pois, muitas vezes, confundimos a fé que é comum a todos os santos, essa fé que foi entregue a todos, de uma só vez, com nossa interpretação (individual ou corporativa), que nem é perene, nem pode ser comum. É no momento em que confundimos nossa visão particular com a fé, que substituímos o reino por outra esfera, menor, menos acolhedora, menos inclusiva, mais cara – como a seita dos fariseus, impondo a lei mosaica no meio da igreja (At 15:5). Quando confundimos a fé com nossa interpretação, nos tornamos como o fariseu que voltou para casa impuro. Preservar a fé, nos permite voltar para casa como o publicano, que volta perdoado, justificado (Lc 18:10-14).

O Senhor escolheu ensinar, a maior parte do tempo, através de parábolas (Mt 13:3, 10-13, 34; 22:1; Mc 4:2; Lc 8:10). Os mistérios do reino dos céus foram transmitidos por meio de parábolas e pela interpretação de algumas parábolas (Lc 8:10). Por isso é perigoso tentar instituir um “credo do reino”. É perigoso tentar compilar uma ‘revelação completa’ do reino, pois, certamente, o processo de selecionar e expressar de forma concisa as verdades do reino é bastante influenciado por nossa interpretação individual. O perigo é maior quando a interpretação traz, em si, uma implicação prática que pode ser usada como “circuncisão”, como teste de aceitação [ou rejeição] de pessoas no reino (Mt 10:41; 18:5-6).

 “Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia” (Mt 13:34)

“Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento” (Mc 4:2)

“Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt 18:6)

Se o reino é tão difícil de resumir e de expressar, como pode ser parte da fé? Bom, como vimos no início desta exposição, a fé está relacionada a nossa salvação. A verdade acerca de Jesus e de Sua obra trata cabalmente da questão de nossa salvação da perdição eterna. Que é o aspecto inicial da salvação – a nossa redenção. Nosso passado como pecadores é apagado, uma vez que o escrito de dívida, que era contra nós, foi encravado na cruz  (Cl 2:14). Também, ao cremos em Jesus, recebemos a vida eterna, pois, aquele que tem o Filho, tem a vida eterna, e nos tornamos filhos de Deus (Jo 1:12; 3:36; 5:24; 6:47, 54; 1 Jo 5:12). Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Ele desceu como pão do céu para que todo que dele come não pereça, antes, receba espírito e vida por meio Dele (Jo 3:16; 6:50, 63). Portanto, estamos livres da condenação eterna, da ‘segunda morte’, e temos a esperança de estar para sempre com Jesus (Rm 6:10; 1 Ts 4:17; Hb 2:9-15; 9:28; Tg 5:20; 1 Jo 3:14; Ap 1:8; 20:14; 21:8). Tudo isso está relacionado com a nossa fé em Jesus, em Sua morte e ressurreição.

Mas, uma vez redimidos, reconciliados com Deus e regenerados, há ainda outro aspecto da salvação. Nossa salvação diária, nossa santificação, que nos transforma e nos faz parecer com Jesus (Rm 5:10; 12:1-2; 1 Co 1:30-31; 2 Co 1:9-10; 2 Pe 1:3-8). Essa salvação posterior, ouso dizer, é fruto daquela parte da fé concernente ao reino.

 “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5:10)

“Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos” (2 Co 1:9-10)

“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe 1:3-4)

O reino dos céus na África

Portanto, apesar de não me atrever a listar um grupo de verdades que apresente a totalidade do evangelho do reino, posso encontrar, no evangelho do reino, respostas à minha necessidade presente e à necessidade daqueles à minha volta, a quem sirvo. E, buscando uma maneira de ajudar os irmãos nessa região da África, tenho desfrutado de alguns aspectos particulares do evangelho do reino. Considerando ainda mais atentamente essas coisas, percebi que podem ser de ajuda à minha família e aos amados irmãos a quem envio esse texto.

Tenho dito aos irmãos aqui que, uma vez que o reino é parte da fé, precisamos conhecer o reino. Precisamos conhecer o regime de governo, ou a autoridade desse reino; a composição; a constituição, ou o ordenamento básico, desse reino; os limites; a posição. De forma simples, posso resumir, a reposta para tudo é Cristo.

O Senhor Jesus é o único Rei e soberano. A Ele pertence a soberania, ou seja, poder e autoridade absolutos, indivisíveis, indissolúveis. Veja que o conceito moderno de soberania está fortemente atrelado ao Estado como representante da soberania nacional, ou a soberania do povo. Nos estados modernos a autoridade tem de ser representativa pois o poder soberano é indivisível, e, portanto, não poderia ser distribuído entre os cidadãos. Daí, a autoridade da coletividade soberana ser delegada a fim de ser representada num único corpo. Mas, no reino dos céus, o povo não é soberano e a autoridade não é representativa. Jesus, nosso Rei, é soberano: toda autoridade pertence a Ele e Ele a exerce diretamente (Mt 28:18; 1 Co 11:3; Ef 4:15; 5:23).

 “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18)

“Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Co 11:3)

A preeminência e a autoridade de Cristo têm sido atacadas há séculos na África. Missionários de todas as partes vieram, pregaram o evangelho, assistiram aos pobres e, enquanto o faziam, ensinaram aos africanos que estes dependiam de ajuda estrangeira, espiritual e materialmente. Esses mesmos missionários, durante séculos, representaram a cultura ou estiveram diretamente associados às nações que exerciam controle sobre este continente, como se fossem realmente donos de tudo e de todos. Infelizmente, o mesmo princípio distorcido de autoridade penetrou e se solidificou em todos os grupos cristãos. Por todos os lados vemos pessoas agindo como dominadores do rebanho, alguns por constrangimento, outros por sórdida ganância. É possível encontrar aqueles que são ‘melhor-intencionados’, que não admitem exercer controle sobre os santos, mas ainda insistem na tese de que os filhos de Deus sejam dependentes de algum líder.

Tentamos ajudar aos irmãos, mostrando que todos os reis e todos os ungidos para exercer autoridade no Antigo Testamento são figuras, sombras, do único Ungido, o Cristo de Deus, que é Jesus. No Novo Testamento, ninguém mais pode declarar-se ‘o ungido’, pois está claro que em Jesus se cumpriram todas as profecias e figuras acerca da unção do Pai (Lc 4:18-21; At 3:22; 7:37; Cl 2:17). A unção que temos é a unção da cabeça, que se estende a todos os membros de igual forma (Sl 133:2; 1 Jo 2:20, 27).

 “E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento” (1 Jo 2:20)

É sempre bom notar que não somos do mundo, embora estejamos no mundo (Jo 17:16). Enquanto estivermos no mundo, precisamos dar a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus (Mc 12:17). Quanto ao cosmos, ao sistema do mundo, temos autoridades delegadas, às quais nos submetemos em obediência a Cristo (Rm 13:1; Cl 3:22; Tt 3:1; 1 Pe 2:14; 2 Pe 2:10; Jd 1:8). Mas é uma afronta ao encabeçamento de Cristo supor que a autoridade do reino dos céus seja semelhante, em natureza ou forma, à autoridade do império das trevas. Que comunhão pode haver entre as trevas e a luz?

 “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;” (Mt 20:25-26)

“Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:25-26)

“Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;  e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos” (Mc 10:42-44)

“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças (…) segundo os preceitos e doutrinas dos homens?” (Cl 2:20, 22)

Acerca do governo na igreja

Há autoridade na igreja? Sim, é Cristo. Cristo pode usar os membros do Seu próprio corpo para exercer Sua autoridade? Claro que sim! Mas o membro não se torna a autoridade delegada da cabeça. Não se torna autoridade sobre outros membros. A cabeça continua sendo a única autoridade no corpo. A cabeça continua sendo a única sobre, acima dos membros. O conceito de ferramenta, ou membro que é utilizado na consecução de uma ordem, é muito diferente do conceito de delegado, ou representante da cabeça. Note que o governo na igreja é expresso, quando necessário, por meio de um dom espiritual, e esse dom não é dos mais importantes. Veja as listas de dons espirituais, e verá que o dom de governo, quando citado, figura entre os últimos, ou, os de menor importância. Mas nós devemos promover os melhores dons (Rm 12:3-8; 1 Co 12:8-10, 28-31).

“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (…) Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons” (1 Co 12:28, 31)

“Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (v. 11)

Isso não anula, de forma alguma, o ensinamento apostólico acerca dos presbíteros/bispos [termos intercambiáveis, usados para se referir, seja quanto à natureza ou quanto à função, àqueles que têm o ofício, ou ministério, de liderar a igreja] (At 14:23; 20:17-36; 1 Tm 3:1-7; 5:17-20; Tt 1:5-9; Tg 5:14; 1 Pe 5:1; Hb 13:17, 24). A doutrina dos apóstolos acerca dos presbíteros é clara e indiscutível. Ainda assim, levados por seus próprios interesses, muitos a têm distorcido, utilizando-se de uma preocupação saudável dos apóstolos, especialmente quanto ao cuidado diário dos santos, para estabelecer um sistema hierárquico na igreja. Distorcem a sã doutrina a fim de tomar o lugar que pertence a Cristo e exercer autoridade sobre os irmãos, exaltando-se sobre o rebanho que é de Deus. Veja que em todos os trechos, as atividades a que foram incumbidos os presbíteros nunca incluem o exercício de autoridade sobre a igreja.

Vemos as expressões pastorear, socorrer, hospedar, ensinar, cuidar, ter bom testemunho, ser irrepreensível como despenseiro, exortar pelo reto ensino, convencer, pastorear como modelo do rebanho, e, finalmente, guiar, especialmente como exemplo de fé. Esse é o tipo de liderança ensinado pelos apóstolos, que não admite o exercício de autoridade sobre os irmãos. É impressionante que, mesmo não havendo qualquer brecha para que o ofício episcopal seja confundido com governo sobre a igreja, os nicolaítas só conseguem enxergam governo nessa doutrina. Note que a única menção a governo, em toda a doutrina acerca do presbitério, é o governo que o presbítero deve ter sobre sua própria casa.

“e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);” (1 Tm 3:4-5)

Alguém poderia argumentar que 1 Tm 5:17 fala de presidir. Entretanto, é preciso lembrar que o verbo proisyhmi [proistemi], no original, que foi erroneamente traduzido como presidir, significa, na verdade, montar guarda, proteger, cuidar e, por extensão, prestar assistência, ajudar. É um termo que se adéqua melhor ao ofício de uma babá do que ao de um governador. Pessoas que tentam exercer primazia na igreja, estar sobre os outros, sempre trazem problemas à igreja em lugar de cuidado (3 Jo 1:9).

Amados, se dermos ao Espírito a liberdade [ou melhor, se reconhecermos Sua autoridade] para  nos liderar, nos usar conforme Lhe apraz, não precisaremos elevar um mero ser humano como autoridade ‘substituta’ ou ‘delegada’. Se tivermos o Espírito, teremos a unção para nos liderar, para nos ensinar todas as coisas, e não será necessário eleger um ‘vigário’ de Cristo, um substituto. Não será necessário defender a ‘autoridade delegada’ de ninguém na igreja (1 Jo 2:27). Por outro lado, quando, por preguiça ou ganância, permitirmos que o sistema de autoridade do mundo, o trono de Satanás, entre na igreja, então existirá autoridade delegada entre nós. O delegado, os delegados do delegado, os delegados dos delegados do delegado… Isso se chama hierarquia, ou, em linguagem propriamente bíblica, as obras dos nicolaítas – às quais o Senhor odeia (Ap 2:6).

O Espírito foi específico ao listar o dom de governo na quinta categoria. Devemos dar importância àquilo que Deus dá, conforme Ele dá. Estamos ajudando os irmãos aqui, no continente africano, a não darem importância a títulos, à posição ou ao reconhecimento. A não darem importância à tradição mundana que prega haver hierarquia entre nós. Rejeitamos o trono de Satanás que vem com as obras dos nicolaítas. Pelo contrário, damos preeminência a Cristo e buscamos os melhores dons, a fim de servi-Lo (Cl 1:18).

Durante uma visita à Tanzânia, um grupo de agentes de imigração nos parou e um irmão queniano, que viajava conosco, acabou sendo levado e quase ficou preso, por que escreveu em seu passaporte “Pregador” como profissão. Se você é um pescador, e é encontrado pregando, “Parabéns!”. Mas, se você é um pregador, antes de começar a exercer sua profissão, precisa de autorização especial do governo (visto de trabalho, residência temporária, etc.). Nada mais justo, evidentemente. Acabamos pagando USD 200 para liberar o irmão. Mas foi um preço pago por uma boa lição. Todos os presentes, inclusive o “Pregador”, vimos que qualquer tentativa de estabelecer uma posição [de autoridade ou não], ou lutar por um título, por reconhecimento, tem um único resultado: nos anular como servos de Cristo e nos misturar com os negócios desse mundo.

Todos os irmãos ficaram tocados. Depois de resolvida a situação, tivemos comunhão mostrando aos irmãos que Jesus, sendo Senhor e Rei sobre todas as coisas, nunca aceitou um titulo. Quando O chamavam de Filho de Deus, respondia dizendo que é Filho do homem. Quando perguntado se era rei, respondeu “tu o dizes” (Mt 27:11). Quando perguntado se era Filho de Deus, respondeu da mesma forma (Mt 26:63-64). Não era falsa humildade, nem só mais um preceito religioso. O Senhor realmente tomou o caminho da humilhação. Ele é agora nosso único caminho (Jo 14:6). O reino não é uma instituição hierarquizada, com ofícios e títulos, com assentos e tronos. O reino é um caminho (At 18:26; 24:14; 2 Pe 2:2). Nesse caminho, a única autoridade a quem seguimos e a única autoridade a quem defendemos é Jesus, o Autor e Consumador da fé, que vai adiante de todos nós (Hb 12:1-2).

A natureza do reino

Perceber que o Senhor Jesus é nosso único rei já resolve uma multidão de problemas em nossa carreira cristã, especialmente em nosso convívio com os amados filhos de Deus. Quando Jesus é soberano, não há relação de inferioridade ou superioridade entre nós. Mas a percepção que Jesus é rei não resolve outro problema grandemente difundido na África: o evangelho da prosperidade. A confusão entre o que vem de Deus e o que vem do mundo faz com que muitos vivam angustiados, esperando por aquilo que não traz esperança. O reino de Deus é espiritual e as bênçãos do reino são, antes de tudo, espirituais. A maior delas sendo a nossa liberdade em Cristo.

Quando iniciou seus sinais na Galiléia, Jesus recebeu a visita de um dos governantes dos judeus. De certa forma, podemos dizer que Nicodemos se interessou pela doutrina de Jesus [pois o chama de mestre] por causa dos sinais que Jesus fazia [pois indicou que via em Jesus, pelos sinais que fazia, autoridade da parte de Deus] (Jo 3:1-2). Mas a essa confusão entre as coisas de Deus e as coisas que podem ser vistas, o Senhor Jesus respondeu que é necessário nascer de novo para ver o reino de Deus. Aquilo que pode ser visto com olhos carnais não pode ser confundido com o reino de Deus. O reino é visto por aqueles que têm outra vida, outra natureza. O reino é do alto, e só pode ser visto por aqueles que nasceram do alto, da água e do Espírito (Jo 3:5-7; 1 Co 10:1-2).

E a natureza espiritual do reino foi também parte da defesa do evangelho por parte dos apóstolos, cuja preocupação era ajudar os irmãos a desassociar sua vida e prática cristã do conhecimento que tinham, da percepção limitada que tinham, baseada naquilo que podiam ver e não na palavra da fé, pregada pelos apóstolos (Rm 14:1; Co 15:50).

 “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50)

Ainda é muito difícil para os irmãos aqui desassociarem a bênção material da maturidade espiritual. Os mesmo brancos que traziam o ensinamento bíblico também traziam dinheiro. Assim, ficou estabelecido que se alguém tem bom ensinamento, deve também ter bastante dinheiro. Mas, nossa defesa do evangelho tem sido para que os irmãos percebam que o que é provindo da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. O reino de Deus tem uma natureza diferente, que não pode ser medida, nem teatada, nem apreendida, por meio de coisas inferiores, terrenas.

E o evangelho da prosperidade tem outras vertentes, por exemplo, a bênção numérica. Muitos são os que defendem a genuinidade de seu ministério baseando-se no número de seguidores que arrastam após si. Encontramos vários ‘bispos’ e ‘apóstolos’ que são capazes de nos dizer quantas “igrejas” têm, com quantas pessoas, com que volume de ofertas, etc. – mas não são capazes de citar um versículo bíblico. Mais uma vez, o número de pessoas não pode medir nem testar nossa proximidade do reino dos céus. Muitas pessoas na carne, unidas em um só propósito, ainda são apenas carne. Note que o Senhor, que abomina divisão, preferiu confusão e divisão à unidade de Babel (Gn 11:1-7).

“e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro” (Gn 11:6-7)

Recursos financeiros e grandes ajuntamentos podem até resultar da bênção de Deus para os filhos do reino, mas não necessariamente expressam o reino. O reino não é visto nessas coisas. De acordo com o ensinamento do Senhor, em João 3, a melhor maneira de assegurar-se de que você está no reino é seguir o Espírito (Jo 3:5-8).

“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3:8)

A maior bênção do reino, e a mais contundente prova de que estamos vivendo o reino de Deus na terra é a liberdade que só o Espírito dá. Se sou obrigado, por tradição, revelação ou ‘dívida de gratidão’, a seguir alguém, já não é mais o Espírito quem me guia. Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2 Co 3:17). Apesar de alguns ainda acharem que a piedade é fonte de lucro, o Senhor mesmo, pela palavra de Sua boca, está nos libertando e nos guardando de, por amor ao dinheiro, ou às coisas materiais, nos desviarmos da fé (1 Tm 6:5-10). Essa é a bênção que melhor expressa o reino. E precisamos perceber a natureza espiritual do reino para desfrutar plenamente essa bênção.

A composição, o limite e a posição do reino

Quanto à composição do reino, também pelo que lemos em João 3, temos de admitir que o reino é composto exclusivamente por pessoas que têm Cristo. Portanto, Cristo é o conteúdo, a vida e o significado das ações dos cidadãos desse reino (Mt 13:43; Lc 12:32; Jo 1:12, 17; 3:3-8). Ele é o código de conduta, o limite da liberdade individual e o sentido da vida conjunta desses cidadãos. Ele é o “acordo social”, o “ethos”, o espírito do povo, a constituição do reino (Jo 10:1-5, 27; Rm 14:8; Cl 1:26-27; Cl 3:1-4).

“Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 13:43)

Isso pode parecer ‘espiritual demais’, mas tem aplicações práticas muito importantes. Todos os cidadãos do reino de Deus foram igualmente qualificados para entrarem no reino por meio da vida. Todos os cidadãos são igualmente filhos de Deus (Jo 1:12; Ef 2:19). Portanto, não há castas nem há classes sociais nesse reino. Pode até haver diferença nas realizações, mas elas não resultam em qualquer diferença entre os cidadãos. Não existe a classe dos que fazem tudo. E, certamente, não existe a classe dos que nada fazem. O Rei deu a mesma porção e a mesma responsabilidade a cada um, e também julgará igualmente a cada um (Mt 25:13:30; Mc 13:33-37; Lc 19:12-15).

“Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo. É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie” (Mc 13:33-37)

Isso quer dizer que cada um deve levar a cabo sua função, seu ministério, no reino. Não podemos ser maus e negligentes, enterrando o dom de Deus (Mt 25:26; Lc 19:22-24; 1 Tm 4:14; 2 Tm 1:16). Sentar-se e esperar que outros nos sirvam e façam tudo na igreja é apenas outro tipo de obra de nicolaítas, que o Senhor odeia. Uma vez que, aos filhos desse reino, o Pai já concedeu todas as coisas, Nele mesmo (Lc 15:31), já não é necessário esperar um homem que nos ajude (Jo 5:7-8), ou algo por algo mais que nos satisfaça (Jo 4:12-15).

“Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu” (Lc 15:31)

Esse é um grande mistério do reino, que os foi revelado. Cristo, como a semente do reino, está em nós. Essa é nossa esperança da glória. E é por essa esperança da glória que podemos ser cidadãos completos, perfeitos, desse reino. Não só desfrutando das riquezas insondáveis de Cristo como também contribuindo para o avanço do reino (Mt 5:48; Cl 1:27-28).

“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48)

“o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1:26-28)

Por outro lado, não nos cabe interferir no serviço de outros irmãos, ou ditar o que devem fazer, ou como fazer. Se quisermos promover o reino, cabe-nos apenas encorajar uns aos outros ao desfrute de Cristo. Afinal, Cristo é o limite, a fronteira do reino (Jo 1:46; 4:29; 10:7-9). Ele é a porta. Quem entra em Cristo, encontra o reino. O que não está em Cristo não está no reino. O que está em Cristo está no reino. Assim, a quem Ele tiver chamado, recebemos (Mt 18:5; Mc 9:37; Jo 13:20).

“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê” (Jo 1:46)

“Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo 10:9)

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou” (Jo 13:20)

Cristo como limite do reino é uma grande lição para nós. Muitas vezes temos oportunidades de cooperar pelo reino, mas somos limitados por algum tipo de ‘circuncisão’, por alguma fronteira dentro do reino, baseada em ensinamentos e práticas que não constituem a fé, a verdade do evangelho (Cl 4:10-11). Outras vezes nos recusamos a receber ajuda pelo mesmo motivo. Cristo é o nosso limite. Ele é a porta. Não podemos criar outra porta, outra separação, pois, certamente, deixaremos o Senhor do lado de fora (Ap 3:17-20).

“Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo” (Cl 4:10-11)

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3:20)

Cristo é a fronteira, é a entrada do reino e é também sua posição (Lc 17:20-21; Jo 4:21-24; 14:17). Esse reino só pode ser visto em Cristo, só pode ser adentrado e visto por aqueles que nasceram de novo, do alto, cuja vida está oculta com Cristo em Deus (Jo 15: 15:4, 9; Cl 3:1-3). Portanto, para sermos firmados e consolidados na fé acerca do reino, precisamos ser firmados e consolidados Nele. Estar no reino não é uma questão de estar num ‘solo sagrado’, nem de pertencer a um determinado grupo de elite. Se trocarmos nossa posição em Cristo por outra posição, que desesperança! Que retrocesso!

“Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4:21)

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:20-21)

A coroa

Pode parecer estranho, mas é mais fácil perceber a importância dos aspectos da verdade do reino que citei acima quando eles são atacados. Quando tudo parece bem, o evangelho do reino parece teórico e evasivo. Mas quando a continuidade de nossa salvação é ameaçada, vemos quão preciosa é a fé na palavra do reino. Por exemplo, quando outra autoridade, ou outra forma de autoridade, surge na igreja. Ou quando alguém tenta impor um limite à igreja, excluindo outros irmãos, baseado em uma teoria, em um ensinamento, em uma prática [ainda que comprovada e claramente bíblicos].

A triste percepção é que a maioria dos cristãos lutaria mais por seu líder do que por Cristo. Digo isso pois é patente que, diariamente, lutam mais para provar qual líder [ou qual doutrina] é superior do que para que Cristo seja o único tema numa conversa, para que nada retire a atenção e a simplicidade devidas a Cristo. Lutam mais por práticas, que constituem limites muito restritos, do que por preservar Cristo, que é inclusivo.

Por isso, amados, esforcemo-nos por manter a unidade do Espírito, no vínculo da paz. Lutemos concordemente pela fé evangélica (Fp 1:27). A fé no evangelho acerca de Jesus. A fé no evangelho do reino, que Jesus pregou. Combatamos o bom combate a fim de guardar a fé, até o fim de nossa carreira para que, confiadamente, lancemos mão da coroa que nos está guardada (1 Tm 4:7-8; Hb 6:18).

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1:27)

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (1 Tm 4:7-8)

“para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta” (Hb 6:18)

Minha comissão, diante do Senhor, realmente não é apontar erros, ou identificar exatamente quem, e de que modo, estaria atacando a fé, no que diz respeito ao reino. Creio que só o Espírito pode confirmar os corações, em toda boa palavra e boa obra (1 Ts 3:13; 2 Ts 2:16-17). Numa reação natural, imatura, eu tentaria defender o reino apenas apontando erros e condenando pessoas. Isso mostra minha necessidade de crer mais e confiar mais no Espírito. De fato, é melhor repetir essas palavras do reino, de maneira positiva, e crer.

Por outro lado, vale lembrar que também é parte do ensinamento do reino permitir que cada um receba diretamente do Senhor aquilo que o próprio Senhor deseja dar-lhe (Mt 20:14-15).

“Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20:14-15)

Finalmente, amados, gostaria de pedir que julguem tudo o que acabo de dizer e retenham o que é bom e, no que for preciso, me corrijam em amor. Dois ou três falam, e todos julgam. É nesse julgamento de todos que se manifesta a mente de Cristo (1 Co 14:29; 2:16).

 

A base da igreja

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

A questão da base da igreja, embora não seja apreciada com muita atenção na maioria dos grupos cristãos, têm implicações práticas muito fortes, especialmente entre os grupos ligados à prática do limite da localidade – como as igrejas sob o ministério do Living Stream Ministry [especialmente na América do Norte e Taiwan] e aquelas sob o ministério do irmão Dong Yu Lan [em sua maioria na América do Sul].

Decidi escrever esse texto não com o fim de levantar apenas outro ponto de vista, antes, porém, e ainda mais, levantar mais informações e mais ferramentas para a discussão desse tema, especialmente entre esses amados irmãos; com vistas a um encorajamento específico: o acolhimento dos santos. O Senhor resumiu toda a escritura em um grande mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mt 22:36-39; Mc 12:28-31; Lc 10:27). Quando Ele disse ‘escrituras’, se referia ao Antigo Testamento. No Novo Testamento, de acordo com o ensinamento do apóstolo João, podemos resumir ainda mais o grande, e agora novo, mandamento:
“que nos amemos uns aos outros” (Jo 13:34; 2 Jo 1:5). O conteúdo é, de certo modo, extenso. Por isso, destaquei as seguintes seções:

A fé comum – a diferença entre verdade e interpretação

Primeiramente, gostaria de lembrar que toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm 3:16-17). E que as escrituras testificam de Cristo (Jo 5:39). Deus escreveu (Ex 32:16). Deus levou homens a escrever (2 Pe 1:21). Por isso, nas escrituras encontramos a palavra de Deus, que é a verdade (Jo 17:17). Mas nem toda palavra nas escrituras procede diretamente da boca de Deus [e. g. temos o discurso da serpente, o discurso de Balaão, de Jezabel, entre outros].

É necessário entendimento espiritual para receber o ensinamento das escrituras. É necessário usar todas as escrituras para entender uma porção particular das escrituras e extrair dela a verdade. Nem todo ensinamento, ainda que baseado nas escrituras, pode ser tomado como sendo a verdade. Veja que o próprio Satanás extraiu um ensinamento das escrituras, que foi refutado pelo Senhor Jesus – que também se utilizou das escrituras ao fazê-lo (Mt 4:6-7). Ou seja, é necessário conferir as escrituras com as próprias escrituras. Conferir coisas espirituais com espirituais (1 Co 2:13). Não apenas isso, mas é também necessário ser um homem espiritual, com uma mente espiritual, a fim de julgar e discernir essas coisas (1 Co 2:14). Eu não posso apresentar nenhuma falha técnica ou procedural na interpretação de Satanás. A única coisa que posso dizer é que ele estava errado
porque o Senhor refutou sua interpretação. Ou seja, o entendimento correto é o entendimento do Senhor. Essa é a nossa ortodoxia.

Agora, quem entendeu a mente de nosso Senhor? Cremos que, como corpo de Cristo, temos a mente de Cristo (1 Co 2:16). Os apóstolos sempre utilizaram essas expressões, relacionadas à mente de Cristo, a seu arbítrio, no plural, indicando que não apenas um entre nós tem a mente de Cristo, mas todos (2 Co 4:6; Cl 3:15). Eu diria que o melhor exemplo de como a mente de Cristo se torna conhecida está em 1 Co 14:29: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem”. A mente de Cristo não está nos dois ou três que falam, mas em todos, nos que julgam.

Outra passagem muito boa acerca da mente de Deus, de seus juízos, leva à mesma conclusão, acerca da porção que foi entregue a todos. Leiamos Romanos 11:33 a 12:8:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina esmere-se no fazê-lo; ou o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem
exerce misericórdia, com alegria.”

É assim, pensando com uma mente renovada, pensando de acordo com a fé que Deus repartiu a todos, com a mente de Cristo, que toda a igreja pode entender a mente de Deus e odiar aquilo que o Senhor odeia (Hb 11:3; Ap 2:6). Toda a igreja pode refutar a idéia hierárquica de que apenas um tem a mente de Cristo e todos os outros devem segui-lo. E é por isso que a fé verdadeira, a verdade das escrituras, é de todos os eleitos de Deus: (Tt 1:1). Ela já estava perto, na boca e no coração, daqueles que haveriam de recebê-la pela pregação da Palavra de Cristo (Rm 10:8). A fé foi repartida pelo próprio Deus a cada um, sendo, portanto, comum e mútua – é dos que falam e é dos que ouvem (Rm 12:3; 1:12; Ef 4:5; Tt 1:4; 2 Pe 1:1; 1 Jo 5:4). A fé foi entregue a todos de uma só vez (Jd 1:3). Essa fé permanece (1 Co 13:13). Todos são capazes de recebê-la, de aceitá-la e até mesmo de mantê-la, sem que ninguém precise exercer controle (2 Co 1:24; 4:13). Pois essa fé comum é também a fé do próprio Senhor (Ap 2:13).

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador”
(Tt 1:1-4)

“não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vossa alegria; porquanto, pela fé, já estais firmados” (2 Co 1:24)

“Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita” (Ap 2:13)

Achados arqueológicos e a própria tradição cristã nos mostram que, já no primeiro século, cartas circulavam entre os irmãos para ensinar a maneira de discernir a fé comum. As próprias cartas dos apóstolos, que hoje compõem o cânon do Novo Testamento, tratam desse problema. Mas os apóstolos sempre apontam toda a igreja, e não apenas alguns na igreja, como responsáveis por discernir o que é a fé (2 Co 13:5-9; Fp 1:9-10; 1 Jo 4:2-8) {1, 2, 3}.

“Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (1 Co 11:31)

“Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” (2 Co 13:5).

“Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.” (1 Jo 4:3)

Mas foram as cartas dos Pais Apostólicos, especialmente as de Inácio e de Clemente, discorrendo acerca dessa mesma questão, entre o fim do século I e meados do século II, que geraram a maior influência na cristandade em geral. Eles defendiam que os presbíteros/bispos [todas as cartas – 1 Clemente aos Coríntios; e cartas de Inácio aos Efésios, aos Romanos, aos Magnesianos e aos Filadelfos – intercalavam o uso dos temos ‘presbítero’ e ‘bispo’ como sinônimos] haviam herdado o ensinamento dos apóstolos e deveriam apresentar a palavra final, a ortodoxia, no entendimento das escrituras. Era como se dissessem que a mente de Cristo, entregue aos apóstolos, fora repassada como herança aos presbíteros, e, agora, esses últimos deveriam preservar a ortodoxia na igreja {1, 2}.

Infelizmente, o resultado histórico dessa percepção errônea foi o estabelecimento de uma hierarquia rígida, de uma liturgia morta e uma grande degradação no meio do povo de Deus no Novo Testamento. Essas mesmas cartas foram usadas pelo Papa Leão III, no ano 800, para justificar o que seria o apogeu do papado e da hierarquização da igreja: o próprio Papa, ao coroar Carlos Magno como Imperador do Império Romano Ocidental, lembrou que era o rei quem se curvava ao Papa para ser coroado e, por conseguinte, era o Papa quem deveria ser considerado como imperador dos reinos da terra e representante único de Deus na terra {1}. Essa teoria se revelaria, de forma mais devastadora, no documento intitulado ‘Pastor Eterno’, de Pio IX, em 1870, que determinava a infalibilidade papal {4}. Esse foi o corolário máximo da tese de que alguns – e não todos – são mantenedores da fé ortodoxa, ou, a fé que, na verdade, é comum.

A igreja na cidade e suas implicações

Mas por que gastar tanto tempo falando sobre isso, se, na verdade, a proposta era falar sobre a base da igreja? Para que, na comunhão, estejamos abertos a tratar uma interpretação como interpretação, e não como verdade. Estejamos abertos a tratar de uma prática como uma prática, e não como dogma santíssimo. Não importa quem a tenha ensinado. Combatemos pela fé evangélica, pela fé comum, que resulta na nossa comum salvação (Fp 1:27; 1 Tm 6:12; Jd 1:3). Combatemos pela verdade do evangelho (Gl 2:5). Não combatemos por interpretações, tradições ou práticas – por melhores que sejam. O espírito aqui não é de combate, mas de apreciação ordenada de um tema bíblico e importante para a prática cristã – especialmente no que concerne ao amor fraternal.

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1:3)

Passo, a seguir, a apresentar 1) um fato, ou registro bíblico; 2) algumas interpretações baseadas nesse relato; 3) uma prática baseada nessas interpretações.

Lendo o Novo Testamento vemos que, em seu ministério terreno, o Senhor Jesus usou a palavra igreja [ekklesia, no original grego] apenas duas vezes: em Mt 16:18 e em Mt 18:17. Muitos mestres do passado nos legaram a interpretação de que, em Mt 16 o Senhor se referia à igreja em seu aspecto universal – ou seja, à assembléia de todos os salvos, desde a era apostólica até à volta do Senhor; e que, em Mt 18, o Senhor se referia a um aspecto menor, prático e palpável da igreja.

Os apóstolos também se referiram à igreja nessas duas acepções. Há várias menções à igreja no sentido mais amplo, especialmente no ensinamento sobre a igreja. A igreja foi apresentada como o novo homem (Ef 2:15); a nação e povo de Deus (1 Pe 2:9); a casa de Deus (1 Tm 3:15; Hb 10:19-22); a família de Deus (Ef 2:19; 3:15); a universal assembléia dos primogênitos de Deus (Hb 12:22-23); a noiva de Cristo (Ef 5:22-32); O corpo de Cristo (Ef 1:23; Cl 1:24); e vários outros aspectos claramente relacionados à acepção universal.
Mas os apóstolos também usaram a palavra ‘igreja’ para se referir a um pequeno grupo, um pequeno ajuntamento ou assembléia (1 Co 4:17; 11:18; 14:19, 35; Cl 4:16; 1 Tm 5:16; 3 Jo 1:6, 9, 10). E, ao se dirigirem a essa assembléia pequena, prática e palpável, eles geralmente utilizaram a cidade onde os membros daquela assembléia moravam como fator identificador (At 11:22; 13:1; Rm 16:1; 1 Co 1:2; 2 Co 1:1; Gl 1:2; Cl 4:16; 1 Ts 1:1; 2 Ts 1:1). Embora, algumas vezes, utilizassem outros critérios, tais como a casa de alguém (Rm 16:5; 1 Co 16:19; Cl 4:15; Fl 1:2). Na maioria das vezes é possível perceber que, na verdade, são duas maneiras de se dirigir à mesma assembléia – como é o caso da igreja dos colossenses, que era a igreja na casa de Filemon; e da igreja dos laodicenses, que era a igreja na casa de Ninfa (Cl 1:1-2; Fl 1:2; Cl 4:15-16). O próprio Senhor Jesus, ao se dirigir aos cristãos, usou a cidade como referência, como identificador de uma igreja (Ap 1:11-16; Ap 2:1, 8, 12, 18; 3:1, 7, 14). Esse é o relato bíblico.

Estudando esse relato, acerca do padrão e da prática das primeiras igrejas, não seria difícil chegar à conclusão de que as assembléias cristãs, as igrejas na época dos apóstolos, se identificavam de acordo com a localidade (uma cidade, uma vila ou vilarejo, e até mesmo uma casa). Essa referência também aponta para uma esfera, ou limite, de cuidado e de governo. Os presbíteros eram presbíteros naquela localidade, ou melhor, na igreja que estava naquela localidade (Fp 1:1; At 13:1; 14:23; 20:17, 28; Tg 5:14). Esse é o limite da localidade. Esse limite é uma conclusão, ou interpretação, e não o registro propriamente dito. Vários mestres cristãos, em diferentes épocas, chegaram a essa conclusão e registraram sua interpretação em livros que hoje são, obviamente, nossa herança. E é provavelmente por isso mesmo que hoje nos parece tão fácil chegar a esse entendimento.

Agora, chegamos a uma interpretação posterior, que não pertence à maioria dos que discorreram sobre a prática do limite da localidade. Eu diria que especialmente no ensinamento do irmão Watchman Nee, encontramos a interpretação posterior de que essa prática seria a crucial para a unidade da igreja. O irmão Nee identificou uma série de desvios da prática cristã durante os séculos, identificou também um processo de restauração da vida normal da igreja, de acordo com o padrão neotestamentário, à partir da reforma. Por fim, ele identificou o retorno à unidade, por meio da prática – ou a observância – do limite da localidade como sendo crucial para a continuidade desse processo de restauração, de retorno à ortodoxia da igreja: uma vez que todos os cristãos numa cidade percebessem que são a única e indivisível igreja ali, não haveria mais divisões, e o Senhor poderia corrigir e edificar a todos livremente. Como era muito improvável que a maioria dos cristãos envolvidos em denominações e grandes missões transpusessem seus limites ministeriais e denominacionais a fim de abraçar a unidade, baseando-se apenas no limite da localidade, o irmão Nee chegou a dizer que aqueles poucos que tomassem tal posição se tornariam um testemunho para os demais. Um testemunho de que a igreja na forma primitiva, de acordo com o registro do Novo Testamento, era viável e praticável. Um testemunho de que a unidade não é apenas espiritual, mas pode ser prática {5, 6}.

Alguns autores indicam esse ensinamento como sendo parte de uma fase do irmão Nee, que depois foi superada, quando ele não mais enfatizava a prática do limite da localidade, mas outros aspectos da prática normal da igreja cristã [tais como o governo da igreja e o sacerdócio universal] como sendo cruciais para a restauração da unidade e, conseqüentemente, da igreja. O próprio irmão Nee, em uma de suas mensagens, dá a entender que estava reavaliando seu ministério e prática, e cria que o amor fraternal, a realidade de Filadélfia, só estaria entre nós quando todos pudessem e fossem ajudados a exercitar seu ministério na igreja [último capítulo do livro ‘Palestras Adicionais sobre a Vida da Igreja’].

No ministério do irmão Witness Lee, o ensinamento sobre o limite da localidade como base da unidade tomou um corpo muito maior [diria que se tornou a regra da localidade] e alcançou vários continentes. No ministério do irmão Lee, também, foi dada excessiva ênfase à interpretação de que o testemunho e a restauração da igreja estariam intrinsecamente ligados à observância da regra da localidade, e que, a observância dessa regra era igual à unidade entre os filhos de Deus {7}. O irmão Lee chegou a dizer, e enfatizar, que o pão que partíamos era, ao mesmo tempo, em memória do Senhor [conforme as escrituras] e para dar testemunho, ou para declarar a unidade da igreja, de acordo com a regra da localidade. Ele até mesmo instruiu aos irmãos que, ao nos reunirmos para partir o pão, era necessário cantar hinos que declarassem nossa unidade {8}.

Sob o ministério do irmão Witness Lee, direta ou indiretamente, nas décadas de 60 e 70 do século passado, centenas de congregações se levantaram nos Estados Unidos e no Brasil. Daí, alcançaram o Canadá e vários países da América do Sul. Outras congregações que partilhavam da mesma interpretação [inicial, do irmão Watchman Nee] acerca do limite da localidade haviam surgido na Europa, na África e no Extremo Oriente, embora sob outros ministérios. Mas foi na década de 80 que esse ensinamento se cristalizaria na forma como a maioria de nós o conhece hoje. Não apenas esse ensinamento, mas, especialmente, seus corolários.

Li uma extensa literatura dos irmãos Nee e Lee, e diria que esse corpo doutrinário se cristalizou no ensinamento acerca do mover atual de Deus: Deus teria, em cada geração ou era, um grupo, dentre a totalidade de seu povo, que levaria Seu testemunho adiante, e executaria toda Sua vontade – e esse grupo, atualmente, seria formado por aqueles que pertencem à “restauração do Senhor”, ou seja, aqueles que observavam o limite da localidade {9}. Não é difícil perceber a questão do mover de Deus, e do testemunho de Deus em cada era. O irmão Sparks, por exemplo, escrevera dois livros sobre esse assunto, muitos anos antes {10, 11}. E vários outros escreveram na mesma linha. Mas é difícil explicar, sob a luz das escrituras, como esse testemunho, ou como o mover de Deus pode ser diretamente atrelado a um grupo específico, especialmente àqueles que guardam o ensinamento [ou a regra] da igreja na localidade.

Para quem acha que, sozinho, está levando o mover de Deus adiante, é bom lembrar-se desses versículos:

“Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida. Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR. Eis que passava o SENHOR; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do SENHOR, porém o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave. Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?

[…]

Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou.” (1 Rs 19:11-13, 18).

Talvez, estejamos confundindo o mover do Senhor com algo visível. Um vento forte. Um terremoto. Uma grande obra. Essa confusão nos faz pensar que estamos sós. Nos faz pensar que só nós nos preservamos do mal, quando, na verdade, se fomos guardados, foi o Senhor quem nos preservou. E Ele está preservando outros sete mil a quem nem conhecemos…

“Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11:2-6)

Voltando à linha história, preciso apresentar alguns desdobramentos, doutrinários e práticos, do ensinamento do ‘mover atual’ de Deus: 1) a ênfase no mistério do irmão Lee, como sendo oráculo único e indisputável de Deus para esta era – com o ensinamento acerca do ungido, aquele que tem a visão da era [uma nova versão do infalível Papa Pio IX]; 2) a institucionalização das assembléias locais em torno de um único ministério, posteriormente materializado na corporação chamada Living Stream Ministry – com o ensinamento acerca de uma única obra e um único ministério em toda a terra [o novo catolicismo americano]; 3) a cisão de muitas assembléias sob outros ministérios, especialmente na Europa e na África, no início da década de 90; 4) a posterior cisão das igrejas na América do Sul com aquelas na América do Norte e no Extremo Oriente, em meados de 2005, e a conseqüente, e semelhante, ênfase no ministério do irmão Dong Yu Lan, como sendo o último “João”, portador do ‘ministério da vida’, que não só permaneceria até a volta do Senhor, mas que, sozinho, apressaria Sua volta.

A base da localidade é uma interpretação. O mover de Deus é uma interpretação. Mas tenho a memória indisputável de uma infância em que, ao mesmo tempo em que era ensinado de acordo com as escrituras, também era ensinado a respeitar tais interpretações como sendo “a presente verdade”, a verdade atual, viva. Ou seja, as interpretações do ungido eram tão válidas quanto, ou até mais válidas que as escrituras. A “presente verdade”, nesse sentido, também é uma interpretação.

“Por esta razão, sempre estarei pronto para trazer-vos lembrados acerca destas coisas, embora estejais certos da verdade já presente convosco e nela confirmados” (2 Pe 1:12)

Posso igualmente interpretar o versículo dando ênfase à palavra ‘já’. A verdade JÁ estava presente com os santos. O apóstolo os estava lembrando da verdade que JÁ possuíam e na qual JÁ estavam confirmados. Outra coisa interessante é que o original não traz a expressão ‘convosco’. Ela está lá apenas para completar o sentido da frase na versão traduzida. Ou seja, Pedro estava falando da verdade já presente. A verdade que já havia sido falada, que já fora estabelecida. A verdade já estava lá, até mesmo antes dos destinatários da carta serem salvos. Contudo, o problema com interpretações não é tanto na sua forma ou método [embora esses tenham sua importância], mas nas práticas resultantes.

Nas igrejas, a prática resultante da regra da localidade, cristalizada na doutrina do mover atual de Deus, era, e é, um paradoxo entre a supervalorização doutrinária da unidade e do amor fraternal [materializados, respectivamente, no ministério do ungido de Deus para esta era e na observância da regra da localidade] e uma triste dificuldade em acolher aqueles que não mantinham as mesmas práticas, especialmente a regra da localidade. O limite da localidade se tornou a nova “circuncisão”, que determina a aceitação de um filho de Deus e de seu ministério [por isso o termo ‘regra’]. A prática, em geral, é ministerialista [todas as assembléias existem e funcionam em torno de um único ministério] e exclusivista [quem não adere a esse ministério e suas práticas não é completa e abertamente aceito]. Triste, mas inegável.

Eu pergunto, especialmente a esses irmãos, com quem tenho convivido há tantos anos, haveria outra maneira de interpretar o registro bíblico? Haveria outra maneira de praticar o limite da localidade? Haveria outra maneira de buscar a unidade, que não resultasse numa prática ministerialista e exclusivista? Ou será que, aqueles que observam o limite da localidade já alcançaram o ápice da revelação divina? Estão ricos e abastados, e não precisam de coisa alguma?

Eu creio que é possível ver mais, receber mais luz, compreender melhor. É possível amadurecer e aperfeiçoar as práticas. E, nos últimos meses, ao tentar responder a essas questões, passei a conhecer várias igrejas que, em realidade, estão muito mais próximas daquilo que pregamos como prática ideal – mas não praticamos. Algumas herdaram o mesmo corpo doutrinário dos irmãos unidos, e até mesmo do irmão Watchman Nee. Outras, sequer ouviram falar de irmãos unidos ou W. Nee. Eu resumiria uma descrição desses irmãos dizendo que me acolheram sem se preocupar com questões ministeriais. Assim como têm acolhido a muitos. Na verdade, eles nem se preocupam se você sabe ou enfatiza que o nome da igreja é igreja, ou que, a igreja é uma só [a unidade não é uma circuncisão, não é imposta como requisito entre eles]. Eles amam e acolhem a todos [assim, a unidade é um resultado].

São tantas igrejas e tantos ministros que têm buscado a realidade do amor fraternal, da unidade, do acolhimento de todos os santos, do sacerdócio universal, que é impossível identificá-los como um movimento ou “um ministério”. A multiplicidade simplesmente atesta a multiforme sabedoria de Deus e a unidade do Espírito, no vínculo da paz. Creio que temos muito a aprender com esses irmãos, e com todos os filhos de Deus – pois a cada um Deus repartiu a fé. Especialmente humildade. Também creio que seja possível, com essa atitude, rever o que é o ensinamento dos apóstolos acerca da base da igreja. É possível descobrir qual é a verdade acerca da base da igreja, e, assim, tratá-la como tal e, também, passar a tratar interpretações como simples interpretações.

As informações que coletei a seguir, e a interpretação que delas derivei, estão, nesse exato momento, formando em mim uma nova percepção acerca da base da igreja e, espero, formando uma atitude mais aberta e acolhedora. Creio que sejam úteis e, por isso, quis escrever todo esse texto para compartilhar do que tenho visto. Caso tenha incorrido em qualquer erro doutrinário, estou aberto à correção.

As palavras do próprio Senhor Jesus

O Senhor Jesus gastou a maior parte de seu ministério terreno ensinando acerca do reino – reino dos céus em Mateus; reino de Deus, nos demais evangelhos [como citação, não poderia apresentar nada menos que os quatro evangelhos – inteiros]. Ele não enfatizou a igreja. Nem como assembléia universal, nem como assembléia local. Ele realmente não deu atenção à assembléia, ao ajuntamento. Ele deu atenção à vida, à constituição e ao quotidiano dos filhos do reino (Mt 13:38-42). Ele até mesmo falou sobre o galardão do reino (v. 43).
Entretanto, precisamos perceber que, embora não tenha discorrido extensamente sobre a igreja, o que o Senhor Jesus falou sobre ela é basilar e indiscutível. Em outras palavras, é a verdade. Ele disse:

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18).

Agora, o mesmo versículo, com algumas interferências úteis à interpretação:

“Também eu te digo que tu és Pedro [petrospetros, uma pedra], e sobre esta [tauth thtaute te, aquela] pedra [Petrapetra, rocha, penhasco ou cordilheira de pedra] edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”

Agora, com o contexto:

“Indo Jesus para os lados de Cesáreia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas. Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

Muitos irmãos já discorreram sobre esse versículo. A interpretação clássica é que Pedro é a rocha, no sentido de modelo, como o primeiro a fazer a declaração de fé, sobre a qual a igreja seria edificada [veja que até a interpretação católica ‘oficial’, editada no concílio de Calcedônia, dita que a rocha é a confissão de Pedro] {4}. Especialmente após a reforma, e tentando fugir da interpretação que dá espaço para o ‘papado petrino’, a maioria dos irmãos usou a diferença entre os termos petros e petra para indicar que o Senhor referia-se a Pedro como simples pedra e a Si mesmo como a rocha sobre a qual a igreja seria edificada. Finalmente, eu apresentaria uma linha posterior, que usa o fato de a expressão correta ser ‘aquela rocha’, para indicar que aquela rocha era a revelação que o Pai acabara de conceder a Pedro.

Eu posso dizer que aceito as três interpretações. A base da igreja é a fé de Pedro, ou, o modelo de confissão de fé de Pedro. Ou seja, quem quer que comungue da fé de Pedro, a fé que Pedro também pregou, está sobre essa rocha, está na igreja. Também creio que a base da igreja é Cristo. A rocha é Cristo. Se alguém está em Cristo, está na igreja. E também aceito que a rocha é a revelação do Pai acerca de Cristo. Quem quer que tenha recebido tal revelação da parte do Pai, está na igreja. Em sentido prático, a fé de Pedro é a fé em Cristo, e a revelação do Pai é acerca de Cristo. Posso simplificar dizendo que todas as interpretações apontam para Cristo.

Talvez não seja importante, mas gostaria de notar que o Senhor disse que Ele mesmo edificaria a igreja sobre essa base. De certa forma, quem traz pessoas para essa base é o próprio Senhor. Ora, Ele é o edificador. É Ele quem lança as pedras desse edifício onde bem Lhe parece. Digo isso apenas para desfazer um pouco a impressão de que nós precisamos, ou de que podemos, corrigir a base de alguém. Nesse versículo não há nada que possamos fazer para constituir a base. A base não depende de nenhuma ação de nossa parte. Quem lança a base [dá a revelação] é o Pai e, até mesmo a ação, o ato, de edificar sobre essa base é indubitável e reservadamente do Senhor.

O irmão Lee, em defesa da regra da localidade, engenhosamente argumentou que Cristo, de fato, era o fundamento, a rocha. Mas esse fundamento precisava ser lançado sobre algum terreno, e o terreno não pode existir sem um limite. Daí, Cristo seria lançado como fundamento, sobre o terreno, ou base, da unidade. Mas a base da unidade existe apenas para aqueles que guardam esse limite adequado, o limite da localidade. Para todos os outros cristãos, que não guardam tal limite, o fundamento seria outro [suas doutrinas particulares, provavelmente] {7}. Bom, o irmão Lee ignorou o fato de que a regra da localidade é uma doutrina particular. Ele também ignorou o fato de que, em inglês [idioma em que falou boa parte das mensagens sobre esse assunto], foundation e base são sinônimos. Especialmente quando o fundamento de um edifício é uma rocha [ou um penhasco, ou até mesmo uma cordilheira de pedra – outras traduções possíveis], o fundamento e o terreno são, basicamente, a mesma coisa. O terreno todo é constituído pela rocha, o limite do terreno é o tamanho da rocha, e a rocha é o fundamento do edifício. Por outro lado, não há nenhuma indicação nas escrituras de que a unidade seja a base da igreja, ou de que seja o terreno sobre o qual a base deveria ser lançada.

A rocha, que é Cristo, é a base, é o terreno e é o limite.

No capítulo 18 de Mateus, o Senhor mostra que o maior no reino dos céus é aquele que se humilha como uma criança e que, quem recebe a criança O recebe [conseqüentemente, quem não é capaz de receber uma criança, não pode recebê-Lo] (vs. 1-5). Daí Ele passa a discorrer sobre os tropeços, alertando que é melhor suicidar-se que fazer tropeçar um pequenino (v. 6). E é melhor perder os membros do próprio corpo a tropeçar (vs. 7-9). Depois apresenta a parábola das cem ovelhas, mostrando que é a vontade do Pai que nenhum se perca (vs. 10-14) e, daí, vem à questão de como se tratar um irmão culpado, em que a igreja é citada como uma assembléia à qual alguém pode se dirigir a fim de corrigir um problema. E é, então, que Ele dispara: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (v. 20). Finalmente, o Senhor discorre sobre a questão do perdão (v. 21-35).

Eu diria que extrair um ensinamento sobre a base da igreja desse capítulo não é tão simples como concentrar-se em um versículo [caso do capítulo 16]. Mas, posso arriscar centralizar o capítulo no versículo 20. Aqueles que estão reunidos no nome do Senhor, O têm como centro. Cristo é o centro, a razão, base e a motivação do ajuntamento, da reunião, da assembléia, da igreja. Cristo é o base e motivação para receber os pequeninos, os filhos de Deus. Ele é a razão pela qual os pequeninos são preservados de qualquer tropeço. Ele é a razão, a base, pela qual a ovelha perdida não será abandonada à própria sorte. Ele é a razão, a base, pela qual alguém busca ajudar um irmão, corrigi-lo; e é a motivação, a base, pela qual alguém pode perdoar [até mesmo o irmão que não quer ser corrigido], não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete.

Nesse capítulo vemos várias práticas [receber, preservar, buscar, corrigir, perdoar]. Mas nenhuma delas é o centro da assembléia. O Senhor é o centro. Ele está no meio daqueles que estão reunidos em Seu nome. Ele é o centro da reunião. Ele é a centralidade, a pedra angular, fundamental, a base da igreja.

O ensinamento dos apóstolos

Seria incorreto dizer que os apóstolos não se preocupavam com práticas. Eles não só guardaram, como ensinaram as práticas que o próprio Senhor nos legou – a saber, o batismo (At 2:38-41; 8:12, 38-39; 10:47-48; 16:15, 33; 18:8; 19:4-5; Rm 6:3; 1 Co 10:2; 12:13; Gl 3:27; Cl 2:12; 1 Pe 3:21) e a mesa do Senhor (At 2:42, 46; 20:7, 11; 1 Co 10:15-22; 11:20-34). Eles também ensinaram práticas que julgavam importantes, e, até mesmo excelentes (1 Co 12:31). Ensinaram acerca do modelo adequado de reuniões. Ensinaram acerca do profetizar (1 Co 14:26-33). Com respeito a invocar o nome do Senhor (At 2:21; Rm 10:12-13). Como ofertar (2 Co 9:1-15). Como pastorear (1 Pe 5:2). Como ensinar (Rm 12:7; 2 Tm 2:2). E muitas outras práticas.

Entretanto, podemos dizer, sem medo de fugir à verdade, que muito maior atenção foi posta na defesa e confirmação do evangelho do que em práticas (Fp 1:7, 16). O registro em Atos é crucial para percebermos que a prática e a pregação dos apóstolos se concentraram na defesa da fé comum, no ensinamento acerca da pessoa de Cristo e de sua obra (At 2:22-36; 3:12-26; 4:8-12, 19-20; 5:29-32; 7:2-56; 8:5, 25, 35-39; 10:36-43; 11:15-17; 13:16-41; 14:15-18; 15:7-11; 16:30-33; 17:3, 22-31; 18:5, 28; 19:4-5, 17; 20:18-36; 26:13-29; 28:23-28). Todos os discursos registrados apresentam, de uma forma e de outra, Cristo e Sua obra de redenção.

É certo que muitos problemas externos afligiam os cristãos, já no início da igreja: perseguição, pobreza, martírio (At 8:1; 2 Co 8:2; At 11:28; 1 Ts 2:14; 4:13-14). Mas, embora se preocupassem com esses problemas, os apóstolos despenderam a maior parte de seus escritos tratando de problemas internos. Isto é, combatendo pela fé, corrigindo e aperfeiçoando a fé dos santos (2 Co 11:28; Ef 1:15-21; Fp 1:9-10; Cl 1:9-12; 1 Ts 3:10; Cl 1:28; 2 Tm 3:17; Hb 6:1).

“Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas” (2 Co 11:28)

“Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate” (1 Tm 1:18)

“Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas” (1 Tm 6:12)

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7)

Nesse esforço de guardar a fé, de defendê-la, os apóstolos gastaram algum tempo ensinando acerca da base da igreja. O que mostra a importância do tema.

Paulo disse aos coríntios:

“Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós. Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:9-11)

Aos efésios:

“edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2:20-22)

E aos colossenses:

“Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças” (Cl 2:6-7)

Pedro, aos irmãos do que hoje seria a Turquia:

“Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1 Pe 2:4-8)

As referências acima mencionam claramente Jesus Cristo como base, fundamento, pedra angular do edifício de Deus, que é a igreja. Outras referências na doutrina dos apóstolos mostram Cristo como base da igreja, ainda que indiretamente:

“e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor,” (Ef 3:17)

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4:15-16)

É importante notar que o trecho de Efésios 2 apresenta o ensinamento dos apóstolos e profetas como a base sobre a qual somos edificados, mas, se nos lembrarmos das palavras do Senhor acerca do testemunho das escrituras, veremos que o fundamento dos apóstolos e profetas é o próprio Senhor (Jo 5:39; At 3:18-21; 10:43; 26:22-23; Rm 1:2; Ef 3:5; 1 Pe 1:10; 3:2). O mesmo texto também apresenta o Senhor Jesus como pedra angular, ou seja, como a peça inicial e da qual depende toda a edificação:

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2:19-22)

“Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39)

Mais uma vez, não é possível chegar a outra conclusão, senão a de que Cristo é o fundamento e a base da igreja. A unidade é boa, e devemos nos esforçar diligentemente por preservá-la, mas não é a nossa base. Há várias outras coisas boas e importantes [tais como o batismo, a mesa do Senhor, o presbitério, os dons espirituais, os ministérios, etc.], mas nenhumas delas constitui a base nem o limite da igreja. O ensinamento dos apóstolos e as palavras do próprio Senhor Jesus nos mostram que a base da igreja é Cristo.

A questão da unidade

Já ficou claro que a unidade não pode ser a base da igreja, nem o terreno sobre o qual a base é lançada. Nada além de Cristo pode ser tomado como base ou limite da igreja. Mas, embora esse não seja o tema desse texto, vale à pena gastar algum tempo para verificar se alguma prática pode estar relacionada à unidade. Pois, especialmente para aqueles que foram mais influenciados pelos ministérios dos irmãos Nee, Lee e Dong, isso tem muita relação com a base da igreja. Sabemos que, começando com o irmão Nee, e, de maneira muito mais intensa no ministério do irmão Lee, a unidade foi repetidamente atrelada à prática da igreja na localidade. Mas, isso está de acordo com o ensinamento dos apóstolos?

Nas palavras do próprio Senhor Jesus, a unidade é importantíssima, pois dela depende o nosso testemunho. Se formos um, o mundo crerá (Jo 17:21). Mas, de acordo com as palavras do Senhor, de que depende a nossa unidade?

“Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo 17:11).

“E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade. Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (vs. 19-21).

“Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos;” (v. 22).

“eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (v. 23).

No primeiro excerto, é evidente que unidade depende de sermos guardados no nome do Senhor. No segundo, vemos que o Senhor roga para que sejamos santificados na verdade, a fim de que sejamos um. No terceiro, a glória do Pai nos é transmitida, a fim de que sejamos um. E o quarto reforça algo que é dito nos três anteriores: que essa unidade não depende do que fazemos, mas do que Deus é.

Somos um, assim como o Pai e o Filho são um. Temos a capacidade de sermos um, e de sermos aperfeiçoados nessa unidade, por que o Filho está em nós, e Pai está no Filho. Então, nas palavras do Senhor, a unidade depende de sermos guardados no nome do Senhor, de sermos santificados na verdade, de recebermos a glória do Pai e de termos Cristo em nós. Eu diria que essa é uma combinação bastante profunda, que não pode ser reduzida a uma prática, ou medida por uma única prática.

Por exemplo, sermos guardados no nome do Senhor pode estar relacionado a invocar o nome do Senhor e pode estar relacionado a não levarmos sobre nós outro nome, não darmos testemunho de qualquer outro nome, não apresentarmos às pessoas outro nome além do nome do Senhor. São muitas questões práticas envolvidas apenas nesse primeiro ponto.

Sermos santificados na verdade depende, primeiramente, de conhecermos a verdade. E, então, de sermos separados de uma conduta que não condiz com a verdade. Também vai mais fundo, tratando de sermos transformados interiormente pela verdade. Receber a glória do Pai também leva a várias conseqüências práticas: não receber glória de homens, não buscar glória de homens. Não nos gloriar, nem glorificar a qualquer outro que não seja o Pai. Não podemos reduzir tudo isso a uma só prática.

O ensinamento dos apóstolos acrescenta ainda outras questões importantes à natureza da nossa unidade:

1) A unidade é do Espírito, ou provém do Espírito

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3)

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1 co 12:13)

2) A nossa unidade é orgânica, é a unidade do corpo de Cristo:

“assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,” (Rm 12:5).

“Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo.” (1 Co 12:27)

“E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1:22-23)

“e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Ef 2:16)

“a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho;” (Ef 3:6)

“porque somos membros do seu corpo” (Ef 5:30)

“Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos” (Cl 3:15)

3) A unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus é algo que todos precisamos alcançar:

“Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (v. 13)

Assim como o ensinamento do Senhor sobre a unidade, esse ensinamento dificilmente pode ser reduzido a uma prática. Há um aspecto da unidade que provém do Espírito, e nos cabe apenas preservar. Outro aspecto provém da vida, do fato de sermos membros vivos de um corpo. Talvez aponte também para o encabeçamento e a primazia de Cristo. Há, ainda, outro aspecto da unidade que devemos alcançar. Mas esse último aspecto está relacionado à fé e ao conhecimento de Cristo, que são subjetivos (2 Co 4:6, 13).

O irmão Nee ensinou, e o irmão Lee defendeu fortemente que, assim como Jerusalém era o único lugar para adoração, o único lugar em que o povo poderia conhecer Deus e serví-Lo, a “base da unidade” seria, como realidade desse lugar no Novo Testamento, a única esfera em que um cristão poderia conhecer Deus e ser edificado. Isso implicava no ensinamento de que deixar o denominacionalismo e vir à prática da igreja no limite da localidade equivalia a deixar a babilônia espiritual e voltar a Jerusalém, para restaurar o testemunho de Deus. Ou seja, a regra da localidade correspondia, ao mesmo tempo, à unidade do povo de Deus e à Jerusalém [o lugar de adoração] do Novo Testamento {7}. O irmão Lee deve ter ignorado completamente as palavras do Senhor em João 4:21-24:

“Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”

Sair da Babilônia espiritual e retornar ao lugar de adoração, à Jerusalém neotestamentária, para restaurar o testemunho de Deus, certamente não tem qualquer relação com a tal base da unidade ou com o limite da localidade. Não pode ser equiparado a qualquer prática específica. Afinal, que prática poderíamos igualar a adorar o Pai em espírito e em verdade?

Na realidade, há alguns trechos em que os apóstolos relacionam a unidade a algumas práticas. Mas minha impressão é que, em todos eles, as práticas não geram a unidade. Elas apenas expressam a unidade. Ajudam-nos a percebê-la e desfrutá-la.

A mesa do Senhor expressa a unidade:

“Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1 Co 10:16-17).

Note que estou dizendo [e creio que é o mesmo que o apóstolo também estava dizendo] que a mesa expressa nossa unidade, e não que o objetivo da mesa seja a expressão da unidade. Quando nos reunimos diante da mesa do Senhor, o objetivo ainda é a memória do Senhor.

“E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19).

O batismo testifica da unidade:

“há um só Senhor, uma só fé, um só batismo;” (Ef 4:5)

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo.” (1 Co 10:1-4)

“porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3:27-28)

Eu diria que essas duas práticas, em especial, são parte da fé, pois nos foram legadas pelo próprio Senhor Jesus. Portanto, ao praticá-las, estamos expressando a mesma fé. Estamos anunciando a mesma fé, e, assim, percebemos a expressamos nossa unidade, nessa fé comum.

Um trecho, em especial, mostra que o sacerdócio universal [ou a prática, o costume, de receber o ministério de cada um, a porção de cada membro] também expressa essa unidade, e, de certa forma, a preserva:

“Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos revestimos de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso. Contudo, Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é
honrado, com ele todos se regozijam” (1 Co 12:21-26)

Gostaria de destacar a frase “para que não haja divisão no corpo” (v. 25). Deus coordenou o corpo de maneira específica, concedendo honra àquilo que menos tinha, com o fim de evitar a divisão. Precisamos respeitar e preservar esse arranjo para que não haja divisão. Precisamos honrar os membros do corpo, recebê-los. Nunca poderemos dizer “não preciso de ti”, ou “não precisamos de vós”. Todos os membros são necessários. A fé que foi repartida a cada um é necessária. O dom que foi concedido a cada um é necessário. O ministério de cada um é necessário. Pois é o mesmo Deus quem opera tudo, e em todos. Prescindir de um membro seria prescindir da unidade.

Não acredito, irmãos, que uma pessoa que promove um único ministério, possa, ao mesmo tempo, defender que está promovendo a unidade. É evidente que faz o contrário. Se saio para vender livros, e todos os livros comigo têm o mesmo autor, é evidente que estou promovendo esse autor e seu ministério. Isso não é necessariamente ruim. Afinal, devemos receber a todos, e promover os ministérios uns dos outros. Mas, se, ao fazê-lo, dou a entender que outros ministérios não são importantes, ou são menos importantes, se menosprezo outros ministérios, evidentemente, estou prescindindo de vários membros e causando divisão no corpo. Se promover um ministério como
sendo O [único, implicitamente] ministério que trará o Senhor de volta, não estarei menosprezando outros?

Os ministérios dos irmãos que ensinaram acerca do limite da localidade são importantes. Os ministérios dos irmãos Nee, Lee e Dong são importantes. Mas precisamos atentar para que tipo de consideração, que medida de importância, lhes temos dado. E isso digo em favor da unidade. Para que não haja divisão no corpo. Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta,
segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor (Ef 4:14-16).

O limite da localidade é uma boa prática

Não posso dizer que conheço todo o Novo Testamento de cor, mas tenho boas ferramentas de busca e tenho versões interlineares que me ajudam a ver o original grego e até mesmo pesquisar a ocorrência de palavras gregas, nos originais. Utilizando essas ferramentas, não encontrei nenhuma passagem em que os apóstolos ensinam a prática da igreja identificada numa cidade. Os apóstolos escrevem às igrejas em determinadas cidades, fazem menções a essas igrejas, mas nunca disseram a alguém: você deve ser a igreja em tal cidade. Creio que esse ponto não ganhou qualquer atenção no ensinamento apostólico.

Ainda assim, eu diria que, apesar de não constituir um ensinamento [nem da parte do Senhor, nem dos apóstolos], o limite da localidade, ou a prática do localismo, é realmente boa. Mas é uma prática menos importante que o batismo, menos importante que a mesa do Senhor, menos importante que uma série de outras práticas bíblicas. Os apóstolos gastaram tempo até para ensinar sobre o uso ordenado do dom de línguas, mas não viram necessidade alguma em gastar tempo ensinando sobre a prática da igreja na localidade.

Eu diria que essa prática é muito mais um índice, um termômetro, do amadurecimento e da capacidade de acolher de um cristão do que uma necessidade ou imposição. É um resultado, não uma pré-condição. Isto é, a pessoa madura não vai dar importância ao seu ministério particular. Não vai apresentar restrições ao receber a palavra de outro irmão. Também, quando pregar o evangelho e ministrar a palavra a outros, a pessoa madura não estará buscando “plantar filiais” de seu grupo particular, mas, estará apresentando sua cooperação com o evangelho, sua contribuição para a edificação do corpo de Cristo.

Naquelas regiões em que o contexto social gera um quotidiano urbano, a igreja (no sentido de uma assembléia) é mais prática e mais facilmente identificada numa cidade. Essa prática não precisava ser ensinada, na era apostólica, pois era resultado da simples obediência ao ensinamento dos apóstolos. Se todos buscassem viver no Espírito, a unidade do Espírito estaria ali (Ef 3:17). Se todos pudessem profetizar, a capacidade de receber a todos também estaria ali (1 Co 14:31, 39). Se não deixassem de se congregar, a possibilidade de se congregar se concretizaria ali, no âmbito daquela cidade (Hb 10:25).

É interessante lembrar que, já no primeiro século, o Império Romano tinha certa dificuldade em manter suas enormes fronteiras. Isso fazia com que a concentração urbana dentro desses limites fosse maior do que em outros contextos. Por outro lado, a cultura grega, que tanto influenciara a região, era predominantemente urbana. Muitos cidadãos jamais deixavam a cidade, enquanto seus servos e escravos trabalhavam no campo. A queda do Império Romano lançou a Europa numa certa diáspora campesina, que só foi revertida depois da formação dos Estados-Nação, com suas novas capitais e novas aglomerações urbanas, e, especialmente, depois da revolução industrial, que transformou o modo de produção e concentrou a população em torno dos novos parques industriais.

Mas, assim como nem todo o mundo se parecia com o Império Romano, nem todo o mundo acompanhou essa nova evolução urbana ocidental. Tenho servido o evangelho na África há alguns anos e é impossível não perceber que, aqui, a população é predominantemente rural. A maioria dos irmãos que visitamos, nas vilas e povoações, não tem a menor idéia do conceito de cidade. Se você perguntar em que cidade vivem, a maioria vai responder: “eu vivo aqui, nessa montanha” ou “vivo aqui, nessa planície”. As casas são bastante espalhadas, sendo que a maioria das famílias vive em pequenos blocos [uma casa para o pai e uma para cada filho casado] no centro de uma pequena cultura de subsistência. Os limites que identificam um lugar [uma localidade] são muito mais “antropocêntricos” que geográficos. Ou seja, nos países mais desenvolvidos esperaríamos um limite do tipo: “minha cidade
vai daqui até aquele rio”. Mas aqui, o irmão diria: “minha vila vai daqui até as próximas três famílias – pois somos da mesma tribo”. Impor a regra da localidade, baseando-se na cidade, não só seria impraticável como incompreensível para a maioria dos cristãos na África.

No início de minha cooperação com o evangelho aqui, ainda insisti com alguns irmãos para que procurassem definir a que cidade pertenciam, a fim de que fossem “corretamente” identificados como a igreja naquela cidade. Mas, além de apenas causar frustração, tal orientação nunca passou de uma regra, sem qualquer utilidade prática. Eles são mais facilmente identificados como a igreja da vila X, ou a igreja na montanha Y e, por que não, a igreja da família Z. E isso realmente não importa. Não importa o modo como consigo me referir a uma igreja específica. Importa que eles vivam a vida normal de uma igreja. O que se dará uma vez que recebam, entendam e pratiquem o
ensinamento dos apóstolos – que Jesus Cristo é nosso Senhor e Salvador, nossa vida, e tudo o que necessitamos; que são a igreja, e como tal, são o Corpo de Cristo, que Cristo é a cabeça; que são a família de Deus; reino de Deus; nação santa, sacerdócio real; novo homem; etc.

A experiência mostrou que, se os irmãos recebem o ensinamento saudável dos apóstolos, eles não precisam de uma regra para guardá-los da divisão. Eles simplesmente serão acolhedores. Eles não tomarão outro nome sobre si. Não se tornarão uma denominação, divisão ou seita. De igual modo, nos países em que o limite da cidade, por causa do contexto urbano, faz mais sentido, não é a aderência ao modelo da localidade que nos torna um. A unidade do Espírito, no vínculo da paz, não depende da adesão a uma prática. Ela pode ser exibida e experimentada em algumas práticas, mas não depende de nenhuma delas. A imposição de uma prática não produz a unidade, nem nos guarda da divisão. Assim como a circuncisão não podia santificar nem guardar da carne.

Assim, não temos imposto e nem mesmo argüido acerca do limite da localidade aqui na África. Mesmo assim, a experiência mostra que, aqueles que vêm a crer, podem ser, posteriormente, facilmente identificados como a igreja numa determinada localidade. Sempre foi um resultado, nunca uma necessidade.

Referências

  • A História da Igreja – J. Bingham, RJ: CPAD, 2007.
  • História e Histórias do Novo Testamento – B. Witherington III, SP: Edições Vida Nova, 2005.
  • A História não-contada da Igreja do Novo Testamento – F. Viola, SP: Editora Restauração, 2009.
  • Lições da História que não podemos esquecer – A. de Almeida, SP: Editora Vida, 1993.
  • The Normal Christian Church Life – W. Nee, Taipei: TGBR, 1939.
  • Palestras Adicionais sobre a Vida da Igreja – W. Nee, SP: Editora Árvore da Vida, .
  • A Expressão Prática da Igreja – W. Lee, SP: Editora Árvore da Vida, 1989.
  • The Lord’s Table Meeting – W, Lee, Anaheim: LSM 1990.
  • The Triune God’s Revelation and His Move – W. Nee, Anaheim: LSM 1986.
  • The Lord’s Testimony and the World’s Need – T.A. Sparks, 1935
  • Overcomer Testimony – T.A. Sparks, 1945.

Anexo 1 – Testemunho do irmão Harold Hsu, de Taiwan

Quando T. Austin Sparks visitou Taiwan pela primeira vez, Witness Lee o apresentou e falou: “O ministério do irmão Sparks foi introduzido e se espalhou para toda a China por meio de Watchman Nee. Nós trabalharemos junto com ele”. Treze meses depois T. Austin Sparks veio novamente a Taiwan. Isso foi em Janeiro de 1957.

1957 – Comunhão especial sobre a lei da localidade entre T. Austin Sparks e Witness Lee Uma sexta-feira à tarde em 1957, Witness Lee me pediu (o único obreiro) para permanecer em Taipei, porque ele iria conversar com T. Austin Sparks sobre a Lei da Localidade (ou base da igreja). Um total de 5 pessoas participaram daquela reunião: T. Austin Sparks, Paul Madsen, Witness Lee (李常受), Zhang Wu-chen (張悟晨), e Zhang Yu-lan (張郁嵐).

Eu permaneci no andar debaixo na casa dos obreiros esperando para ouvir o relato. A reunião terminou antes das 21:00h. Witness Lee veio imediatamente para a casa dos obreiros falar comigo. “Eu (Lee) perguntei ao T. Austin Sparks: Se houver cinco diferentes grupos cristãos na cidade de Taipei, qual é a igreja real? Ele (T. Austin Sparks) pensou um pouco e respondeu: Se os cinco grupos cristãos são de fato nascidos de novo pelo Espírito Santo (eles têm Cristo em seus corações), então, todos eles são a igreja, porque a igreja é medida por Cristo.”

Os três chineses que ali estavam eram profundamente influenciados pelo ensinamento de Watchman Nee concernente à Lei da Localidade ou base da igreja. T. Austin Sparks viu em suas faces que eles não concordaram com que ele dizia, e perguntou-lhes: “O que vocês querem dizer com a base da igreja?” Witness Lee disse: “Aplicado pelo ‘tipo’ do Velho Testamento, Israel não podia construir o templo na Babilônia, ou no deserto, mas apenas em Jerusalém, que era a base original”. T. Austin Sparks falou: “Sim, mas qual é a base original de Jerusalém?” Lee respondeu: “É onde o Espírito Santo pela primeira vez edificou a igreja em uma localidade, uma igreja em Atos”.

T. Austin Sparks imediatamente reconheceu que era o ensinamento do livro “Repensando nossas missões” de Watchman Nee (publicado em 1939, pela Honor Oak), então ele falou: “Isso é apenas sua interpretação! Até onde sei a base real da igreja não é ‘uma localidade, uma igreja’, mas é o próprio Cristo!” Quando eu ouvi isso foi um choque para mim, pois eu também estava apoiado ao ensinamento de W. Nee naquela época. Foi um grande choque pra mim pessoalmente perceber que a base original de Jerusalém não é ‘uma localidade, uma igreja’, mas sim, o próprio Cristo!

Então, Witness Lee argumentou com T. Austin Sparks dizendo: “Nós dizemos que a Base da Igreja é ‘uma localidade, uma igreja’, significando a unidade em uma cidade”. T. Austin Sparks falou: “Se você quer dizer que a base da igreja significa a unidade em uma cidade, isso significa que você concorda com a minha opinião, e discorda da de vocês! O ensinamento de ‘uma localidade, uma igreja’, ou qualquer outro ensinamento, não pode trazer unidade entre os Cristãos. Somente o próprio Cristo pode trazer a verdadeira unidade cristã. Não somente em um lugar, mas também em outros lugares! A verdade é: coisas dividem, Cristo une!” Quando eu ouvi isso, foi o segundo
choque para mim; de fato, o ensinamento da base da igreja desmoronou dentro de mim e eu abandonei totalmente aquele ensinamento a partir daquele momento.

Witness Lee Argumentou novamente, mas T. Austin Sparks disse: “Se você segue o guiar do Espírito Santo e faz algo de acordo com os exemplos do Novo Testamento, isso é bom, mas não diga que é o ‘único caminho’! O Espírito Santo é muito grande para ser compreendido”. (Como eu entendi, ele quis dizer: Não diga que todos os outros grupos cristãos são concubinas e não são a Igreja). Então, T. Austin Sparks disse: “Não há necessidade de prosseguirmos com esse tipo de reunião!” E imediatamente a reunião terminou.

Antes das 21:00h, Witness Lee veio até mim na casa dos obreiros, onde eu estava aguardando e me falou tudo que descrevi acima, e falou: “Nós nunca mais convidaremos T. Austin Sparks em nosso meio novamente!” No entanto, porque eu estava totalmente mudado com o que eu havia ouvido, eu argumentei com ele até meia noite – de fato, ate 1:00 da manhã. Uma coisa que eu me lembro de ter dito foi: “T. Austin Sparks nunca teve a intenção de controlar ou capturar a obra, ele somente ministra Cristo para nós! Se você não trabalha com ele ou rejeita seu ministério, que é o próprio Cristo, então isso significa que você está impedindo a entrada de Jesus Cristo (Ap 3:20)! Essa é uma questão séria e perigosa!” Finalmente, o irmão Lee pareceu estar convencido por mim e falou: “Eu trabalharei com ele (TAS) novamente!”. E eu estava mais satisfeito. Eu disse para o irmão Lee, “Se o irmão Watchman Nee estivesse aqui essa noite, ele teria mudado sua posição com relação a Lei da Localidade!” Mas o irmão Lee pareceu discordar de mim (Essa conversa foi na sexta-feira à noite).

Na segunda-feira seguinte pela manhã, o irmão T. Austin Sparks continuou suas mensagens sobre “O Persistente Propósito de Deus”. Quando ele falou (capítulo 9, página 69, do livro de mesmo título) ele disse, “Nós precisamos ser muito cuidadosos para não tornar Cristo, ou Sua igreja, menor do que ela realmente é. Nós não podemos tornar Cristo menor do que Deus O fez. Não podemos torná-lo apenas o nosso Cristo, nosso pequeno Cristo, o Cristo que pertence a nós, o Cristo da nossa localidade particular!”

Witness Lee não gostou de traduzir esse trecho para o chinês! No mesmo dia, por volta das 15:00h, Witness Lee veio para a casa dos obreiros para me ver. Irritado, ele bateu na mesa e gritou comigo, “Nós nos apegamos à Base da Igreja. Por que nos tornamos uma pequena igreja? Um pequeno Cristo?” Eu estava atônito e profundamente calado! Estava claro que W. Lee já não mais serviria junto com T. Austin Sparks no futuro!

Toda essa conversa foi privada, não em publico. Eu arrazoei, “Independente de Witness Lee servir com T. Austin Sparks ou não, já não importa!” Eu havia encontrando uma nova Bíblia (vendo em todo lugar o Cristo vivo) através do ministério do irmão T. Austin Sparks por meio do Espírito Santo! A maior necessidade de toda igreja local é comida espiritual (o Cristo vivo). Os princípios elementares de Cristo (leite espiritual) são bons, mas não são suficientes; nós devemos avançar e aprender obediência por meio dos sofrimentos para alcançar a maturidade (alimento sólido). Se os princípios elementares se tornam meras tradições, nós perdemos o frescor e impacto de vida: ‘As uvas de Escol tornam-se secas’ (Números 13:23). Nós temos que habitar Nele e ministrar nova luz e
vida – o novo Cristo vivo da Bíblia – e alimentar os cristãos com alimento sólido. Agora eu comecei buscar isso na Bíblia!

No final de 1958, Witness Lee me enviou a Gao-Xiong (a segunda maior cidade de Taiwan) para servir. Seguindo o guiar do Espírito Santo, eu me preparei para deixar de cooperar com o irmão Lee na obra. Graças ao Senhor, minha esposa arrumou um emprego como professora numa escola de ensino médio em Gao-Xiong. Desde então, eu nunca
mais participei das reuniões de cooperadores do irmão Lee.

1959 – Pela soberania de Deus, o ano de 1959 foi o começo de um trágico e terrível período para os grupos de Watchman Nee (incluindo o de Witness Lee). A razão: Em abril, depois de uma das reuniões de quinta-feira – sobre João capitulo 4 – por volta de 20:40h, Witness Lee (com o rosto bravo e face vermelha) fez um anúncio em publico, quando todos os cooperadores das igrejas de Taiwan e todos os santos locais estavam reunidos juntos em Taipei. Seu anuncio foi:

1. Sua declaração formal: “De agora em diante, não trabalharei mais com T. Austin Sparks”. Isso foi contra seu anúncio público feito em 1955: “Nós trabalharemos com T. Austin Sparks! Ele é como ouro puro, refinado e um diamante processado! Em 1934 Watchman Nee introduziu T. Austin Sparks e espalhou seu ministério por toda a China.” Nós ficamos todos alegres em ouvir isso em 1955, essa foi a primeira visita de T. Austin Sparks no Oriente. Watchman Nee também se referiu a T. Austin Sparks como um homem espiritual por diversas vezes enquanto ele estava em Xangai, em 1947. Isso quer dizer que, em verdade, Witness Lee disse que ele não mais trabalharia com pessoas espirituais a partir de 1959.

2. Witness Lee fala mal de T. Austin Sparks: Ele usou dialeto Shandong para falar contra T. Austin Sparks, que traduzindo significa: “A mensagem de T. Austin Sparks (pequena igreja, pequeno Cristo) é como um pum”. Quando ouvi essas palavras terríveis de W. Lee meu corpo todo tremeu e meu interior estremeceu. E pensei em meu coração, “Querido irmão Lee, o que você esta fazendo?! Por quê? Por que palavras sujas… que isso não seja nem nomeado entre nós, como é devido aos santos” (Efésios 5:3).

3. W. Lee amaldiçoa a si mesmo: Usando as palavras de Jacó, ele disse, “Se há divisão entre nós, porque me recuso a trabalhar com T. Austin Sparks, descerei ao Seol em agonia!” (Gênesis 37:35). Essa foi a primeira vez que não houve oração no final da reunião, todos foram embora tristes. No dia seguinte W. Lee estava doente. E, pelos próximos seis meses, não ministrou publicamente.

Na verdade, desde 1961, os grupos de Watchman Nee (incluindo grupos de Witness Lee) em Manila e subseqüentemente em Cingapura, Bangkok, Hong Kong e Taiwan, todos se dividiram. Até mesmo hoje, quarenta anos depois da divisão, aqueles que seguiram o ensinamento e obra da localidade de Nee continuam se dividindo e sendo exclusivistas. Isso é uma tragédia! Em princípio, aqueles que seguiram os cooperadores e presbíteros de Witness Lee, incluindo muitos da segunda geração foram e estão realmente experimentando “descendo em Seol em agonia.” Finalmente alguns deles se separaram de W. Lee.

 

Anexo 2 – Sumário (preparado pelo irmão Davi Feo, de Nairóbi, no final de 2010) da mensagem do irmão T. A. Sparks em Taipei, em janeiro de 1957

A mensagem está baseada na visão do Templo de Ezequiel em Ezequiel 40-48.

O primeiro ponto está fora da ordem cronológica. Isso veio no meio da mensagem, mas soou para mim como aplicado à mensagem em sua totalidade. Isso faz muito significado na luz do testemunho de Harold Hsu que diz que Witness Lee tinha tido uma discussão com T. Austin Sparks com relação à “base da localidade”. Essa mensagem foi liberada depois que eles tiveram uma discussão significativa sobre esse ponto, com outros envolvidos. Sparks sentiu-se guiado pelo Senhor para falar essa mensagem aos que estavam ali em Taiwan.

Nota: Cada reticência (…) na transcrição abaixo representa uma pausa dada pelo irmão Sparks, quando Witness Lee deveria traduzir sua mensagem para o chinês, para os irmãos que estavam participando daquelas reuniões.

Confissão de T. Austin Sparks sobre o ímpeto por trás dessa mensagem – 31:29-33:00

Eu devo dizer aqui que eu tive um profundo exercício diante do Senhor essa manha, e senti que deveria colocar pra fora todas essas coisas… E livrar-me desse aglomerado de material… E perguntar ao Senhor agora, “O que é isso que o Senhor quer me dizer?… O que o Senhor quer que essas pessoas saibam?” E aqui estão algumas das coisas que Ele tem definitivamente posto em meu coração para falar a vocês.

Os demais pontos estão na ordem em que se ouve na mensagem em áudio.

Admoestação concernente a tentativa de “montar a igreja” ou “praticar a Igreja” – – 0:00-13:29

Tem uma coisa que eu e você devemos ser bem cuidadosos em evitar… E isso trata-se de resolver as coisas espirituais num sistema técnico… De ser levado pelas técnicas da casa de Deus… Esse é um grande perigo… E eu quero enfatizar isso essa manhã… Aqui está essa grande quantidade de material e detalhes todos juntos, além da nossa capacidade de segurar… Se tivéssemos que resolver isso com um mero sistema técnico, nós poderíamos
facilmente destruir a vida.

Especialmente aqueles que têm responsabilidade… Esteja atento a esse perigo… Seria muito fácil para essa bela obra que Deus está fazendo se tornar apenas um sistema técnico… Você pode ter todas as regras e todos os princípios e perder a vida… Estou quase claro que vocês me permitirão dizer isso para vocês… Esse é um perigo que eu tenho lutado por muitos anos… Esse tem sido meu alvo principal, tentar evitar isso… Nós não queremos ver pessoas saindo por aí dizendo isso deve ser feito dessa maneira… é assim que eles fazem em Taipei e nessa outra cidade. Espero que o Senhor nos livre disso… Você não pode simplesmente colocar as pessoas num sistema e fazê-las viver… Tenho quase certeza que vocês vêem a importância disso.

A casa de Deus e a lei da casa de Deus é Santidade – 13:29-18:29

Ha uma lei na casa… Deus é bem particular em coisas pequenas… Cada pequena coisa tem sua própria medida… é uma medida que é dada por Deus… Você não tem permissão de fazer isso menor ou maior… Aquilo deve expressar exatamente a mente do Senhor.

Na visão da Casa de Deus não é apresentado um sistema… Ele não estava apresentando uma organização… Ele estava apresentando uma pessoa… Essa é a pessoa do Seu filho… Essa é uma casa espiritual… Não um sistema de verdade.

A Lei dessa casa é santidade de vida.

A casa de Deus, a igreja, e nossa percepção – 18:29-31:29

Nós devemos ser muito cuidadosos para não tornar Cristo, ou Sua igreja, menor do que ela realmente é… Nós não podemos tornar Cristo menor do que Deus O fez… Não podemos torná-lo apenas o nosso Cristo… nosso pequeno Cristo… O Cristo que pertence a nós… O Cristo da nossa localidade… Temos que ser bastante cuidadosos para não tornar Cristo menor do que Deus O fez… E não devemos fazer a igreja menor do que Deus a faz… Isso não é nossa pequena igreja… Não é a pequena igreja de pessoa alguma… Isso é muito maior do que nossos pensamentos… Vai muito além da nossa imaginação… Isso é um grandioso Cristo e uma grandiosa igreja… Aqui novamente devemos nos guardar contra os perigos… Esse é o perigo sempre presente de reduzir o tamanho de Cristo e da Igreja.

Primeiro aspecto da casa de Deus – Glória de santidade – 33:00-40:29

O que traz valor é isso… Que a real compreensão da igreja nos fará maior e não menores… Não tem nada que nos salvará mais da pequenez do que a verdadeira compreensão de Cristo… Se nós nos tornamos pequenos ou se a obra se torna pequena em sua mente, então, você não tem compreensão de Cristo.

Primeiramente [essa casa], é o lugar da glória de Deus. Essa casa é a casa da gloria de Deus… E você nota que todos os setenta versículos lidos dizem que a gloria é a gloria de santidade… Não é apenas algo resplandecente… é uma condição espiritual… Nenhuma mácula tem espaço aqui… Nenhum corpo morto tem espaço
aqui… Não há morte ou corrupção aqui… A gloria é a gloria de santidade… Onde corrupção e morte foram removidas… Lembre-se que a gloria depende da condição espiritual… ela depende da santidade.

Segundo aspecto da casa de Deus – Governo e Liderança – 40:29-47:29

Lembre-se que essa é uma casa celestial… A sede do seu governo não é uma igreja na terra… Ainda que esteja em Roma ou qualquer outro lugar… A sede do Seu trono é no Céu. Nós realmente só estamos debaixo desse governo de Deus quando estamos numa posição celestial.

Bem, o que nos temos no livro de Atos coloca isso claramente diante de nos… Lá a igreja está debaixo do governo dos céus… E é uma igreja muito eficaz… Quando a igreja esta debaixo do governo humano ela perde sua eficácia… O governo requer uma posição celestial.

O governo dessa casa é o governo do Espírito Santo… O Espírito Santo usa os homens… Ele deverá escolher os que serão chamados presbíteros… Mas há uma grande diferença entre oficial e espiritual… Você pode ser o que é chamado de presbítero oficialmente e não ser um espiritualmente… Se você é um presbítero espiritualmente, você será compelido a tornar-se oficialmente… Sua medida espiritual será reconhecida… E independentemente de você ser ordenado um presbítero ou não você o será espiritualmente… O governo, eu estou dizendo, é espiritual… Os homens no Novo Testamento foram descritos como homens cheios do Espírito Santo… Eles eram os apóstolos, eles eram os presbíteros, eles eram os diáconos… Há uma coisa que os fez ser o que eram… “Homens cheios do Espírito Santo.”

Terceiro aspecto da casa de Deus – Testemunho de Vida – 47:29-52:29

Essa casa é um canal ou um vaso da vida de Deus… De uma casa como essa flui vida… é a partir disso que a vida flui… Você não tem que começar o fluir de vida… Você não tem que fazer essa vida… Essa vida vem do manancial… Você não coleta baldes de água… E depois tenta jogar pra fora dessa casa… Não tem nada artificial nisso… Não tem nada de segunda mão… Não tem nada de coisas feitas por homem nisso.

Uma casa onde o Senhor está… À partir daquela casa a vida flui… O testemunho por si só está naquela vida… João falou, “esse é o testemunho”… Você quer saber o que é o testemunho?… O testemunho não é um sistema de doutrinas ou ensinamento… O testemunho não é uma técnica… Esse é o testemunho… Que Deus nos deu a vida eternal… E essa vida está em Seu Filho… O testemunho está na vida… E quando o testemunho está em nós? Quando a vida está em nós, o testemunho está em nós.

Depoimento de um ex-inválido

Written by Jethro Bezerra on . Posted in Comunhão

O texto a seguir é ficcional. É uma história inspirada no capítulo 5 do evangelho de João, inserido na sequência do texto para referência. É um exercício de interpretação e, muito despretenciosamente, literário também. O autor não teve ou tem nenhuma intenção de estabelecer verdades doutrinárias ou, muito menos, adicionar algum ‘til’ à palavra de Deus. Ainda que ele pessoalmente creia que a mensagem que pretende transmitir seja muito verdadeira. Se o texto servir para que os filhos de Deus ao menos se abram para receber a visitação libertadora do Senhor Jesus, independentemente das consequências, já terá cumprido seu propósito. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. JXBB


Betesda. A casa de misericórdia…

É impressionante como tudo agora faz sentido…

Eu fico me perguntando se o Senhor deu mesmo aquela risadinha de canto da boca ou se já não é tudo coisa da minha cabeça. Mas também, quem mandou eu ter dado aquela resposta tão boba? A verdade é que, se ele quisesse, ele poderia ter até gargalhado…

Se bem que quando eu paro para pensar, eu tenho minhas dúvidas se ele teria achado alguma graça naquela história. Sei lá, fico pensando nos amigos que deixei por lá e que até hoje não conseguem entender o que aconteceu comigo nem a mensagem do Salvador. Lembro também da reação dos fariseus naquele dia, e de todo o problema que até hoje eles têm causado, mesmo aqueles que se uniram aos discípulos na igreja. Toda essa obsessão que eles têm pelo assento de Moisés!.. A verdade é que talvez o Senhor ainda tenha muito trabalho pela frente até que encontre motivos pra sorrir.

O problema todo é que aquilo tudo acabava distraindo a gente demais. Toda aquela tradição, toda aquela religião… Se eu, que estava há 38 anos naquela situação, como um dos inválidos mais experientes (eu nem acredito que estou escrevendo isso), não tinha conseguido entender, fico imaginando então o que se passa na cabeça dos outros…

Pra falar a verdade, eu até nem sei direito de onde vem essa história das piscinas de cura. Só sei que nunca fizeram parte das leis de nosso povo. Uma vez ouvi o Simão dizer que há muito tempo atrás, os líderes religiosos da época, simplesmente assimilaram os Templos de Cura que eram utilizados pelos povos pagãos [1]. Eles disseram que era para satisfazer os interesses do povo que, segundo eles, acabariam utilizando os tanques de um jeito ou de outro. Pode até ser verdade que as intenções tenham sido as melhores, mas o fato do Sinédrio cobrar a taxa de manutenção do poço também deve ter ajudado bastante no argumento. Em todo caso, o Simão e os outros já confirmaram, e eu mesmo fiz questão de consultar com o curador da biblioteca, que a origem desses poços é puramente pagã mesmo.

Mas veja só, no meu tempo, se alguém me dissesse isso, eu ficaria até ofendido. Ainda me lembro daquelas reuniões que nós da Associação dos Inválidos e Amigos do Poço de Betesda fazíamos com o rabino pra reclamar do aumento do preço das taxas de manutenção. Ele então sempre nos mostrava algo nas escrituras. A preferida era sempre a passagem sobre ‘o povo murmurando contra Moisés nas águas de Mara’, que Deus então lhes dissera para que ‘fizessem o que era reto perante os olhos de Deus’, que assim haveria a ‘promessa do Deus que sara de que nenhuma enfermidade viria sobre nós’ e que finalmente, como resultado, ‘o povo acampara junto às águas de Elim, onde haviam também setenta palmeiras’. Ah! Sempre cedíamos e pagávamos o que fosse preciso pelo nosso lugar ‘junto às águas’[2]. Até porque as escrituras sempre nos comoviam muito. Fazer o quê? Ele era a autoridade nessas coisas espirituais e nós…, nós não passávamos de um grupo de pessoas carentes e ignorantes.

Como se não bastasse, a verdade é que, de alguma forma, as coisas funcionavam. Ainda me lembro de que, todas as vezes que alguém entrava primeiro na piscina e era curado, puxa, como aquele ambiente se enchia de alegria. Havia muitas glórias a Deus! O que poderíamos pensar, senão que aquilo era mesmo o último recurso da salvação de Deus pro seu povo? Hoje, acho simplesmente que Deus permitia aquilo tudo. Penso que, de um jeito ou de outro, Deus nos ama tanto que não vai perder nenhuma oportunidade de nos curar. Por outro lado, Ele também nunca vai querer nos impor nada em troca da nossa salvação, mas vai sempre nos dar a oportunidade de escolher…

Por isso que vejo até graça em ter respondido tão tolamente. Ainda bem que o Senhor sabia que no meu coração a resposta era sim. O problema é que eu estava muito acostumado com tudo aquilo. Não à toa, os dias que se seguiram à minha cura não foram lá muito fáceis. É claro que nada se comparava a poder andar novamente, mas que foi uma adaptação custosa, isso foi. Você há de concordar comigo, depois de quase quarenta anos, aquilo ali já tinha virado minha vida. Eu já sabia como aquele sistema todo funcionava. Aliás, sempre tentei participar da melhor forma na organização de tudo: o loteamento dos espaços, a distribuição de alimentos, a construção dos banheiros anexos… Como era difícil me locomover, até que não dava pra me envolver tão ativamente assim, mas pelo menos sempre vinham perguntar minha opinião. Não que no final das contas ela contasse muito, mas pelo menos fazia com que eu me sentisse um pouco importante…

Agora, mais curiosa ainda é a percepção curta que eu tinha do meu problema, achando que tudo o que me faltava era um homem que pudesse me levar até as águas. Oh! Quanta cegueira! O próprio Senhor na minha frente e eu achando que precisava de um outro alguém pra me guiar…

Hoje eu compreendo e meio que me envergonho de ter posto minha esperança em pessoas e coisas que não fossem o próprio Senhor. A verdade é que se o próprio Moisés estivesse ali pra me guiar, na presença gloriosa do Senhor Jesus ele simplesmente desapareceria. Ouvi dizer que, mais tarde, naquele mesmo dia, o Senhor dissera aos judeus que o perseguiam, provavelmente os mesmos que me repreenderam por estar carregando meu leito no sábado, que até mesmo as escrituras, em que eles tanto julgavam encontrar vida, testificavam dele mesmo. Uau! Para encontrar vida, bastaria se achegar até Ele. Nada mais. E eu distraído com tantas coisas…

Quem poderia dizer que hoje eu estaria andando. Não, eu não sou mais um inválido…

Quanta misericórdia! Meu guia, meu Elim, minha salvação, minha esperança, meu descanso, meu tudo, aquele que faz novas todas as coisas, bem ali na minha frente. Eu nem precisei me achegar a ele, mas foi ele quem veio até mim. Eu nem precisei dar a resposta certa, mas a cura veio mesmo assim. Tanta gente em tantos lugares em Jerusalém e ele veio justamente pra Betesda, a casa de misericórdia.

É, pensando bem, acho que ele deve ter dado aquele sorriso  sim…

 

[1] Maiores informações podem ser obtidas em http://en.wikipedia.org/wiki/Pool_of_Bethesda. Neste link, o artigo em inglês, mais completo, sobre o tanque de Betesda informa, por exemplo, que a menção da agitação das águas por um anjo nem mesmo fazia parte dos manuscritos mais antigos da bíblia.

[2] Citações de Êxodo 15:23-27. Servem para ilustrar como é possível produzir ensinamentos que nada tenham a ver com a verdade do evangelho. A displicência relacionada a chegar ao pleno conhecimento da verdade, que tem permitido a proliferação dos mais diversos e aberrantes tipos de doutrinas e práticas, tem desviado muitos filhos de Deus da fé comum. Vale lembrar que a distorção das escrituras pode atender aos mais nefastos interesses, até mesmo os do próprio inimigo de Deus, como demonstrado na tentação do Senhor Jesus, em Mateus 4.

 

“Depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.
Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.
Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.
Então os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar o leito.
Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma o teu leito, e anda.
Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito, e anda?
E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.
Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.
E aquele homem foi, e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara.
E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado.
E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente.
Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz; e ele lhe mostrará maiores obras do que estas, para que vos maravilheis.
Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer.
E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo;
Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.
Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.
Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão.
Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo;
E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.
Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz.
E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.
Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro.
Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.
Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
Eu, porém, não recebo testemunho de homem; mas digo isto, para que vos salveis.
Ele era a candeia que ardia e alumiava, e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz.
Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.
E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer.
E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós.
Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;
E não quereis vir a mim para terdes vida.
Eu não recebo glória dos homens;
Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus.
Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.
Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?
Não cuideis que eu vos hei de acusar para com o Pai. Há um que vos acusa, Moisés, em quem vós esperais.
Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”
João 5:1-47