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O ministério do Novo Testamento

Written by Stefano Mozart on . Posted in Estudo Bíblico

Na versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida (revisão 1995), a palavra ‘ministério’ é usada 47 vezes. No antigo testamento ela é utilizada em referência ao ofício dos sacerdotes, bem como ao serviço dos profetas (1 Cr 9:13; 2 Rs 17:23). Algumas vezes, ela representa a tradução da palavra hebraica ‘abodah’, que indica a realização das tarefas de um servo, ou escravo (1 Cr 23:14). Em outras ocasiões, é usada também como tradução de ‘shareth’, que indicava, especificamente, o serviço do tabernáculo (Ex 35:19). Em algumas poucas ocasiões é também tradução de ‘Yad’, que significa mão, e, figurativamente, capacidade, poder ou realização (2 Rs 17:23).

No Novo Testamento são 23 menções. Em duas ocasiões, ministério traduz o termo grego ‘leiturgia’, que era empregado para o serviço público, ou trabalho comunitário. Em Lucas 1:23, se refere ao serviço do templo. Em Hebreus 8:6, se refere ao sacerdócio superior de Cristo, em  comparação direta àquele exercido no templo da Antiga Aliança. Em outras poucas ocasiões, o termo ministério foi usado para traduzir ‘diatage’ ou ‘logos’, ambos se referindo a um mandato, uma ordem (At 7:53; 8:21). Mas é o termo ‘diakonia’ que encontra maior relação com a palavra ministério no Novo Testamento. Este é o termo utilizado por Pedro para definir o ministério apostólico em Atos 1:17. É o termo utilizado por Paulo para o ministério do Espírito (2 Co 3:8), o ministério da justiça, da reconciliação – o nosso ministério (2 Co 3:9; 4:1; 5:18). Paulo também fala sobre tornar plena, ou cumprir nossa ‘diakonia’ (Cl 4:17; 2 Tm 4:5).

Esse termo, soberanamente escolhido pelo Espírito Santo ao inspirar os autores do Novo Testamento, nos mostra o coração de Deus, Sua intenção. Deus quer nos suprir, nos alimentar e confortar. ‘Diakonia’ é justamente isso: distribuir, prover, suprir. É uma ação, não uma coisa. O Novo Testamento nos mostra que a responsabilidade dos apóstolos é suprir, alimentar àqueles a quem Deus tanto amou. Essa é também a responsabilidade dos profetas, dos evangelistas, dos pastores e mestres. Cada um o fará de acordo com a proporção da graça que recebeu (Ef 3:7), de acordo com a porção (grupo de pessoas) a que foi confiado (Gl 2:7-9), de acordo com a unção interior, que o ensina todas as coisas (1 Jo 2:27). Mas, o certo, é que todos devem apresentar sua justa contribuição no ministério, para um único objetivo: a edificação do Corpo de Cristo, em amor (Ef 4:16).

Infelizmente, os anos de história cristã provaram que nosso coração não é como o coração de Deus. A maioria dos cristãos entende os ministérios como sendo uma obra particular, uma realização pessoal ou, pior ainda, um índice de hierarquização: aquele que tem o maior ministério, ou o mais importante, pode exercer autoridade sobre outros. Alguns, ainda, teorizam sobre a existência de um único ministério, ao qual todos deveriam estar ‘submetidos’: um único tipo de falar, uma única corrente de pensamento, uma única organização, centralizadora e detentora única da verdade divina e do caminho da salvação. Foram entendimentos assim que levaram homens a cometer atrocidades em nome de Deus, na inquisição e nos muitos anos de trevas da história do cristianismo.

O Espírito nos confirma que esse entendimento – da existência de um único ministério – é incorreto ao confirmar a carta de Paulo aos Gálatas e a de Tiago, ambas como parte do texto Bíblico. Paulo afirma: “É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão. Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.” (Gl 2:16). Tiago, por sua vez, interpretou: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus.  Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” (Ti 2:21-24).

São duas interpretações acerca da mesma porção das escrituras, que geram duas práticas diferentes: uma desencoraja a busca por obras, enfatizando a fé; a outra, encoraja a realização de obras, ao valorizar a mesma fé. O certo é que ambos, Paulo e Tiago, escreveram com o fim de confirmar a fé dos santos, e animá-los a viver de acordo com essa fé. Ambos exerceram sua porção, seu ministério, e supriram os filhos de Deus com a fé. É incorreto pensar que Paulo deveria ter se submetido a Tiago, assim como é incorreto dizer que Tiago deveria ter seguido a Paulo. Ambos foram acolhidos e confirmados como ministros do Novo Testamento. Cada um com seu ministério.

Cada um de nós tem seu ministério. O texto grego do Novo Testamento ainda traz muitas declinações do termo ‘diakonia’, tais como ‘diakoneo’, ‘diakonetheida’, entre outras, que se traduzem para expressões como ‘meu ministério’, ‘nosso ministério’, e ‘teu ministério’. Isso quer dizer que a Escritura está cheia de provas de que cada um de nós deve exercer seu ministério. Cada um de nós deve se esforçar em suprir outros com as insondáveis riquezas de Cristo. É assim que todos nós chegaremos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:13).

O Ministério da Antiga Aliança era a composição do serviço levítico e sacerdotal, bem como a contribuição de cada um dos profetas. O Ministério do Novo Testamento é, por sua vez, o ministério do corpo de Cristo, o ministério de cada membro, a contribuição de cada parte. Não pode ser o ministério de um só. Não pode ser um tipo só de ministério, nem em favor de um grupo restrito. É o funcionamento normal de cada membro, em favor de todo corpo.

Que todos nós, a quem foi dado beber de um só Espírito, nos esforcemos para manter essa unidade do Espírito, no vínculo da paz, acolhendo, valorizando e nos beneficiando do ministério de cada membro (1 Co 12:13; Ef 4:3). Que cada um possa ser plenamente suprido pelo Ministério do Novo Testamento.